A pressão de lagartas lepidópteras spode causar perdas expressivas de produtividade, que podem ultrapassar 30% na soja e 40% no milho em condições de alta infestação, conforme dados da Embrapa.
O uso de inseticidas biológicos à base de Bacillus thuringiensis (Bt) tem se consolidado como estratégia sustentável e tecnicamente fundamentada para o manejo dessas pragas.
A especificidade do Bt para insetos lepidópteros, aliada à seletividade para organismos não-alvo e à compatibilidade com programas de manejo integrado de pragas (MIP), faz dessa bactéria uma das ferramentas mais estudadas e aplicadas no controle biológico..
Neste conteúdo, serão abordados os principais aspectos técnicos do Bacillus thuringiensis, incluindo mecanismo de ação, variedades, pragas-alvo, protocolos de aplicação e manejo de resistência.
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Bacillus thuringiensis: identidade, origem e dinâmica de uso agrícola
Bacillus thuringiensis é uma bactéria do solo, classificada como Gram-positiva, pertencente ao grupo dos bacilos esporulados. Sua característica mais relevante é a produção de proteínas Cry (cristais inseticidas) durante a esporulação, com toxicidade específica para determinadas ordens de insetos, especialmente Lepidoptera.
A utilização comercial de formulações à base de Bt teve início em 1938, na França. A partir da década de 1950, a produção em larga escala se expandiu para os Estados Unidos, e nas décadas seguintes novas variedades ampliaram o espectro de aplicação do Bt.
No Brasil, as primeiras aplicações com produtos importados ocorreram na década de 1960, e o primeiro registro no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) foi feito em 1981.
O sucesso do Bt está diretamente relacionado à sua especificidade, seletividade e compatibilidade com programas de manejo integrado de pragas.
Como o Bacillus thuringiensis age e influencia a produtividade das lavouras
O Bacillus thuringiensis atua por meio de proteínas Cry, que formam cristais tóxicos para insetos-alvo. Quando ingeridas pela lagarta, as proteínas Cry são ativadas pelo pH alcalino do intestino médio, ligam-se a receptores específicos nas células epiteliais e formam poros que causam lise celular, paralisia alimentar e morte.
A ação do Bt é altamente específica, afetando apenas insetos que possuem os receptores adequados para as proteínas Cry presentes na formulação. Vertebrados, abelhas e a maioria dos inimigos naturais não são afetados, tornando o Bt uma das ferramentas mais seletivas disponíveis para o controle de lagartas.
Além das proteínas Cry, algumas cepas de Bacillus thuringiensis produzem proteínas Vip (do inglês vegetative insecticidal proteins), sintetizadas durante a fase vegetativa de crescimento da bactéria. A proteína Vip3A apresenta ação complementar às proteínas Cry, com receptores distintos no intestino das lagartas, o que a torna uma ferramenta relevante em estratégias de manejo de resistência.
Diversidade de cepas de Bacillus thuringiensis e suas aplicações estratégicas
A escolha da variedade correta de Bt é determinante para o sucesso do controle biológico. Cada variedade apresenta perfil de proteínas Cry distinto, com espectros de ação diferentes.
As duas principais variedades utilizadas na agricultura são:
- Bt var. kurstaki: principal variedade utilizada na agricultura, ccom ação documentada contra lagartas lepidópteras.
- Bt var. aizawai: indicada para controle de lagartas com maior resistência ao kurstaki, especialmente alagarta-do-cartucho.
- A escolha inadequada da variedade pode resultar em falhas de controle , desperdício de recursos e aumento do risco de resistência.

Principais pragas agrícolas sob controle biológico com Bacillus thuringiensis
O Bt apresenta alta seletividade e ação documentada contra lagartas de diversas espécies lepidópteras. As principais pragas-alvo no Brasil são:
- lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis);
- lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens) (traça-das-crucíferas).
O Bt não apresenta efeito sobre outras pragas que não sejam larvas lepidópteras sensíveis às proteínas Cry. Por isso,. a identificação correta da praga antes da aplicação é indispensável.
Estratégias para maximizar otimizar os resultados do Bacillus thuringiensis em campo
O desempenho do Bt no controle de pragas depende de uma série de fatores técnicos e ambientais. Os cinco pontos críticos são:
- Momento de aplicação: o Bt apresenta melhor resultado quando aplicado sobre larvas pequenas, preferencialmente até o terceiro ínstar. Lagartas grandes são menos sensíveis.
- Horário de aplicação: a radiação ultravioleta degrada rapidamente as proteínas Cry presentes nas formulações de Bt. Aplicar preferencialmente nas horas de menor incidência de radiação UV, no final do dia ou à noite.
- Cobertura foliar: o Bt precisa ser ingerido pelas lagartas para agir. Por isso, alcançar a cobertura completa das folhas é essencial, com volume de calda adequado.
- Temperatura da água: utilizar água em temperatura ambiente na preparação da calda, evitando temperaturas elevadas que possam comprometer a viabilidade do agente biológico.
- Validade e armazenamento: seguir rigorosamente as orientações do rótulo quanto à validade após abertura e condições de armazenamento.
Compatibilidade entre Bacillus thuringiensis, defensivos químicos e manejo de resistência
O Bacillus thuringiensis pode ser utilizado em conjunto com outros defensivos, desde que observada a compatibilidade indicada na bula.
Além disso, a resistência ao Bt é um risco real, especialmente em populações de Spodoptera frugiperda expostas repetidamente ao mesmo produto. Por isso, integrar o Bt ao MIP, associando-o a práticas culturais, controle biológico natural e monitoramento contínuoé imprescindível.
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Boas práticas para o manejo de pragas com Bacillus thuringiensis
As orientações técnicas consolidadas para o uso do Bt são:
- Escolher a variedade de Bt adequada à praga-alvo, conforme indicação técnica.
- Realizar aplicações no início da infestação, priorizando larvas pequenas.
- Aplicar preferencialmente no final do dia ou à noite, reduzindo a exposição à radiação UV.
- Preparar volume de calda suficiente para uma cobertura foliar completa.
- Seguir as doses recomendadas em bula e respeitar o intervalo de segurança indicado para cada cultura.
- Consultar as recomendações técnicas atualizadas do MAPA e da Embrapa para cada cultura e praga-alvo.
Bt no manejo integrado: resultados dependem do conhecimento técnico
Bacillus thuringiensis é uma ferramenta valiosa no manejo de lagartas, desde que utilizado de forma estratégica, com basena identificação correta da praga, escolha da variedade adequada e respeito ao protocolo de aplicação.
A especificidade do Bt, que é sua maior vantagem, também define seu limite: ele não funciona para outras pragas que não sejam lagartas lepidópteras sensíveis às proteínas Cry da formulação. Isso reforça a importância do diagnóstico correto antes de qualquer intervenção.
O posicionamento correto do Bt no programa de MIP, combinado à outras estratégia e ao monitoramento contínuo, é o que promove a sustentabilidade do controle.
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