A safra de cana-de-açúcar 2025/26 no Brasil está em reta final e apresenta tendências importantes em produção, qualidade e mercado. Dados oficiais atualizados até meados de outubro de 2025 revelam um cenário de moagem ligeiramente inferior à safra passada, ATR em queda e ajustes no mix de produção entre açúcar e etanol.  

Por outro lado, observa-se recuperação na demanda interna de etanol e desaceleração nos preços do açúcar, influenciadas por fatores internacionais, como oferta global e câmbio. 

Neste artigo, trazemos uma análise técnica e jornalística desses números, explicando o que eles significam na prática para produtores e usinas. Você verá comparativos com a safra 2024/25, evolução quinzenal, preços domésticos, desempenho das exportações e influências externas (como mercado asiático e dólar) sobre as estratégias de comercialização.  

Continue lendo para entender como esses indicadores impactam as decisões no campo e nas vendas, e confira dicas de gestão diante do cenário atual. 

Leia também: 

Síndrome da Murcha da Cana ou não? 8 sintomas para ficar de olho 
Broca-da-cana: especialista fala sobre os prejuízos aos canaviais 
Daninhas na cana: o quanto isso afeta a sua rentabilidade? 

Moagem acumulada e qualidade (ATR) até setembro/2025 

Até meados de setembro de 2025, as usinas do Centro-Sul processaram 450,01 milhões de toneladas de cana, volume ~3,7% inferior ao mesmo período da safra 2024/25 (467,20 milhões t). Essa redução confirma a expectativa de safra ligeiramente menor: a Conab, em seu 1º levantamento, projetou 663,4 milhões de toneladas de cana no Brasil em 2025/26, queda de ~2% ante a safra anterior.  

Em termos de qualidade da matéria-prima, o teor de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) médio caiu em relação ao ciclo passado. Na primeira quinzena de setembro/2025, o ATR foi de 154,58 kg por tonelada de cana, cerca de 3,4% abaixo do valor de 160,07 kg/t da safra anterior.  

No acumulado da safra, o ATR médio situou-se em 134,08 kg/t, queda de ~3,93% frente ao mesmo período de 2024. Ou seja, além de moer menos cana, as usinas estão extraindo menos açúcar por tonelada

Esse declínio de qualidade, embora moderado, tem impacto direto na produção final de açúcar e etanol por hectare 

Conforme a UNICA, a combinação de menor produtividade agrícola (-8% em toneladas/ha) e queda de ~4% no ATR, resultou em 12% menos ATR por hectare colhido nesta safra.  

Na prática, isso significa menos produto extraído por área, reduzindo a receita potencial dos fornecedores de cana. Produtores sentem esse efeito: com menos açúcar por hectare, é preciso ser mais eficiente (ou colher áreas maiores) para atingir as mesmas metas de produção. 

Comparativo de produção – Safra 2025/26 vs. 2024/25 (até 16/09): 

Indicador (Centro-Sul) 2025/26 <br> (até 16/09/2025) 2024/25 <br> (até 16/09/2024) Variação 
Cana moída (milhões t) 450,01 467,20 -3,7% 
ATR médio (kg/t) 134,08 ~139,5 -3,9% 
Açúcar produzido (milhões t) 30,39 30,41 -0,1% 
Etanol produzido (bilhões L) 20,81 ~22,98 -9,5% 
Mix açúcar (% da cana) ~53% ~48% +5 p.p. 

Tabela 1: comparativo dos principais indicadores acumulados da safra até 16/09/2025 vs. mesmo período da safra 2024/25. Fonte: UNICA. 

Observa-se na tabela que, apesar da cana moída em menor quantidade, a produção de açúcar se manteve praticamente igual a do ciclo anterior (-0,1%). Isso se deve ao maior direcionamento de ATR para açúcar em 2025/26.  

O mix produtivo mudou significativamente: aproximadamente 53% da cana (ou do ATR) está indo para a fabricação de açúcar até o momento, enquanto, na safra 2024/25, esse percentual fechou em torno de 48%. Essa inversão do mix – mais açúcar, menos etanol – foi uma estratégia esperada pelas usinas diante dos preços internacionais favoráveis ao açúcar no início da safra. 

Mix de produção: açúcar vs. etanol em 2025/26 

As usinas adotaram um mix mais açucareiro neste ciclo, buscando aproveitar a rentabilidade maior do açúcar no mercado externo no primeiro semestre de 2025.  

Até 16/09, a produção acumulada de açúcar no Centro-Sul atingiu 30,39 milhões de toneladas, praticamente empatada com o volume do ano anterior (30,41 mi t) mesmo com menos cana processada. Isso só foi possível destinando uma fatia maior da matéria-prima para açúcar.  

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), a expectativa era de 50,5% do ATR voltado ao açúcar na safra 2025/26, um aumento de 1,8 ponto percentual sobre 2024/25, projeção que está se confirmando na prática. 

Entretanto, à medida que a safra avança, condições operacionais e de mercado têm ajustado esse mix  

Na primeira quinzena de setembro, a proporção de cana para açúcar recuou para 53,5%, contra 54,2% observados na quinzena anterior (final de agosto). Esse leve recuo indica que algumas usinas “viraram a chave” para o etanol com a mudança de cenário. 

Ou seja, em usinas mais distantes dos portos (GO, MT, MG), onde os custos logísticos reduzem o ganho com exportação de açúcar, o aumento dos preços internos do etanol tornou a produção de biocombustível mais atrativa do que continuar forçando açúcar. 

No agregado da safra até setembro, a produção de etanol totalizou 20,81 bilhões de litros, uma queda de ~9,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Detalhando, foram produzidos 13,02 bi L de etanol hidratado (-11,36%) e 7,79 bi L de anidro (-6,21%).  

Etanol de milho  

Bomba de etanol apoiada em grãos de milho, com duas espigas em destaque.

Essa redução já era esperada devido ao mix menos alcooleiro. Contudo, vale notar que a produção de etanol de milho continua em expansão e tem amenizado a queda: 4,12 bilhões de litros de etanol de milho foram fabricados de abril a meados de setembro, um salto de 19,4% frente ao ano anterior.  

Hoje cerca de 16-17% de todo etanol do Centro-Sul já vem do milho, contribuindo para o abastecimento mesmo quando a cana destina mais suco ao açúcar. 

O que isso significa na prática?  

Para as usinas, gerir o mix açúcar/etanol tornou-se um exercício quinzenal: com a volatilidade de preços, é preciso flexibilidade para redirecionar a cana conforme o mercado.  

Nos momentos de açúcar em baixa (como observado em setembro), produzir mais etanol ajuda a preservar margens e evitar o acúmulo de estoque de açúcar num mercado fraco. Já quando o açúcar está remunerador, as plantas maximizam o adoçante para exportação. Essa gestão dinâmica exige planejamento logístico (tanques disponíveis para etanol, por exemplo) e acompanhamento atento das cotações.  

Para o produtor de cana, as oscilações do mix se refletem no valor do ATR pago: com preços do açúcar menos vantajosos e usinas fazendo mais etanol, a remuneração média do ATR tende a cair nesta safra.  

Preços internos: açúcar em queda e etanol em recuperação 

No mercado doméstico, os preços do açúcar e do etanol tomaram rumos opostos nos últimos meses. O açúcar cristal no mercado spot nacional está bem mais barato que há um ano, enquanto o etanol hidratado teve alta recente de preços, sustentado pelo consumo. 

Em setembro/2025, o Indicador CEPEA/ESALQ do açúcar cristal (Icumsa 130-180, São Paulo) fechou com média de R$ 118,65 por saca de 50 kg, uma queda real de 17,5% em relação a setembro/2024 (quando a média foi R$ 143,88, em valores corrigidos).  

Esse é o maior diferencial negativo do ano e reflete dois fatores principais:  

  • (1) a baixa das cotações internacionais do demerara, que, em setembro, oscilaram entre 15 e 16 c/lb na Bolsa de NY, contra 18 a 23 c/lb em setembro do ano passado;  
  • e (2) a oferta elevada de açúcar no Centro-Sul nesta safra, dado o mix mais açucareiro e a boa performance das usinas até o momento. Além disso, varejistas relatam demanda doméstica morna por produtos com açúcar, dificultando repasses e pressionando ainda mais as usinas a competirem em preço para escoar o excedente.  

Em suma, o produtor que vende açúcar internamente enfrenta preços bem menores, o que reduz as margens, um alerta para reforçar controle de custos e buscar alternativas, como exportar ou estocar parte da produção aguardando momentos melhores. 

Já o etanol hidratado apresentou firmeza e até alta de preços recentemente 

Após um primeiro semestre volátil, o mês de setembro trouxe valorização: o indicador CEPEA/ESALQ mensal do hidratado em SP ficou em R$ 2,7583/L, representando alta de 3,25% sobre agosto. Embora modestos, esses ganhos sinalizam um mercado de etanol aquecido pela demanda interna.  

Não por acaso, as vendas de etanol hidratado no mercado doméstico cresceram – na 1ª quinzena de setembro, as usinas do Centro-Sul venderam 864,8 milhões de litros de hidratado internamente, +5,9% ante o mesmo período da safra anterior.

Campo Florido, Minas Gerais, Brasil: 26 de junho de 2008: trabalhador monitorando o etanol na usina de açúcar e na planta de produção de etanol, Minas Gerais, Brasil

Em todo o mês de setembro, estimativas apontam que o consumo de hidratado no Brasil subiu cerca de 18% em relação a setembro/2024, atingindo possivelmente seu recorde do ano. Isso se deve à competitividade do etanol frente à gasolina: com a reoneração dos impostos federais e encarecimento da gasolina, o biocombustível voltou a ser vantajoso em muitos Estados.  

Dados da ANP mostraram, no início de outubro, que, em cidades responsáveis por ~65% do consumo nacional, o preço do etanol equivalia a menos de 70% do da gasolina (paridade favorável), chegando a 98% das localidades no Estado de São Paulo com vantagem para o etanol. Essa paridade incentivou o motorista a abastecer com álcool, elevando a saída das distribuidoras e, por consequência, sustentando o preço do produtor. 

Em resumo: o açúcar está mais barato que no ano passado dentro do país, enquanto o etanol está vendendo bem e com cotações firmes 

Para as usinas, isso reforça a atratividade de produzir etanol para o mercado interno neste momento de safra, equilibrando a pressão de baixa do açúcar.  

Para os fornecedores de cana, a queda no açúcar é parcialmente compensada pelo etanol: o Consecana SP (que calcula o valor da matéria-prima) aponta uma leve recuperação recente, com o ATR projetado em R$ 1,20/kg na safra 2025/26 – número melhor que algumas previsões, graças justamente ao suporte do etanol.  

Mas essa recuperação é tímida; portanto, cana com ATR alto e logística eficiente, continua sendo essencial para assegurar boa remuneração. 

Exportações: volumes e destinos do açúcar e do etanol brasileiros 

No front externo, o Brasil segue como líder global de exportação de açúcar e importante exportador de etanol, mas os volumes embarcados em 2025 estão inferiores aos do ano passado, em parte devido à menor produção e também por questões comerciais.  

A receita caiu ainda mais (-28% em USD) porque os preços médios também recuaram em relação a 2024. Ainda assim, trata-se de um volume expressivo, e a logística portuária operou bem – com destaque para agosto e setembro, quando os embarques mensais superaram 3 milhões de t cada. 

Os destinos do açúcar brasileiro em 2025 refletem mudanças na demanda global 

Países asiáticos e do Oriente Médio continuam liderando as compras. Em agosto, por exemplo, os principais destinos foram: China (843 mil t), Indonésia (292 mil t), Índia (251 mil t), seguidos por Nigéria e Argélia.  

No acumulado do ano, China e Indonésia despontam como maiores importadores do nosso açúcar – uma mudança importante, já que tradicionalmente a Indonésia figurava em primeiro.  

A China aumentou suas importações em 2025 e assumiu a ponta, beneficiada também por uma questão pontual: a imposição de tarifa de 50% pelos EUA sobre produtos brasileiros a partir de agosto.

Assim, a China ocupou o posto de principal destino, aproveitando a menor concorrência e a necessidade de recompor estoques domésticos. Outros importadores importantes em 2025 incluem Emirados Árabes, Bangladesh e países da África do Norte, que aparecem entre os principais compradores nos relatórios mensais. 

Para o etanol, as exportações brasileiras também registram queda no acumulado do ano, mas com sinal de retomada recente 

Entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil exportou 1,06 bilhão de litros de etanol, volume 17,8% abaixo do mesmo período de 2024. A menor produção de cana (e mais consumo interno) limitou as sobras exportáveis.  

Esse foi um dos maiores volumes mensais do ano, indicando escoamento de etanol no pico da safra – possivelmente ligado a oportunidades de venda para a Ásia e a Europa, e ao câmbio (o dólar mais alto torna nossas exportações de etanol competitivas). 

Os destinos do etanol brasileiro são mais concentrados na exportação do que o açúcar 

Em 2024, os principais compradores foram Coreia do Sul e Estados Unidos, seguidos por alguns países da Europa (Países Baixos, Bélgica) e Ásia. Já em 2025, com a mudança no cenário tarifário dos EUA e a demanda oscilante, houve alguma reorganização: a Coreia do Sul desponta como maior importadora individual – somente em setembro, cerca de 180 milhões de litros (70% do total do mês) tiveram como destino o mercado sul-coreano.  

A Europa também continuou importante: Países Baixos e Suécia aparecem entre os principais destinos naquele mês, indicando compras para fins químicos ou de reexportação dentro da UE. Nigéria e Japão são outros mercados notáveis para o nosso etanol, embora menores.  

Quanto aos Estados Unidos, que em 2024 importaram ~313 milhões de litros do etanol brasileiro (especialmente do tipo avançado), até o momento reduziram suas compras devido às tensões comerciais – o que pode estar contribuindo para direcionarmos mais volume à Ásia.  

Em suma, o etanol brasileiro encontra colocação, mas requer jogo de cintura dos exportadores para aproveitar janelas de oportunidade, já que é um mercado mais restrito e sujeito a barreiras (cotizações, exigências de padrão de sustentabilidade, etc.). 

Para produtores e usinas, o desempenho das exportações traz dois recados claros 

No açúcar 

Apesar da queda anual nos volumes, os patamares continuam elevados e o Brasil sustenta sua liderança global. Porém, a concorrência de outros players e fatores externos (clima na Ásia, políticas de importação) impactam os preços. Em 2025, a melhora da safra da Índia e a perspectiva de superávit mundial moderado ajudaram a aliviar os preços internacionais.  

Decisões de comercialização, como fixar preço via hedge ou segurar estoque, dependem muito do timing: quem aproveitou picos de preços no primeiro tri pôde travar cotações melhores; já no segundo semestre, com preços mais baixos, muitos preferem exportar o necessário para fazer caixa e guardar o resto para eventuais recuperações de preço.  

No etanol 

A forte alta das exportações em setembro mostra que há mercado externo demandando nosso etanol, especialmente quando o preço do petróleo sobe (tornando a mistura de etanol atrativa lá fora) ou quando ocorrem quebras de safra de milho nos EUA. Ficar atento a esses movimentos permite às empresas desovar excedentes com boa rentabilidade.  

Contudo, é importante lembrar que o etanol exportado ainda é uma fração pequena perto do consumido internamente – o foco principal continua sendo o mercado doméstico de combustíveis, mais estável e de grande volume.  

Tendências e influências do mercado internacional

As decisões de comercialização nesta safra 2025/26 estão sendo moldadas por diversos fatores internacionais. Entre os principais, destacam-se: 

Preços internacionais do açúcar:  

  • Depois dos picos de 2024, o bruto recuou em 2025 e opera perto de 15–16 c/lb (antes ~20+ c/lb). 
  • A queda reflete maior oferta global (Índia e Tailândia compensando) e, no Brasil, câmbio que estimulou exportações. 
  • Com preço menor, eficiência e timing de hedge viram chave; altas pontuais são usadas para fixar parte da produção

Taxa de câmbio (Real vs Dólar):  

  • Dólar alto melhora receita em reais nas exportações; dólar baixo reduz competitividade do açúcar brasileiro. 
  • Em 2025, o câmbio oscilou (~R$4,80 a ~R$5,40), exigindo proteção cambial e agilidade comercial
  • Para o produtor, isso chega via valor do ATR: dólar e preço do açúcar definem remuneração; hedge ajuda a segurar margem. 

Demanda asiática e de outros importadores:  

  • Ásia segue puxando (China e Indonésia ~10–11 mi t/ano), mantendo escoamento, porém a preços menores
  • Índia é o coringa: se liberar exportações, pode pressionar ainda mais as cotações globais. 
  • Oriente Médio e Norte da África voltam às compras com preço mais baixo; o mix brasileiro ajusta conforme essa tração. 

Preço do petróleo e mercado de energia:  

  • Petróleo mais caro → gasolina mais cara → etanol mais competitivo (no Brasil e fora). 
  • Em 2025, oscilações do Brent e política de combustíveis interna favoreceram o hidratado
  • Usinas reagem aumentando anidro/hidratado conforme a janela de demanda e preço. 

Políticas e sustentabilidade:  

  • Barreiras/tarifas podem fechar mercados de um dia para o outro; é preciso diversificar destinos
  • Requisitos ESG e de baixo carbono ganham peso (UE e outros), premiando produtos certificados
  • Estratégia comercial deve considerar preço + compliance (RenovaBio, rastreabilidade, carbono) para garantir acesso e prêmio. 

Em conclusão, a safra 2025/26 traz desafios de produtividade e preços, mas também oportunidades de mercado para quem souber se adaptar 

A conjuntura atual exige do setor sucroenergético um olhar atento tanto dentro da porteira – com eficiência agrícola e industrial para mitigar a menor produtividade – quanto fora dela – com inteligência de mercado para surfar nas oscilações de preços e demandas globais. A boa notícia é que o Brasil segue competitivo e essencial no mercado mundial de açúcar e etanol e, mesmo num ano difícil, deve encerrar a safra com números satisfatórios. 

Com informação de qualidade e ações proativas, os produtores e consultores do setor poderão atravessar este ciclo com resiliência e se preparar para aproveitar ao máximo as oportunidades da próxima safra. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo.