A renovação de pastagens degradadas representa um dos maiores desafios técnicos e econômicos da pecuária brasileira. Estima-se que70% das áreas de pastagem no Brasil apresentam algum grau de degradação, comprometendo a produtividade animal e a sustentabilidade do sistema.  

 Porém, o processo de renovação torna sementes e plântulas de forrageiras vulneráveis ao ataque de pragas já estabelecidas no solo degradado. 

Segundo a Embrapa Gado de Corte, o sucesso da renovação depende do controle assertivo dessas pragas e do rápido estabelecimento dessas forrageiras. O uso de biológicos surge como alternativa sustentável para reduzir a pressão de pragas e estimular o desenvolvimento das pastagens.. 

Neste conteúdo, serão detalhadas as principais pragas de solo em pastagens degradadas, o papel dos biológicos no controle e promoção de crescimento, e recomendações práticas para integrar essas soluções ao processo de renovação. 

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Renovação de pastagens: janela decisiva para o manejo de pragas subterrâneas 

A renovação de pastagens degradadas pode ser conduzida por métodos convencionais (com revolvimento do solo) ou conservacionistas (plantio direto, sobressemeadura, integração lavoura-pecuária), a depender do grau de degradação e do sistema de produção. Independentemente do método, essa fase concentra o maior risco fitossanitário do ciclo da pastagem, por dois motivos principais: 

  • Áreas degradadas acumulam, ao longo dos anos, populações elevadas de pragas de solo, especialmente corós e cupins , que se estabeleceram sem pressão de controle; 
  • As plântulas das forrageiras recém-semeadas apresentam sistema radicular pouco desenvolvido, o que as torna especialmente vulneráveis ao ataque dessas populações preexistentes. 

Nesse contexto, três grupos de pragas concentram a maior parte das perdas no processo de renovação: 

  • Corós (larvas de Phyllophaga spp.): alimentam-se de raízes e matéria orgânica no solo. Em pastagens em renovação, migram para as raízes tenras das plântulas, comprometendo o estande inicial. 
  • Cupins (Blattodea: Isoptera): colônias estabelecidas em áreas degradadas atacam raízes vivas em períodos de escassez alimentar, prejudicando a formação da nova pastagem. Cigarrinha-das-pastagens (Hemiptera: Cercopidae): embora o risco maior se manifeste na fase de estabelecimento e manutenção — quando a formação da palhada e o adensamento das touceiras favorecem o desenvolvimento das ninfas nas raízes superficiais —, o monitoramento precoce durante a renovação é recomendável para orientar decisões de manejo subsequentes. 

Como as pragas de solo comprometem o potencial produtivo das pastagens 

Falhas no estabelecimento podem elevar p custo de replantio e o atraso na formação da pastagem, elevando o custo de produção e  comprometendo a produtividade animal por vários anos. O 

Biológicos no controle de pragas : mecanismos e benefícios para pastagens 

O manejo integrado de pragas de solo na renovação de pastagens exige a combinação de práticas culturais, químicas e biológicas. Os fungos entomopatogênicos são os principais agentes biológicos para esse contexto, com mecanismos de ação distintos para cada praga. 

Corós (Phyllophaga spp.):  Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana 

Os corós são uma das principais pragas de solo em áreas de renovação, com ciclo de vida que pode  se estender de um a três anos no solo, conforme a espécie. 

Os fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana infectam as larvas por contato, colonizando o corpo do inseto e levando à sua morte. A aplicação pode ser feita por incorporação ao solo antes do plantio ou via semeadora, garantindo contato direto com as larvas presentes. 

Cigarrinha-das-pastagens: Metarhizium anisopliae  

 As ninfas de cigarrinha-das-pastagens desenvolvem-se na base das touceiras e nas raízes superficiais, protegidas por espuma, em condições de umidade elevada e acúmulo de palhada, ambiente que dificulta o alcance de inseticidas foliares e favorece a ação de fungos entomopatogênicos aplicados ao solo.  

Nesse contexto, o uso de Metarhizium anisopliae é uma das principais estratégias biológicas para reduzir a população de ninfas e diminuir o risco de surtos durante o estabelecimento da pastagem. A aplicação deve ser direcionada ao solo, sob umidade adequada e preferencialmente no fim da tarde, quando a radiação solar e a temperatura são menos agressivas aos conídios. 

Cupim: avanços no controle biológico com Metarhizium e Beauveria 

 O cupim-de-montículo (Cornitermes cumulans e espécies relacionadas) é o principal alvo do manejo de cupins em pastagens tropicais.  

Formulados à base de Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana podem ser aplicados no controle desses ninhos, com resultados mais consistentes quando os conídios são introduzidos diretamente no interior do cupinzeiro — o que requer perfuração da estrutura antes da aplicação. A eficiência é maior em cupinzeiros de menor porte (geralmente até 50 cm de altura), condição em que o formulado alcança mais facilmente as câmaras internas e, por transmissão entre indivíduos, pode atingir a rainha.  

Em cupinzeiros de grande porte, ou quando a aplicação é apenas superficial, a resposta tende a ser reduzida, sendo recomendável associação com destruição mecânica dos ninhos ou uso combinado com inseticida químico em doses reduzidas, conforme orientação técnica. 

Inoculantes  s à base de rizobactérias promotoras de crescimento de plantas: impulsionando o desenvolvimento das forrageiras 

Além do controle de pragas, a promoção do crescimento inicial das forrageiras é determinante para o sucesso da renovação das pastagens. Inoculantes à base de bactérias promotoras de crescimento (BPCP, ou PGPR na sigla em inglês)PGPR) têm se destacado nesse contexto, com dois grupos principais de ação: 

Azospirillum brasilense: contribuindo para a fixação de nitrogênio e a produção de fitormônios 

Azospirillum brasilense é o principal inoculante para gramíneas forrageiras.  Atua por múltiplos mecanismos:  

  • promove a fixação associativa de nitrogênio, reduzindo parcialmente a dependência de adubação nitrogenada no início do ciclo;  
  • produz fitormônios (com destaque para auxinas como o ácido indolacético — AIA, além de giberelinas e citocininas), que estimulam o crescimento radicular e a formação de pelos absorventes;  
  • pode contribuir para a solubilização de fósforo e a produção de sideróforos, ampliando a disponibilidade de nutrientes.  

O resultado é uma arquitetura radicular mais desenvolvida, maior superfície de absorção de água e nutrientes e maior tolerância a estresses abióticos, com reflexos no desenvolvimento inicial das plântulas. 

Bacillus spp.: promovendo enraizamento mais desenvolvido e maior disponibilidade de fósforo 

Bactérias do gênero Bacillus, como  como B. subtilis,  atuam por múltiplos mecanismos na promoção de crescimento:  

  • solubilizam fósforo inorgânico e mineralizam fósforo orgânico do solo; 
  • produzem fitormônios (auxinas, citocininas e giberelinas) e sideróforos que quelam ferro; 
  • algumas estirpes ainda contribuem com atividade antimicrobiana na rizosfera, por meio de lipopeptídeos, o que favorece a sanidade radicular.  

O resultado é maior enraizamento e melhor absorção de nutrientes. A coinoculação de Azospirillum e Bacillus pode resultar em maior vigor inicial, estabelecimento mais rápido das plântulas e maior tolerância a estresses abióticos — especialmente déficit hídrico e baixa fertilidade do solo. 

Leia mais: Bacillus pumilus para controle de doenças: como funciona? 

Caminhos para a integração de biológicos na renovação de pastagens 

A integração dos biológicos ao processo de renovação de pastagens deve seguir uma sequência lógica, alinhada aos estágios de maior vulnerabilidade das forrageiras: 

  • Antes do preparo da área: aplicação de Metarhizium anisopliae e/ou Beauveria bassiana diretamente nos cupinzeiros-de-montículo existentes, após perfuração da estrutura, para redução das colônias antes do início do preparo do solo. 
  • No preparo da área e semeadura: monitoramento de corós no perfil do solo (amostragem em trincheiras) e, quando indicado, aplicação de Metarhizium anisopliae incorporada ao solo ou via sulco de semeadura, alcançando as larvas presentes na camada de exploração das raízes. 
  • No plantio: tratamento das sementes da forrageira com inoculantes à base de Azospirillum brasilense e Bacillus spp., estimulando o crescimento inicial das plântulas. 
  • Pós-plantio (estabelecimento e manutenção): onitoramento da ocorrência de ninfas de cigarrinha-das-pastagens, sobretudo no início do período chuvoso e em áreas com acúmulo de palhada. Quando o nível populacional justificar, aplicar Metarhizium anisopliae direcionado ao solo, preferencialmente no fim da tarde e sob umidade adequada. 

Impactos positivos dos biológicos na renovação de pastagens 

Ensaios conduzidos pela Embrapa Gado de Corte demonstram que a aplicação de Metarhizium anisopliae pode ontribuir para a redução das populações de corós no solo, enquanto o uso de inoculantes à base de Azospirillum brasilense resulta em incremento médio de 22% na produtividade de pastagens com braquiárias, conforme resultados divulgados pela Embrapa Soja. 

Pastagens com gado em close

A combinação dessas estratégias proporciona maior uniformidade da pastagem, menor necessidade de replantio e aumento da produtividade animal ao longo do ciclo. 

Passo a passo para adoção assertiva de biológicos na renovação de pastagens 

Para implementar o programa biológico com consistência, as seguintes práticas são recomendadas: 

  • Diagnóstico prévio da área: histórico, nível de degradação e pragas predominantes. 
  • Planejamento integrado das intervenções biológicas ao cronograma de preparo, semeadura e formação da pastagem. 
  • Aderência à bula e à recomendação técnica, com apoio de agrônomo para adequação às condições locais. 
  • Monitoramento contínuo da emergência, do desenvolvimento das plântulas e da ocorrência de pragas, ajustando o programa conforme a resposta em campo. 
  • Integração dos biológicos com o manejo geral da pastagem (correção e adubação do solo, escolha da forrageira e manejo do pastejo) para sustentar os ganhos ao longo dos ciclos. 

Entenda: Classificação dos produtos biológicos na agricultura: inoculantes, biocontroladores e bioativadores 

Renovação sustentável: biológicos como protagonistas da produtividade e saúde do solo 

A integração de biológicos ao processo de renovação de pastagens degradadas representa uma estratégia recomendável para controlar pragas , promover o crescimento das forrageiras e otimizar o manejo. O uso racional dessas ferramentas, aliado ao monitoramento constante, contribui para sistemas pecuários mais produtivos, resilientes e sustentáveis. 

O avanço das pesquisas sobre novas cepas de biológicos adaptadas  e o desenvolvimento de formulações com maior estabilidade apontam para um horizonte em que o programa biológico em pastagens será cada vez mais preciso e acessível, com impacto direto na produtividade animal e na sustentabilidade dos sistemas pecuários brasileiros. 

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