A adoção da colheita mecanizada transformou o setor sucroenergético brasileiro. A eliminação da queima reduziu as emissões de material particulado e gases de efeito estufa, melhorou as condições de trabalho no campo e viabilizou a colheita de cana em larga escala.  

No entanto, a operação mecânica introduziu novos desafios técnicos relacionados às perdas de matéria-prima, à compactação do solo e ao manejo da palhada. 

Neste artigo, serão detalhados o funcionamento da colheita mecanizada, os principais desafios operacionais, as estratégias para minimizar perdas e os cuidados necessários para o manejo da palhada. 

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Como funciona a colheita mecanizada da cana-de-açúcar 

A colheita mecanizada envolve uma sequência de operações realizadas pelas colhedoras que substituíram o antigo sistema manual de colheita da cana. Segundo aConab (Companhia Nacional de Abastecimento), quase 100% da safra paulista já utiliza colheita mecanizada, enquanto no Brasil o índice supera 90%.  

As etapas do processo são: 

  • Corte dos colmos na base, próximo ao solo, para maximizar o aproveitamento da matéria-prima. 
  • Corte dos ponteiros, removendo as extremidades superiores das plantas. 
  • Alimentação da colhedora, que recolhe os colmos cortados. 
  • Remoção das folhas e impurezas vegetais por meio de ventiladores e extratores. 
  • Picagem dos colmos em segmentos menores, facilitando o transporte e processamento industrial. 

A colheita da cana exige lavouras bem formadas, solo nivelado e planejamento operacional rigoroso para evitar perdas excessivas e danos às soqueiras. 

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Obstáculos operacionais na mecanização: gargalos e soluções práticas 

Apesar dos avanços tecnológicos, a colheita mecanizada apresenta desafios que impactam diretamente a produtividade e a qualidade da matéria-prima entregue à usina. Os principais são: 

  • Tombamento dos colmos: quando as plantas ficam dispostas horizontalmente, dificulta o corte basal e aumenta as perdas. O controle de pragas e doenças que enfraquecem o colmo é uma medida essencial. 
  • Perdas de matéria-prima: a literatura registra valores que variam de 5% a 15% da produção, dependendo das condições do canavial e da regulagem da colhedora, divididas em perdas visíveis (colmos inteiros ou pedaços deixados no campo) e perdas invisíveis (fragmentos pequenos, caldo residual e impurezas misturadas ao solo). 
  • Impurezas minerais e vegetais: reduzem a qualidade tecnológica da matéria-prima, impactando o rendimento industrial. A calibração dos extratores e a velocidade de operação são fatores determinantes para o controle desse problema. 
  • Compactação do solo: o tráfego intenso de máquinas pesadas compromete a estrutura física do solo, dificultando o desenvolvimento das soqueiras e reduzindo a longevidade dos canaviais. 
Colheitadeira de cana-de-açúcar transferindo cana cortada para reboques puxados por trator, sob céu azul.
Colheitadeira de cana-de-açúcar transferindo cana cortada para reboques puxados por trator, sob céu azul.

Estratégias para minimizar perdas e elevar o desempenho operacional 

A redução das perdas na colheita mecanizada depende de um conjunto de boas práticas operacionais e tecnológicas aplicadas de forma integrada: 

  • Preparo prévio da lavoura: nivelamento do solo e adequação dos talhões antes da colheita, favorecendo o corte basal uniforme e reduzindo danos às soqueiras. 
  • Calibração da colhedora: ajuste da altura de corte, velocidade de avanço e configuração dos extratores conforme as características do talhão e das condições climáticas. 
  • Capacitação de operadores: treinamento contínuo para operação criteriosa, monitoramento das perdas em campo e resposta rápida a falhas de regulagem. 
  • Tráfego controlado: definição de rotas fixas para as máquinas, contribuindo para reduzir a compactação do solo e preservar a estrutura dos sulcos de plantio. 
  • Escalonamento da safra: sincronização da maturação da cana com a capacidade de processamento da usina, evitando a colheita de matéria-prima fora do ponto ótimo. 
  • Tecnologia embarcada: uso de sensores e sistemas de monitoramento nas colhedoras para reduzir perdas em tempo real, identificar falhas de regulagem e otimizar o desempenho operacional. 

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Palhada na cana: manejo inteligente para maximizar benefícios e evitar armadilhas 

O manejo da palhada tornou-se um dos temas centrais na cana-de-açúcar após a consolidação da colheita sem queima. A cobertura do solo oferece benefícios amplamente documentados, dos quais pode-se destacar: 

  • Manutenção da umidade do solo, reduzindo a evaporação e favorecendo o desenvolvimento das soqueiras. 
  • Redução da erosão, protegendo o solo contra o impacto das chuvas. 
  • Melhoria da matéria orgânica e ciclagem de nutrientes, promovendo a fertilidade do solo. 
  • Supressão de plantas daninhas, dificultando a emergência de espécies invasoras. 

No entanto, a presença excessiva de palhada pode criar problemas, como o aumento de pragas que se abrigam na palhada. Por isso, as estratégias recomendadas para o manejo equilibrado da palhada são: 

  • Incorporação parcial da palhada ao solo: equilibrando proteção e decomposição. 
  • Monitoramento de pragas : com uso de armadilhas e inspeções regulares para detectar e intervir no início da infestação. 

Mecanização e sustentabilidade: impactos ambientais e avanços no setor sucroenergético 

A mecanização da colheita da cama resultou em impactos positivos para a sustentabilidade do setor sucroenergético. 

 A eliminação da queima da cana reduziu significativamente as emissões de material particulado e gases de efeito estufa, contribuindo para a melhoria da qualidade do ar nas regiões produtoras. Além disso, a incorporação de tecnologia embarcada nas colhedoras, como sensores e sistemas de monitoramento, permite reduzir perdas e otimizar o consumo de combustível. 

No entanto, a mecanização também gerou desafios sociais, como a substituição da mão de obra manual e a necessidade de requalificação profissional dos trabalhadores do setor. 

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Colheita mecanizada: tecnologia e manejo para o futuro da cana 

A colheita mecanizada representa um grande avanço para o setor sucroenergético brasileiro, mas exige atenção contínua às boas práticas operacionais e ao manejo sustentável do sistema.  

O equilíbrio entre produtividade, preservação do solo e manejo da palhada é o que determina a longevidade dos canaviais e a competitividade das usinas. 

O investimento em tecnologia embarcada, calibração de precisão e treinamento de operadores são práticas que fazem a diferença no dia a dia do canavicultor. A redução das perdas na colheita, mesmo de 1 a 2 pontos percentuais, representa ganhos expressivos em receita por hectare ao longo de uma safra. 

O avanço da colheita mecanizada no Brasil, aliado ao desenvolvimento de variedades mais resistentes ao tombamento e ao surgimento de colhedoras com maior precisão de corte, aponta para um futuro em que as perdas operacionais serão progressivamente reduzidas, fortalecendo a posição do país como líder mundial na produção sustentável de cana-de-açúcar. 

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