Lavouras de soja com desfolha intensa e populações de lagartas que não respondem adequadamente às aplicações de inseticidas: esse cenário, cada vez mais frequente nas principais regiões produtoras do Brasil, tem como um dos protagonistas a lagarta-falsa-medideira, Chrysodeixis includens.
Até os anos 1990, essa espécie era considerada praga secundária, com ocorrências esporádicas e impacto limitado. A intensificação do cultivo de soja, a adoção de variedades Bt e a pressão de seleção sobre populações de insetos alteraram esse quadro de forma significativa.
O avanço da espécie está diretamente relacionado à sua maior tolerância a inseticidas em comparação com outras lagartas desfolhadoras, como Anticarsia gemmatalis.
Segundo a Embrapa Soja, C. includens apresenta características biológicas que favorecem sua sobrevivência sob pressão química, o que torna o manejo integrado de pragas (MIP) indispensável para a tomada de decisão no campo.
Neste conteúdo, são apresentados os aspectos biológicos e morfológicos de C. includens, os critérios para diferenciá-la de Rachiplusia nu no campo, as técnicas de monitoramento e os fundamentos para calibrar o controle com base em dados concretos de população e desfolha.
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Da biologia ao comportamento: o que torna C. includens uma praga persistente
Chrysodeixis includens pertence à família Noctuidae, subfamília Plusiinae, grupo que reúne espécies com características morfológicas semelhantes e hábitos noturnos.
O ciclo biológico completo, do ovo ao adulto, varia de aproximadamente três a seis semanas, a depender das condições de temperatura, com a fase larval se estendendo por aproximadamente 13 a 20 dias, conforme dados do IRAC-BR.
Um comportamento relevante para o monitoramento é a preferência da lagarta pelo terço inferior da planta, especialmente nos estádios iniciais de desenvolvimento larval.
Essa posição dificulta tanto a detecção visual quanto o contato com inseticidas aplicados por pulverização convencional, reduzindo a eficácia de produtos com baixa mobilidade sistêmica.
Tolerância a inseticidas: por que C. includens desafia os produtos convencionais
A tolerância de C. includens a inseticidas está associada a mecanismos enzimáticos de detoxificação mais ativos do que os observados em A. gemmatalis.
Populações com histórico de exposição repetida a inibidores de biossíntese de quitina (grupo IRAC 15) apresentam resistência documentada, conforme registros do IRAC-BR.
Esse cenário é agravado pela pressão de seleção exercida por aplicações sequenciais do mesmo mecanismo de ação, sem rotação de grupos químicos.
Campo ou laboratório: as diferenças cruciais entre C. includens e Rachiplusia nu
A diferenciação entre as duas espécies é um passo crítico para o manejo, pois apresentam respostas distintas a inseticidas e tecnologias Bt. No campo, a identificação pode ser feita com base em características morfológicas do adulto e da lagarta.
Manchas nas asas e coloração: os sinais visuais que definem a lagarta-falsa-medideira
Os adultos de C. includens apresentam nas asas anteriores duas manchas prateadas, brilhantes, separadas e bem nítidas, enquanto R. nu exibe uma mancha opaca e contínua unida, lembrando o símbolo do infinito.
As lagartas de C. includens apresentam coloração verde-clara com listras longitudinais brancas, enquanto as de R. nu, principalmente nos ínstares finais, tendem a exibir tonalidade verde mais escura e maior atividade de deslocamento nas folhas.
As pernas torácicas de R. nu também são mais escuras que as de C. includens, embora a diferenciação segura dependa da observação de caracteres morfológicos específicos, como a dentição da mandíbula e os microespinhos dorsais do tórax, presentes apenas em R. nu.
Do Brasil ao mundo: como o comportamento da praga varia conforme a região
Tano a C. includensquanto R. nu t já estão presentes em todas as regiões produtoras do país.
Essa distribuição geográfica influencia diretamente as estratégias de manejo adotadas em cada região. Além disso,a presença crescente de R. nu tem sido associada a escapes em lavouras com soja Bt, o que reforça a necessidade de identificação precisa antes de qualquer decisão de controle.
Critérios de diferenciação entre as duas espécies:
| Característica | C. includens | R. nu | Implicação para o manejo |
| Mancha nas asas | Duas manchas prateadas, brilhantes, distintas e bem delimitadas | Mancha opaca e contínua (unida) | Identificação do adulto em armadilhas |
| Coloração da lagarta (ínstares finais) | Verde-clara com listras brancas | Verde mais escura, pernas escurecidas | Diferenciação visual no pano de batida |
| Região de maior ocorrência | Presente em todas as regiões produtoras; historicamente predominante no Cerrado e Centro-Oeste | Historicamente restrita ao Sul; hoje já disseminada em todas as regiões, incluindo Cerrado | Adequação da estratégia regional |
| Resposta à soja Bt (Cry1Ac) | Controlada | Escape documentado — hoje é a principal praga em soja Bt no país | Risco de falha no controle Bt |
| Tolerância a IRAC 15 | Alta, com resistência documentada | Menor, mas crescente | Rotação de mecanismos de ação |
Monitoramento correto e nível de ação
O monitoramento sistemático é a base do MIP e a única forma de tomar decisões de controle com precisão. A ausência de dados populacionais concretos leva a aplicações desnecessárias ou tardias, ambas prejudiciais à rentabilidade e ao manejo de resistência.
Pano de batida: a técnica que revela o real cenário de infestação
O pano de batida é o método padrão para amostragem de lagartas na soja. A técnica consiste em estender um pano branco de 1 metro entre duas fileiras da cultura e sacudir vigorosamente as plantas sobre ele, contando as lagartas que caem.
Recomenda-se realizar pelo menos cinco amostragens por talhão, em pontos distribuídos de forma representativa, evitando bordas e áreas atípicas.
Na contagem, é fundamental separar lagartas pequenas (até 1,5 cm) de lagartas grandes (acima de 1,5 cm), pois o nível de ação varia conforme o tamanho e o estádio da cultura.
Quando agir: desfolha, tamanho da lagarta e estádio da cultura como indicadores
Segundo as diretrizes do MIP para soja, o nível de ação para falsa-medideira é de 20 lagartas grandes por metro linear ou 30% de desfolha no período vegetativo e 15% no período reprodutivo.
Esses valores, referenciados pela Embrapa Soja, devem ser interpretados em conjunto: uma lavoura com população abaixo do nível de ação, mas com desfolha elevada, pode exigir intervenção dependendo do estádio fenológico.
Resistência a inseticidas: o cenário atual
O manejo da lagarta-falsa-medideira não pode mais ser planejado apenas com base em eficácia de produto. A resistência a inseticidas já é uma realidade documentada e em expansão, e conhecer o cenário atual é essencial para evitar decisões que aceleram ainda mais esse processo.
Inibidores de biossíntese de quitina (IRAC 15): resistência documentada e crescente
Os inibidores de biossíntese de quitina, pertencentes ao grupo IRAC 15, foram amplamente utilizados no controle de lepidópteros na soja. Porém a exposição repetida a esse mecanismo de ação, sem rotação com outros grupos, acelerou a seleção de populações resistentes de C. includens em diversas regiões produtoras.
O IRAC-BR recomenda a rotação entre grupos de mecanismos de ação como medida prioritária para retardar o avanço da resistência.

Soja Bt e falsa-medideira: eficácia comprovada e o risco silencioso de R. nu resistente
A soja Bt trouxe ganhos reais no controle de lagartas, mas seu desempenho não é uniforme entre as espécies-alvo.
Enquanto a eficácia sobre C. includens é consistente, o comportamento da tecnologia frente a R. nu revela uma fragilidade que merece atenção antes que se torne um problema generalizado.
Cry1Ac contra a falsa-medideira: eficácia e o desafio da resistência em R. nu
A proteína Cry1Ac, presente em diversas cultivares de soja Bt comercializadas no Brasil, apresenta eficácia sobre C. includens, mas demonstra controle limitado sobre R. nu. Populações de R. nu com resistência à Cry1Ac já foram documentadas em lavouras do Sul do Brasil, conforme relatos técnicos de pesquisadores da UFSM.
Esse escape representa um risco crescente, especialmente em regiões onde a espécie tem maior pressão populacional.
Refúgio e rotação: estratégias que preservam a durabilidade das tecnologias Bt
As áreas de refúgio, obrigatórias pela l Instrução Normativa nº 59 do Ministério da Agricultura (MAPA) para lavouras com tecnologia Bt, têm papel fundamental na manutenção de populações suscetíveis na área.
Além disso, a inclusão do controle químico diferentes modos de ação, é igualmente recomendável para proteção da lavouras e das tecnologias disponíveis para o controle dessas lagartas.
Calibrando estratégias: como integrar monitoramento, controle químico e biológico
A decisão de controle deve ser sempre precedida pelo monitoramento e pela confirmação de que a população atingiu o nível de ação. Os principais critérios para calibrar a intervenção:
- Identificar corretamente a espécie presente (C. includens ou R. nu) antes de escolher o produto;
- Verificar o histórico de aplicações na área para identificar possível pressão de seleção por grupos específicos;
- Priorizar a rotação entre mecanismos de ação distintos a cada aplicação;
- Considerar o uso de agentes de controle biológico, como o fungo entomopatogênico Nomuraea rileyi;
- Monitorar a eficácia da aplicação alguns dias após a intervenção, realizando novo pano de batida para verificar a redução populacional
O controle biológico com N. rileyi é uma ferramenta complementar relevante, pois atua de forma seletiva sobre lepidópteros e não exerce pressão de seleção sobre os mecanismos de resistência a inseticidas químicos.
Sua eficácia, porém, depende de condições ambientais favoráveis, especialmente umidade relativa elevada.
Para aprofundar o conhecimento sobre Rachiplusia nu e entender o que está por trás da elevação de ocorrências dessa espécie, acesse o conteúdo do Mais Agro.
O monitoramento como pilar de qualquer decisão de controle
O manejo da lagarta-falsa-medideira na soja exige uma abordagem integrada, que começa pela identificação correta da espécie e passa pelo monitoramento sistemático com pano de batida, pelo respeito ao nível de ação e pela rotação de mecanismos de ação.
A diferenciação entre C. includens e R. nu não é apenas uma questão taxonômica: ela define a estratégia de controle, a escolha do produto e a avaliação do risco de escape em lavouras com tecnologia Bt.
A pressão de resistência documentada reforça que aplicações sem critério técnico comprometem a eficácia dos inseticidas disponíveis e elevam o custo de produção sem necessariamente reduzir o dano.
O MIP, fundamentado em dados de campo e em conhecimento técnico sólido, é o caminho mais assertivo para proteger o potencial produtivo da lavoura de soja.
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