Quem está à frente do manejo da cana-de-açúcar sabe o quanto é desafiador superar os limites da produtividade. A pressão por eficiência operacional e rentabilidade cresce a cada safra e, quando o assunto é produtividade, uma das maiores barreiras segue sendo a mesma: as plantas daninhas

O cenário atual reforça essa urgência. A safra 2025/26 fechou com produção estimada em 673,2 milhões de toneladas de cana, uma redução de 0,5% em relação ao ciclo anterior, com queda de 2,6% na produtividade média nacional, agora em 75.184 kg/ha, segundo o 4º levantamento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Em um ambiente de margem apertada, cada tonelada perdida por competição com daninhas pesa diretamente no resultado. 

O ciclo semiperene da cana, as diferentes fases climáticas (úmida, seca e transição) e a diversidade de espécies infestantes compõem um quadro em que o manejo precisa ser dinâmico. Aplicar o produto certo, no momento certo, deixou de ser uma escolha operacional para se tornar decisão estratégica de safra. 

Neste conteúdo, você vai entender por que a convivência com as daninhas compromete a rentabilidade antes mesmo da colheita, qual o peso financeiro dessa perda por hectare, como o avanço da resistência muda a equação econômica e quais práticas ajudam a proteger a margem do canavicultor. 

Continue a leitura para dimensionar o impacto e ajustar a estratégia para as próximas safras! 

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A diversidade de daninhas na cana complica a vida do canavicultor

Um dos pontos que complicam o manejo das plantas daninhas na cana-de-açúcar é a diversidade de espécies que competem com a cultura. São diferentes épocas do ano, diferentes condições climáticas e, claro, diferentes tipos de invasoras, com sensibilidades e resistências distintas às moléculas. 

De acordo com levantamento da Kynetec (safra 2024/25), pelo menos metade das áreas de cana no Brasil convive com um complexo formado por brachiarias, capim-colchão, capim-colonião e cordas-de-viola, além de outras espécies  de daninhas.que aparecem com frequência regional. 

Infográfico destacando as principais plantas daninhas na cana-de-açúcar

Na prática, isso significa que não existe uma abordagem padrão para o controle. Cada espécie tem seu próprio ciclo e suas particularidades, e o manejo assertivo passa por entender quais plantas estão prevalecendo em cada momento e escolher a tecnologia adequada para combatê-las. 

Entre as principais daninhas que atrapalham a produtividade e a rentabilidade dos canaviais: 

  1. Mucuna (Mucuna spp.): trepadeira de crescimento rápido, enrola-se nas plantas de cana, dificulta o desenvolvimento e compromete a colheita. 
  1. Mamona (Ricinus communis): folhas largas competem por nutrientes e água; sementes tóxicas podem afetar a qualidade da matéria-prima. 
  1. Corda-de-viola (Ipomoea spp.): especialista em enrolar-se na cana, causa danos mecânicos e compromete a colheita mecanizada. 
  1. Capim-colchão (Digitaria spp.): crescimento denso e taxa de reprodução elevada; compete intensamente por água e nutrientes. 
  1. Merremias (Merremia spp.): trepadeiras que dificultam a colheita mecanizada e reduzem o rendimento operacional. 
  1. Capim-colonião (Panicum maximum): planta anual entouceirada, altamente competitiva em ambientes tropicais. 
  1. Braquiária (Urochloa decumbens): perene, agressiva, com sementes viáveis no solo por vários anos. 
  1. Capim-camalote (Rottboellia cochinchinensis (L.)): pode causar perdas significativas de rendimento na cana-planta, sobretudo na fase inicial de desenvolvimento. 

E falando em resistência… 

O uso repetido e não estratégico dos mesmos mecanismos de ação seleciona populações de plantas daninhas resistentes aos herbicidas mais utilizados e o problema tende a se agravar a cada safra. 

Espécies como o capim-amargoso (Digitaria insularis) e a buva (Conyza spp.) já apresentam biótipos resistentes a diferentes mecanismos de ação, e a pressão sobre a cana tende a crescer conforme cultivos vizinhos, como soja e milho, reforçam esse banco de resistência regional. 

A resistência afeta a produtividade e também o custo operacional. Se antes uma única aplicação bastava para controlar as invasoras, hoje pode ser necessário aumentar dose ou multiplicar aplicações, o que eleva o custo do manejo e pressiona ainda mais a rentabilidade. 

A resposta técnica passa por três frentes: 

  • Rotação de mecanismos de ação, evitando dependência de uma mesma família química ao longo dos cortes. 
  • Associação de moléculas complementares, para ampliar o espectro e reduzir a pressão de seleção sobre um único sítio de ação. 
  • Planejamento antecipado, levando em conta as particularidades de cada talhão e o histórico das populações de daninhas presentes. 

O suporte de especialistas e parceiros técnicos que acompanham a evolução regional da resistência é fundamental para orientar as práticas de manejo. 

Qual o impacto das daninhas na produtividade e na rentabilidade da cana-de-açúcar?  

Quando o assunto é rentabilidade, a conta é direta: quanto mais eficiente a produção, maior o retorno. Mas, como já vimos, as plantas daninhas na cana são uma ameaça constante à produtividade e à eficiência operacional. E o que muitas vezes escapa da análise é que as perdas começam a se acumular desde o início da convivência

O ATR (Açúcar Total Recuperável) é o indicador que traduz a qualidade da cana e sua capacidade de ser convertida em açúcar ou etanol. Não se trata apenas do volume colhido, mas de quanto desse volume gera receita. Um ATR mais elevado significa mais açúcar e etanol pela mesma tonelada de cana, e é sobre esse índice que a indústria remunera o canavicultor. 

Alcançar índices elevados de ATR se torna ainda mais crítico em um cenário em que a concorrência e a volatilidade de preços exigem eficiência operacional cada vez maior. A oscilação do açúcar e do etanol impacta diretamente o valor do ATR e, por consequência, a rentabilidade do produtor

E é aí que entram as daninhas: estudos mostram que a convivência com essas plantas reduz significativamente o teor de ATR

Traduzindo o impacto em números 

Um estudo clássico de Silva et al. (2009) demonstrou que, para cada dia de convivência com plantas daninhas em cana-soca, houve uma perda de 13,12 kg de ATR por hectare, considerando a competição com Ipomoea hederifolia

Figura 1: quantidade de ATR em função dos períodos crescentes de convivência com predomínio de I. hederifolia. (Silva, et al. 2009) 

Para dimensionar o impacto financeiro, tomando por base a referência do Consecana-SP em maio de 2026, o valor do quilo do ATR em São Paulo estava em torno de R$ 1,12.  

Considerando a perda de 13,12 kg de ATR/ha comprovada pelo estudo, cada dia de atraso no controle das daninhas representa uma perda de aproximadamente R$ 14,70 por hectare, por dia

Em 120 dias de controle pelo herbicida, o retorno para o produtor rural seria de: R$ 14,70 × 120 dias de controle ≈ R$ 1.760,00 por hectare. 

O mesmo estudo, conduzido em cana-soca com Ipomoea hederifolia, identificou redução de 34% no número final de colmos e de 46% na produtividade. Sem competição, a produtividade média chegou a 71,65 t/ha. Com convivência de até 229 dias após o brotamento, caiu para 38,59 t/ha. 

Outros dados reforçam a magnitude do problema: 

  • Cana-soca colhida no período úmido: queda de 42,4 t/ha, o equivalente a 33,4% de perda (Meirelles et al., 2009). 
  • Cana-planta de 18 meses: perda de até 47,5%, conforme Kuva et al. (2003), a depender das espécies. Em áreas dominadas por capim-braquiária, a redução pode chegar a 82%
  • Convivência com mucuna-preta por 180 dias após a brotação: redução de 29,3% no ATR em comparação a áreas sem interferência. 

Reduções dessa magnitude no ATR comprometem a viabilidade econômica da operação. O ponto-chave é claro: quanto mais tempo as daninhas permanecem no campo competindo com a cana, maiores as perdas. Controlar a infestação o mais cedo possível protege a produtividade e o retorno do investimento. 

Outras perdas causadas pelas daninhas na cana 

Além de prejudicarem o crescimento da cana, as daninhas dificultam a colheita, reduzem a eficiência operacional e elevam os custos. A presença dessas plantas exige intervenções frequentes, principalmente em períodos críticos das épocas úmida e seca. 

  • Impacto no rendimento operacional: plantas de crescimento vigoroso e entrelaçado, como trepadeiras, dificultam o trabalho das máquinas, aumentam o tempo de colheita e elevam o desgaste dos equipamentos. 
  • Repasses: condições climáticas adversas, sobretudo na seca, comprometem a ação de herbicidas com residual limitado. Isso força novas aplicações, e cada repasse representa custo adicional em produto, horas de trabalho e movimentação de máquinas. 
  • Riscos de fitotoxicidade: em condições de alta umidade e temperaturas elevadas, o risco de efeito tóxico dos herbicidas sobre a própria cana aumenta. A escolha de moléculas seletivas se torna ainda mais crítica para evitar prejuízo duplo, tanto pela competição das daninhas quanto pelo impacto dos produtos na cultura. 

Estratégias para proteger a rentabilidade da cana-de-açúcar contra as plantas daninhas  

Proteger a rentabilidade da cana exige planejamento e adoção de estratégias assertivas no manejo de daninhas. Algumas práticas são essenciais para minimizar perdas e alcançar um canavial produtivo e economicamente viável: 

  1. Manter a cana no limpo: monitoramento regular da lavoura e intervenções rápidas evitam que a competição comprometa produtividade e ATR. 
  1. Evitar repasses: planejamento estratégico das aplicações, considerando as características de cada produto e o cenário climático, reduz custos operacionais e minimiza o impacto ambiental. 
  1. Posicionar as moléculas corretamente: o momento certo de aplicação depende do estágio da cana, do tipo de solo e das condições climáticas (seca, úmida, semi-seca ou semi-úmida). Um posicionamento adequado amplia o período de controle e reduz a necessidade de repasses. 
  1. Escolher tecnologias com seletividade para a cana: produtos seletivos reduzem o risco de fitotoxicidade e preservam o desenvolvimento da cultura em diferentes variedades e ambientes. 
  1. Ampliar a janela de residual: ferramentas com residual mais longo mantêm a área limpa por mais tempo e reduzem o número de aplicações necessárias ao longo do ciclo, protegendo margem e simplificando a operação. 

O que esperar das próximas safras  

O manejo de plantas daninhas ganha peso ainda maior diante do cenário produtivo que se desenha. A Conab elevou a estimativa da safra 2026/27 para 709,1 milhões de toneladas de cana, com crescimento de área e projeção de recuperação de produtividade, o que reforça a demanda por operações mais assertivas ao longo do ciclo. 

Ao mesmo tempo, o setor observa avanço da resistência, pressão sobre custos operacionais e exigência crescente por soluções que combinem seletividade, amplo espectro e residual prolongado.  

Nesse contexto, a evolução do portfólio de herbicidas disponíveis para cana passa a ocupar posição central na estratégia do canavicultor.  

Novas tecnologias que ampliam a flexibilidade de aplicação, cobrem gramíneas e folhas largas em uma única solução e reduzem a necessidade de repasses tendem a redefinir o padrão de manejo nas próximas safras.

O sucesso no manejo de daninhas na cana depende de cada decisão no campo 

Superar os desafios impostos pelas plantas daninhas na cana-de-açúcar é uma tarefa constante, e cada decisão tomada no campo, do planejamento à escolha das tecnologias, tem impacto direto na produtividade e na rentabilidade da lavoura. 

Ao adotar uma estratégia adaptada à realidade de cada talhão, é possível proteger a canavicultura de perdas diárias que comprometem a safra. 

Agora que você compreende melhor o peso da interferência das daninhas na rentabilidade da cana, é hora de analisar as condições do seu canavial, contar com as ferramentas adequadas e estar um passo à frente na proteção da sua produtividade a cada safra.

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