A broca-dos-citros é uma das pragas mais desafiadoras para a citricultura brasileira, responsável por perdas em pomares de laranja, limão e tangerina. 

O nome popular reúne, na verdade, um complexo de coleobrocas de diferentes famílias e regiões, cujo ataque ocorre no interior do lenho — no tronco, nos ramos ou nos ponteiros —, o que dificulta a identificação nas fases iniciais da infestação. 

Diferentemente de pragas que atacam folhas ou frutos, as brocas comprometem a estrutura de sustentação da planta. Ramos atacados podem secar ou quebrar, e infestações prolongadas resultam em depauperamento e redução da produção. Antes consideradas pragas secundárias, restritas a pomares velhos, as coleobrocas passaram a colonizar pomares bem conduzidos e em plena produção a partir da década de 1980. 

Neste artigo, serão abordados o ciclo biológico da praga, os principais sintomas, os mecanismos de dano e as estratégias de manejo integrado. 

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Espécies do complexo da broca-dos-citros  

O termo “broca-dos-citros” abrange diferentes espécies de coleobrocas, que variam conforme a região produtora. É importante distinguir esse complexo para orientar corretamente o monitoramento e o manejo. 

No cinturão citrícola do Sudeste e nas regiões produtoras do Sul, predominam espécies da família Cerambycidae. As de maior importância econômica no Estado de São Paulo são broca-dos-ponteiros (Diploschema rotundicolle), broca-do-tronco (Macropophora accentifer) e broca-do-ramo (Epacroplon cruciatum). A broca-dos-ponteiros também é registrada como praga relevante da citricultura no Sul do Brasil e no Uruguai. 

Na região Nordeste, com destaque para a Bahia e Sergipe, a principal é a broca-da-laranjeira (Cratosomus flavofasciatus), pertencente à família Curculionidae, o mesmo grupo dos gorgulhos. 

Apesar das diferenças taxonômicas, essas espécies compartilham o comportamento de abrir galerias no lenho e uma lógica de manejo semelhante, baseada em controle cultural e biológico. 

Espécie Nome comum Família Órgão atacado Região de destaque 
Diploschema rotundicolle Broca-dos-ponteiros Cerambycidae Ponteiros e ramos Sudeste (SP) e Sul 
Macropophora accentifer Broca-do-tronco Cerambycidae Tronco e ramos Sudeste (SP) 
Epacroplon cruciatum Broca-do-ramo Cerambycidae Ramos BA, RJ e MG 
Cratosomus flavofasciatus Broca-da-laranjeira Curculionidae Tronco e ramos Nordeste (BA e SE) 

Ciclo biológico da broca-dos-citros 

De maneira geral, o ciclo inicia-se com a fêmea depositando os ovos em orifícios ou na casca do tronco e dos ramos. Após a eclosão, as larvas penetram no lenho e abrem galerias no interior da planta, onde permanecem protegidas até a fase de pupa, o que reduz a exposição a inimigos naturais e a produtos aplicados externamente. 

Nas espécies da família Cerambycidae do cinturão paulista, pressupõe-se um ciclo biológico anual, com a intensificação dos sintomas de ataque nos ramos entre os meses de maio e junho.  

Para a broca-dos-ponteiros, o período de voo e emergência dos adultos concentra-se entre janeiro e abril, com pico em meados de fevereiro, conforme estudos de monitoramento conduzidos em pomares do Sul. 

No caso da broca-da-laranjeira do Nordeste, o período larval dura ao redor de 12 meses. As dejeções das larvas, em forma de pelotas, são expelidas pelo orifício de entrada. Nos pomares do Recôncavo baiano, a maior ocorrência de adultos concentra-se entre fevereiro e maio, com pico em março.Impactos da broca-dos-citrosnos pomares 

O principal mecanismo de dano ocorre na fase larval, quando o inseto escava galerias no lenho do tronco, dos ramos ou dos ponteiros. Esse processo interrompe o fluxo de seiva e leva ao depauperamento progressivo da planta. 

Ramos atacados podem secar ou quebrar, o que reduz a produção. No caso da broca-dos-ponteiros, há ainda o prejuízo direto pela queda de frutos. Em plantas jovens ou em pomares recém-implantados, infestações severas comprometem de forma acentuada o desenvolvimento. Por atuarem no interior da planta, essas pragas são de difícil controle e, em situações extremas, podem levar à erradicação de pomares. 

Sintomas e monitoramento: sinais precoces e métodos de monitoramento no campo 

A identificação das brocas-dos-citros baseia-se em sinais associados à atividade das larvas no interior da planta. Os principais sinais de infestação são: 

  • Orifícios de entrada no tronco, nos ramos e nos ponteiros, muitas vezes acompanhados da expulsão de serragem ou de dejeções em forma de pelotas. 
  • Acúmulo de serragem no solo, logo abaixo do orifício de ataque. 
  • Presença de galerias abertas no lenho, perceptíveis em ramos cortados ou danificados. 
  • Secamento e quebra de ramos e ponteiros atacados. 
  • Depauperamento geral da planta e redução da produção em infestações prolongadas. 

O monitoramento deve concentrar-se nos períodos de maior ocorrência de adultos, que variam conforme a espécie e a região, e na inspeção periódica de troncos, ramos e ponteiros em busca de orifícios recentes e serragem. 

Frutas cítricas ainda verdes penduradas entre folhas na árvore, em pomar."
Frutas cítricas ainda verdes penduradas entre folhas na árvore, em pomar.”

Táticas integradas: combinando métodos para o controle da broca-dos-citros 

O manejo da broca-dos-citros deve ser integrado, combinando práticas culturais, controle biológico e, quando necessário, controle químico. Nenhum método isolado é suficiente para uma proteção adequada em áreas com histórico de infestação, ainda mais considerando que as larvas ficam protegidas no interior do lenho 

Controle cultural 

A base do manejo é a poda de ramos atacados, realizada na época de oviposição, seguida da queima do material retirado — o que elimina ovos e larvas antes que atinjam o tronco. A inspeção deve ser periódica e concentrada nos períodos de maior atividade da praga em cada região. 

Controle biológico 

O fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae pode ser aplicado no interior das galerias, direcionado às larvas alojadas no lenho. A associação entre a catação manual dos ramos atacados e o controle biológico com o fungo compõe um sistema de manejo integrado estudado em pomares comerciais. 

Para a broca-da-laranjeira do Nordeste, uma tática consolidada é o plantio da maria-preta (Cordia curassavica) ao redor do pomar como planta-isca, uma vez que os adultos são atraídos por essa planta e a utilizam como sítio de reprodução. Recomendável inspecionar periodicamente as plantas-isca e eliminar os adultos presentes.  

O fungo Beauveria bassiana pode ser pulverizado sobre a maria-preta na época chuvosa, com o objetivo de infectar os adultos atraídos. 

Controle químico 

Como as larvas permanecem protegidas no interior do lenho, o controle químico convencional apresenta limitações para alcançar o alvo. Por isso, quando adotado, o controle químico deve ter caráter complementar e ser direcionado à fase adulta da praga.  

A aplicação é indicada quando o monitoramento apontar presença de adultos, respeitando as recomendações de dose e o período de carência descritos na bula. 

Orientações técnicas para o manejo integrado da broca-dos-citros 

As recomendações técnicas consolidadas para o manejo do complexo da broca-dos-citros são: 

  • Identificar corretamente a espécie predominante na região, para orientar o momento do monitoramento e do controle. 
  • Realizar o monitoramento periódico de troncos, ramos e ponteiros, com atenção aos períodos de maior ocorrência de adultos. 
  • Cortar, podar e queimar os ramos atacados na época de oviposição. 
  • Utilizar agentes de controle biológico indicados para cada alvo. 
  • Realizar o manejo químico apenas quando necessário, direcionado à fase adulta e com produtos registrados para citros. 
  • Consultar sempre as recomendações técnicas atualizadas do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), Fundecitrus e Embrapa Mandioca e Fruticultura

Monitoramento e manejo integradopara pomares mais produtivos 

O controle da broca-dos-citros exige atenção constante, monitoramento e a integração de diferentes estratégias. A natureza interna do ataque, no lenho do tronco, dos ramos e dos ponteiros, torna a identificação precoce um desafio e reforça a necessidade de monitoramento sistemático, ajustado à espécie predominante em cada região. 

O fortalecimento das práticas preventivas, especialmente a inspeção periódica das plantas, é a base que sustenta todas as estratégias do manejo integrado e reduz a progressão da infestação ao longo do ciclo produtivo. 

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