Poucas culturas concentram tanto valor em um único colmo: açúcar, etanol, bioeletricidade e uma lista crescente de subprodutos. Para o canavicultor, isso se traduz em um ciclo cheio de decisões, da análise de mercado, ao manejo da cultura e à definição da melhor janela de colheita. 

Este guia reúne os principais conteúdos do Mais Agro sobre a cana-de-açúcar, passando pela importância da cultura para o agro brasileiro, como a leitura do mercado orienta o manejo da cultura e como lidar com os principais desafios da cana, incluindo pragas, doenças e daninhas.  

Continue a leitura e utilize cada sessão como ponto de partida da sua próxima decisão para o seu canavial! 

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A força da cana no agro brasileiro 

Antes de falar do manejo da cana-de-açúcar, vale entender por que essa cultura ocupa um lugar tão estratégico no agro brasileiro.

Da primeira lavoura no período colonial até a conquista da liderança mundial pelo Brasil, foram a mecanização do campo e a introdução de cultivares mais resistentes que abriram caminho para novas regiões produtoras de cana além do Nordeste. 

Maquinário antigo e enferrujado dentro de galpão, remetendo a história da cana no Brasil.

Hoje, a cultura se distribui por estados como São Paulo, Goiás e Minas Gerais e movimenta uma cadeia que vai do campo à indústria. Na mesma cadeia convivem pequenas propriedades rurais e grandes grupos industriais, arranjo que mantém a cultura central para a balança comercial e para o desenvolvimento socioeconômico do país. 

Reduzir a cana a açúcar e etanol, porém, seria contar só parte da história. Bagaço, palha e vinhaça deixaram de ser resíduo para virar energia e receita, e é essa capacidade de transformar subprodutos em valor que alinha a cultura à uma agricultura cada vez mais sustentável. 

Mercado, etanol e a conta que vem antes do manejo 

Esse valor todo, porém, só se concretiza se a conta fechar. E ela começa na leitura de mercado, uma decisão que orienta todo planejamento da safra antes dela começar. 

Preço do açúcar, paridade do etanol no mercado interno, mix de produção e câmbio definem quanto cada tonelada vai valer e, por consequência, quanto faz sentido investir em manejo. 

A cada quinzena, o mix entre açúcar e etanol redesenha a rentabilidade da safra, à medida que preço, qualidade e clima mudam o valor de cada tonelada colhida. 

Nessa conta, o etanol ocupa um lugar especial, como ponte entre o canavial e a agenda global de descarbonização. A competitividade do etanol depende tanto da eficiência da agroindústria quanto da qualidade da matéria-prima que sai do campo, o que liga diretamente o resultado da usina às práticas adotadas na lavoura. 

Usina para produção de açúcar e etanol.

Com o cenário econômico lido, vem a pergunta seguinte: onde alocar recursos para o próximo ciclo? A resposta raramente está em economizar no manejo. Mesmo em anos de preços apertados, investir em tecnologia e manejo é o que protege a margem, porque produtividade e qualidade seguram a rentabilidade do produtor quando o mercado oscila. 

Começando a safra da cana: os primeiros desafios com os nematoides e patógenos de solo 

Definidos o cenário e o orçamento da safra da cana, o preparo da área e o cuidado com o solo sustentam toda a base produtiva do canavial.  

É no solo que o produtor encontra seus primeiros desafios. Nematoides e patógenos de solo agem cedo, comprometem o enraizamento e cobram seu preço na longevidade do canavial, muitas vezes sem sintoma visível na parte aérea.  

Proteger o sistema radicular com um bom manejo de nematoides e doenças do solo já no plantio é uma das decisões de maior alavancagem do ciclo, porque sustenta brotação, estande e produtividade nos cortes seguintes. 

Produtor avaliando solo em meio ao canavial para o manejo de nematoides e doenças.

Plantas daninhas: a disputa por cada tonelada de colmo 

Com a lavoura estabelecida, começa a corrida para proteger o potencial da cultura. E os primeiros concorrentes da cana nascem antes e junto com ela: as plantas daninhas.  

Plantas daninhas estão entre as maiores causas de perda de produtividade na cana. Competem por água, luz e nutrientes, hospedam pragas, doenças e nematoides e podem elevar de forma expressiva o custo de produção, com impacto direto no volume de colmos e na qualidade do caldo. 

Entre as espécies que mais preocupam, algumas viraram símbolo do problema. O capim-amargoso resiste a herbicidas e rebrota a partir dos rizomas, o que o torna uma das daninhas mais difíceis de erradicar. 

Lidar com esse desafio exige o planejamento de um programa de manejo integrado, não aplicação isolada. Controlar a matocompetição parte de um trabalho que começa no monitoramento e combina estratégias pré e pós-emergentes ao longo de um ciclo. 

A importância dos herbicidas pré-emergentes 

Os herbicidas pré-emergentes é uma das primeiras linhas de defesa do canavial. Aplicado antes da emergência das daninhas, oferece efeito residual e mantém a lavoura limpa por mais tempo, reduzindo a frequência de intervenções. 

A escolha certa, porém, se apoia em alguns pilares técnicos, e o primeiro deles é o levantamento das espécies presentes na área, seguido da escolha do melhor herbicida para a situação encontrada no campo. 

Acertar esse conjunto é o que mantém o canavial limpo nas fases mais sensíveis da cultura, quando a matocompetição mais pesa. 

Quando o residual acaba: o papel dos pós-emergentes 

Quando o residual dos pré-emergentes se esgota, reprogramar as aplicações e fazer repasses controla novos fluxos de emergência na lavoura. 

Plantas daninhas crescendo em canavial jovem.

A escolha do herbicida, nesse momento, passa por seletividade. É preciso um herbicida seletivo o bastante para controlar a daninha sem prejudicar a cana, em cana-planta ou em soca. 

Outro ponto importante a ser levado em consideração é a rotação de mecanismos de ação dentro do programa de manejo de daninhas na cama. O uso repetido de poucos mecanismos de ação seleciona populações cada vez mais difíceis de controlar, e organizar essa rotação é o que separa um controle pontual de um programa de manejo de herbicidas de verdade, sustentado em cinco frentes: 

  • Monitoramento: levantar as espécies e construir o histórico de infestação da área;
  • Programa integrado: combinar pré e pós-emergente, que se complementam;
  • Momento certo: atuar com as daninhas ainda pequenas, quando o controle é mais eficaz;
  • Leitura do clima: considerar a solubilidade e outras características de cada herbicida; 
  • Rotação de mecanismos: alternar modos de ação para preservar as tecnologias. 

Pragas, doenças e nematoides: monitorar para decidir 

Controlada a competição das daninhas, a atenção se volta para um inimigo que se move: as pragas. Diferente da planta daninha, que fica onde brotou, o inseto avança, se reproduz e muda de comportamento com o clima. Por isso, aqui o monitoramento deixa de ser apoio e vira o centro da decisão. 

Broca-da-cana, a inimiga número um da cana 

Se há uma praga que mais desafia o manejo na cana, é a broca-da-cana. Presente em todas as regiões produtoras, ela perfura o colmo, abre galerias, reduz o peso da planta e abre porta para microrganismos que invertem a sacarose e comprometem a qualidade industrial. 

Cada ponto de infestação da broca-da-cana custa quilos de açúcar por hectare, o que coloca a biologia e o ciclo da praga no centro de qualquer estratégia de controle. 

O ciclo, aliás, é o que orienta a janela de ação. Com picos no período quente e úmido, a fase larval é a mais destrutiva, capaz de inviabilizar frações relevantes da produção mesmo com índices baixos de infestação. 

Broca-da-cana consumindo colmo da planta.

O monitoramento transforma esse conhecimento em ação. Identificar a praga antes que a lagarta penetre no colmo separa um controle eficiente de uma aplicação tardia ineficiente. 

No controle químico, a palavra-chave é seletividade. Preservar os inimigos naturais torna a seletividade tão decisiva quanto a eficácia, de modo que controle químico e biológico se somem. 

A combinação de modos de ação amplia esse resultado. Associar diferentes mecanismos entrega controle superior da broca com flexibilidade de dose por talhão, ajustando o manejo à pressão da praga em cada área. 

E o manejo da broca não parou no tempo. Novas moléculas vêm ampliando os dias de controle em harmonia com inimigos naturais e biológicos, o que devolve eficiência operacional e rentabilidade ao produtor. 

Bicudo-da-cana: a praga de solo que encurta a vida do canavial 

Se a broca age à vista do produtor, outra parte das pragas da cana mais agressivas trabalha onde o olho não alcança. Nas raízes e na base da planta, o dano se acumula em silêncio e só aparece quando já comprometeu produtividade e longevidade. 

Entre as pragas de solo da cana, o bicudo-da-cana (Sphenophorus levis) é considerado uma das mais danosas. Presente nas principais regiões produtoras, a praga compromete o sistema radicular de forma silenciosa e progressiva, com impacto direto na longevidade e na produtividade do canavial. 

O dano começa na fase larval. As larvas se alojam na base dos colmos, abrem galerias nos rizomas e destroem os tecidos responsáveis pela sustentação e nutrição da planta. O sinal mais característico é uma serragem fina no interior da touceira.  

Em infestações elevadas, ocorre a morte de perfilhos e, nos casos mais severos, de toda a touceira, forçando reformas antecipadas que pesam no custo da safra. 

Mesmo níveis moderados de infestação já cobram um preço alto: em talhões com 10% das touceiras atacadas, a perda estimada pode alcançar 16 toneladas de cana por hectare. Em áreas com alta pressão, esse número chega a 25 toneladas por hectare ao ano.” 

O que torna o controle ainda mais desafiador é o ciclo biológico do inseto. Ovos, larvas e pupas permanecem protegidos na região subterrânea próxima das touceiras, fora do alcance de inspeções rotineiras do canavial.  

Larva de Sphenophorus levis na região das raízes da cana.

Por isso, o manejo do Sphenophorus levis se apoia em prevenção e monitoramento constante: 

  • Mudas sadias: evitar a chegada do inseto na área é a primeira e mais eficaz barreira de controle; 
  • Monitoramento com trincheiras: abrir trincheiras na linha da cultura e seccionar os rizomas é o método mais confiável para identificar a presença e o nível de infestação da praga;
  • Higienização de máquinas e implementos: equipamentos que transitam entre talhões podem transportar formas biológicas do inseto;
  • Controle químico direcionado: o tratamento no sulco de plantio e na soqueira leva o produto à zona de raízes, onde o inseto se concentra, aumentando a eficiência da aplicação. 

Quanto antes o produtor identifica e mapeia a infestação, mais eficaz é a resposta e menor o custo da reforma. 

O inimigo oculto: os nematoides 

Se a cigarrinha e o Sphenophorus já são difíceis de monitorar e controlar, os nematoides operam num nível ainda mais oculto e drenam produtividade da cana, muitas vezes, sem dar o aviso e cobram um preço alto na longevidade do canavial. 

Microscópicos e presentes na maioria das áreas de cana do país, os nematoides drenam produtividade já no primeiro ciclo de colheita e comprometem a renda de quem não enxerga o problema a tempo. 

Por isso, reconhecer sintomas cedo e proteger o canavial durante todo o ciclo é o que preserva o potencial produtivo da lavoura. 

Contra esse inimigo, a resposta vem ganhando uma frente biológica. Soluções biológicas vem se destacando por atuar em ovos e juvenis de nematoides e ainda favorecem o enraizamento, unindo eficiência e sustentabilidade em todas as fases do cultivo. 

Doenças da cana: identificar cedo é a melhor defesa 

Se as pragas podem ser facilmente monitoradas inspecionando a lavoura, boa parte das doenças age sem dar esse aviso. Muitas viajam dentro das mudas e nas ferramentas de corte, e só mostram os primeiros sintomas quando a produtividade já caiu. 

O Brasil reconhece dezenas de doenças com importância econômica para a cana, causadas por vírus, fungos e bactérias. Entre as principais: 

  • Mosaico da cana: reduz o desenvolvimento vegetativo e pode comprometer a produtividade em variedades suscetíveis. A disseminação ocorre por mudas infectadas e pelo pulgão-vetor. 
  • Ferrugem-marrom (Puccinia melanocephala): ataca as folhas e reduz a área fotossintética da planta. Variedades suscetíveis podem sofrer perdas expressivas, especialmente sob condições de alta umidade. 
  • Escaldadura-das-folhas (Xanthomonas albilineans): bactéria sistêmica que se dissemina por mudas contaminadas e ferramentas de corte. Em estágios avançados, causa o secamento das folhas e a morte da touceira. 
  • Carvão (Sporisorium scitamineum): o sintoma mais característico é o chicote negro que emerge do ápice da planta. A doença reduz o perfilhamento e compromete a qualidade dos colmos. 
  • Podridão-vermelha (Colletotrichum falcatum): fungo que causa lesões internas nos colmos, com coloração avermelhada nos internódios. Reduz o teor de sacarose e a qualidade da matéria-prima. 

Cada agente se dissemina e se controla com uma abordagem diferente, o que torna o manejo integrado de doenças da cana indispensável para proteger o potencial produtivo do canavial.

O caminho para conviver com esse conjunto de ameaças começa por reconhecer os sintomas cedo. Quanto antes a doença é identificada, mais eficaz é a resposta, e reduzir essa pressão ao longo de todo o ciclo é o que preserva o índice de área foliar, a sanidade da planta e o potencial produtivo da cana.

Produtor fazendo o monitoramento de doenças em canavial.

Síndrome da murcha da cana: a ameaça emergente que atinge ATR, TCH e qualidade 

Nos últimos anos, uma nova preocupação se somou ao quadro fitossanitário da cana: a Síndrome da Murcha da Cana (SMC). Diferente das doenças clássicas, a SMC resulta da ação combinada de fungos patogênicos, principalmente Colletotrichum falcatumPleocyta sacchari e espécies de Fusarium, o que torna o diagnóstico mais complexo e o controle mais desafiador. 

Os sintomas são progressivos. Primeiro, surgem lesões avermelhadas na nervura central das folhas. Em seguida, os colmos perdem vigor e começam a murchar, dobrando na região do ponto de infecção.  

Nos casos mais avançados, o interior dos colmos apresenta coloração avermelhada ou marrom glacê, e estruturas fúngicas podem se tornar visíveis na superfície dos tecidos afetados. Um detalhe que ajuda na identificação: quando o murchamento decorre da SMC, o ponteiro da cana tende a permanecer verde

Sintomas da Síndrome da Murcha da Cana (SMC).

O impacto na rentabilidade é direto e triplo: 

  • compromete o TCH Toneladas de Cana por Hectare, com reduções que podem ultrapassar 25% e, em áreas mais críticas, alcançar 45%; 
  • reduz o teor de ATR (Açúcar Total Recuperável) e altera o índice de Brix, afetando a pureza do caldo e o valor da matéria-prima entregue à usina;
  • encurta a longevidade do canavial, antecipando reformas e elevando o custo do ciclo produtivo. 

O que torna o problema ainda mais preocupante é que a SMC não respeita fronteiras varietais. Até o momento, os sintomas foram observados em diversas variedades de cana em Estados como São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, afetando cerca de 30% das áreas de cultivo no país

As estratégias de enfrentamento ainda estão em construção, mas já convergem em algumas frentes: o corte antecipado de áreas afetadas para limitar perdas de ATR, o controle químico com fungicidas de comprovada eficácia sobre os patógenos associados, o monitoramento rigoroso dos sintomas e o desenvolvimento de variedades mais resistentes, linha de pesquisa conduzida por instituições como o IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) em parceria com o setor privado. 

Para o canavicultor, a mensagem prática é clara: reconhecer os sintomas cedo e agir com base em um programa de manejo integrado é o que separa uma perda controlável de um prejuízo que compromete a safra inteira. 

Da colheita ao ATR: onde o manejo vira rentabilidade 

Vencidas as daninhas, as pragas, doenças e nematoides, chega o momento em que todo esse esforço é colocado na balança. Na colheita da cana, cada decisão das etapas anteriores reaparece convertida em dois números que definem a rentabilidade do produtor: o TCH (Toneladas de Cana por Hectare) e ATR (Açúcar Total Recuperável). TCH e o ATR

TCH e ATR, a moeda do setor 

Juntos, o TCH e o ATR dizem quanto a lavoura produziu e quanto dessa produção realmente vira açúcar e etanol. 

Indicador O que mede Por que importa 
TCH  Volume de cana colhido por área Mostra a produtividade do canavial 
ATR  Açúcar recuperável por tonelada Define o preço pago e a qualidade da matéria-prima 

No fim, é a maturação bem conduzida que converte todo o manejo das etapas anteriores em valor por hectare, sobretudo em anos de margens pressionadas. 

Do plantio à colheita, uma decisão de cada vez 

O ciclo da cana é uma sequência de escolhas encadeadas, e cada uma depende da anterior. Da leitura de mercado ao preparo do solo, do controle de daninhas, pragas, doenças e nematoides, o que sustenta a produtividade não é uma decisão isolada, e sim a soma de boas decisões ao longo de todo o ano. 

Desafios não faltam, do clima às pragas, dos custos ao mercado. Mas, com informação de qualidade e tecnologia aplicada no momento certo, cada um deles vira oportunidade de proteger a lavoura, elevar o ATR e colher um canavial mais rentável. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

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