Identificar e monitorar as pragas iniciais da soja vai exigir atenção redobrada na safra 2026/27, e o motivo já está no radar do produtor: o retorno do El Niño. Segundo o Painel El Niño 2026-2027 do INMET, o fenômeno se configurou em junho e as projeções apontam probabilidade acima de 80% de intensificação justamente na janela de plantio da oleaginosa.
Para o produtor do Cerrado e do MATOPIBA, isso se traduz em chuvas antecipadas mas irregulares, veranicos e temperaturas elevadas. Já no Sul do país, o mesmo fenômeno se manifesta de forma oposta: excesso de precipitação, com risco de encharcamento de solos e atrasos na janela de semeadura.
Em qualquer um dos cenários, o estabelecimento se firma como a janela decisiva do ciclo, e é nela que o produtor precisa estar mais atento. As pragas iniciais também sabem disso, e é nesse mesmo período que elas já começam a agir.
Este conteúdo reúne o que o produtor precisa observar nas primeiras semanas do ciclo: como identificar as principais pragas iniciais da soja, como diferenciar a principais espécies de lagartas e percevejos, como estruturar o monitoramento nesse período e por que a proteção começa antes mesmo da semente encostar no solo. Continue a leitura e prepare o olhar para a próxima caminhada de campo!
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Principais pragas iniciais da soja: o que observar e como diferenciar
O olhar do produtor precisa começar rente ao solo. As pragas que atacam antes ou logo depois da emergência agem escondidas, e os sinais que deixam são diferentes daqueles que aparecem quando o problema já está na parte aérea.
Pragas de solo
Nas fases que antecedem e sucedem a emergência, o alvo do monitoramento está no solo e nas raízes. Duas pragas concentram as ocorrências mais relevantes nesse estrato.
Coró (Lyogenis fuscus)
Larvas de besouros da família Melolonthidae de coloração branca ou creme, com corpo curvado em “C”, cabeça marrom visível e comprimento de poucos milímetros a mais de 3 cm. Alimentam-se de raízes e sementes de soja em germinação.

No talhão, o sinal mais claro é a falha de estande em reboleiras, com plantas amareladas e de fácil arranquio. A amostragem exige abertura de trincheiras de aproximadamente 40 cm por 30 cm de profundidade antes do plantio.
Tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus)
Besouro preto de 8 a 10 mm, com manchas amareladas no dorso e rostro alongado típico dos gorgulhos. As larvas são brancas, ápodas e curvadas.

As larvas hibernam no solo entre safras, o que direciona o monitoramento pré-plantio. Segundo a Embrapa, a observação de três a seis larvas hibernantes por metro quadrado já indica uma infestação relevante. O dano dos adultos aparece no caule das plântulas, com raspagem característica que pode levar ao tombamento.
Pragas do colo e da parte aérea
Conforme a plântula emerge e as primeiras folhas se expandem, o foco do monitoramento passa para as lagartas da soja.

O padrão de dano permite identificar rapidamente o grupo de praga envolvido, e algumas espécies exigem atenção redobrada porque o sinal pode confundir.
| Espécie | Como identificar a lagarta | Onde ataca | Sinal característico |
| Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) | Corpo cinza-escuro a marrom, aspecto oleoso, hábito de enrolar-se ao ser tocada; até 4 cm | Colo, subterrânea durante o dia | Plântulas cortadas rente ao solo, em reboleiras; lagarta enrolada logo abaixo da superfície |
| Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus) | Corpo verde-azulado com listras transversais marrons, muito ágil; cerca de 1,5 a 2 cm | Colo, no interior do caule | Galeria interna, plântulas murchas mesmo com solo úmido, coloração arroxeada da parte aérea |
| Lagarta-militar (Spodoptera frugiperda) | Corpo pardo com “Y” invertido claro na cabeça e quatro pontos escuros em trapézio no penúltimo segmento; até 4 cm | Folhas jovens e colo | Raspagem no limbo foliar, fezes escuras próximas ao dano |
| Lagarta-das-folhas (Spodoptera eridanea) | Corpo variando de verde a marrom-escuro, com faixas laterais claras e triângulos escuros no dorso | Folhas expandidas | Desfolha em reboleiras, consumo pelas bordas |
| Helicoverpa (Helicoverpa armigera) | Coloração variável (verde, marrom, rosada) com listras longitudinais claras e escuras; corpo com tubérculos e cerdas escuras visíveis | Terço superior da planta | Furos em folhas e ataque a ponteiros |
| Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) | Corpo verde ou escuro com quatro listras longitudinais claras; movimento em “arco” ao ser tocada | Folhas jovens e expandidas | Desfolha uniforme; movimento característico ao ser tocada |
| Lagarta-falsa-medideira (Pseudoplusia includens) | Corpo verde-claro com finas listras longitudinais brancas; possui apenas três pares de falsas pernas, o que dá o movimento em arco típico das medideiras | Folhas jovens e expandidas | Desfolha “em rendilhado”, preservando as nervuras |
A ocorrência de lagartas na parte aérea nas primeiras semanas é particularmente relevante em áreas com ponte verde, sucessão após milho ou proximidade com hospedeiros. Nesses cenários, o monitoramento da face inferior das folhas e do ponteiro precisa começar já a partir de V1.
Sugadores e desfolhadores: atenção nas primeiras folhas
Assim que a plântula emerge, dois alvos também entram no radar do monitoramento do produtor.
Vaquinha-verde-amarela (Diabrotica speciosa)
É um besouro de cerca de 5 a 6 mm, com élitros verdes e três manchas amareladas em cada lado, marca visual que dá nome à espécie. O adulto é o estágio que causa dano na parte aérea da soja, alimentando-se das folhas jovens e deixando furos irregulares no limbo.
É visível sobre a planta durante o dia, o que facilita a detecção nas caminhadas de monitoramento.

Mosca-branca (Bemisia tabaci)
É um inseto pequeno, de aproximadamente 1 a 2 mm, com asas brancas cobertas por uma cerosidade característica. Adultos e ninfas se concentram na face inferior das folhas, e a inspeção precisa incluir a virada das folhas cotiledonares e unifolioladas nas primeiras caminhadas.

Ocorrências precoces são mais frequentes em anos quentes e secos e em áreas próximas a culturas hospedeiras.
Como estruturar o monitoramento na fase de estabelecimento
Monitorar a fase de estabelecimento da soja exige mais do que caminhar pelo talhão. Exige método, frequência definida e um roteiro planejado. Nos primeiros 25 DAE, esse roteiro pode se organizar em cinco etapas:
- Antes da semeadura: revisar histórico do talhão, ocorrências da safra anterior e situação de áreas vizinhas.
- Da emergência a V2: caminhadas a cada cinco a sete dias, com no mínimo cinco pontos amostrais por talhão de até 50 hectares.
- Em cada ponto: observar um metro linear de fileira, incluindo colo, folhas e solo próximo à planta.
- Registrar sempre: espécie observada, número de indivíduos, estádio da praga e da cultura, e localização no talhão.
- Comparar com o nível de controle de cada praga antes de acionar intervenção.
Manter esse registro em ferramenta de mapeamento, mesmo simples, permite construir o histórico do talhão ao longo das safras.
O que esperar da pressão de pragas na safra 2026/27 com o El Niño
A chegada do El Niño muda a dinâmica das pragas iniciais da soja de formas distintas entre as regiões, e isso ajuda a antecipar quais alvos merecem atenção redobrada no monitoramento na safra 2026/27.
No Cerrado e no MATOPIBA, o cenário de veranicos, chuvas irregulares e temperaturas elevadas na janela de estabelecimento tende a favorecer pragas que se beneficiam de solo mais seco e ciclos biológicos acelerados. Os alvos que ganham destaque:
- lagarta-elasmo: ocorrência associada a períodos de seca e solos arenosos;
- corós: atenção reforçada em áreas com histórico e palhada abundante;
- mosca-branca: o calor pode antecipar sua chegada na lavoura;
- complexo Spodoptera: pressão pode adiantar-se, principalmente em áreas em sucessão com milho.
No Sul, o excesso de precipitação e a maior umidade prolongada no solo criam ambiente distinto, favorecendo outro conjunto de alvos:
- lagarta-rosca: favorecida pelo solo úmido e pela palhada mantida no plantio direto;
- corós: também podem se manter ativos em áreas de histórico;
- lagartas desfolhadoras: a umidade sustentada nas primeiras semanas favorece sua permanência;
- sobreposição de gerações: o atraso na janela de semeadura pode aumentar esse risco no talhão.
Em ambos os recortes, o tamanduá-da-soja segue como alvo de monitoramento pré-plantio em áreas de histórico, independentemente do padrão climático.
Ainda assim, nenhuma previsão substitui o que o produtor vê no monitoramento de campo.
Da identificação à decisão de manejo
Identificar e monitorar a praga é metade do processo. A outra metade é decidir o que fazer com essa informação, articulando as ferramentas do Manejo Integrado de Pragas (MIP) de acordo com o momento da lavoura e o alvo em questão.
No estabelecimento da soja, o MIP se organiza como uma combinação de táticas que atuam em momentos diferentes e sobre alvos diferentes:
- Rotação de culturas e manejo do solo: quebram o ciclo de pragas com histórico na área e reduzem populações de alvos como tamanduá-da-soja e corós ao longo das safras;
- Época de semeadura e escolha de cultivares: posicionam a lavoura fora das janelas de maior pressão de determinadas pragas;
- Tratamento de sementes: oferece proteção ativa desde a germinação, atuando sobre o complexo de pragas iniciais na janela em que a plântula está mais exposta.
Dentro desse conjunto, o tratamento de sementes é a decisão que o produtor toma antes de qualquer caminhada de campo para o monitoramento de pragas e ela define a base com a qual a lavoura vai iniciar a safra.
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Combinar o monitoramento estruturado desde a primeira semana com um tratamento de sementes posicionado para o complexo de pragas iniciais é o que permite alcançar um estande firme e forte desde o início, com o potencial produtivo preservado.
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