A infestação de cochonilhas representa um dos principais entraves fitossanitários em culturas como citros, café, videira e hortaliças, com relatos de perdas superiores a 30% na produtividade e impactos diretos na qualidade dos frutos.
O controle químico, embora amplamente utilizado, enfrenta limitações devido à resistência, à proteção conferida pela cera das cochonilhas e à associação simbiótica com formigas.
A crescente demanda por alternativas sustentáveis e a necessidade de preservar inimigos naturais têm impulsionado o desenvolvimento de programas de controle biológico. O manejo integrado, que combina diferentes agentes biológicos, surge como estratégia recomendável para reduzir populações de cochonilhas e minimizar danos econômicos.
Neste conteúdo, serão detalhadas as principais opções de controle biológico de cochonilhas, abordando parasitoides, predadores naturais e fungos entomopatogênicos, além de orientações práticas para integração dessas ferramentas em programas de manejo.
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Barreiras biológicas: por que as cochonilhas desafiam o manejo agrícola
As cochonilhas pertencem à ordem Hemiptera e abrangem espécies de grande importância econômica, como Planococcus citri (cochonilha-farinhenta-dos-citros) e Planococcus ficus (cochonilha-farinhenta-da-videira).
No Brasil, são especialmente problemáticas em citros, café, uva e hortaliças, com maior incidência em períodos de estiagem, quando predadores naturais são menos ativos e as cochonilhas se beneficiam do clima.
Três fatores tornam o controle dessas pragas particularmente desafiador:
- Camada cerosa protetora: recobre o corpo das cochonilhas, dificultando a penetração de inseticidas e a ação de fungos entomopatogênicos.
- Excreção de honeydew (mela): substância açucarada que favorece o desenvolvimento de fumagina, reduzindo a fotossíntese e depreciando o valor comercial dos frutos.
- Associação simbiótica com formigas: as formigas protegem as colônias de cochonilhas em troca do honeydew, dificultando o acesso de inimigos naturais. O manejo das formigas é etapa obrigatória antes de qualquer programa de controle biológico.
Como as cochonilhas prejudicam a produtividade e ameaçam a rentabilidade
As cochonilhas alimentam-se da seiva das plantas por meio de aparelho bucal sugador, resultando em enfraquecimento, queda de folhas, murcha e redução do crescimento.
A presença de honeydew e fumagina compromete a qualidade dos frutos, tornando-os impróprios para comercialização in natura e reduzindo o valor de exportação. Em citros, infestações severas podem provocar perdas expressivas na produção e comprometer o valor comercial dos frutos.Táticas integradas para potencializar o controle biológico de cochonilhas
O manejo integrado de cochonilhas envolve a combinação de diferentes agentes biológicos, com foco na redução populacional e na preservação do equilíbrio ecológico da lavoura. As principais ferramentas disponíveis são apresentadas a seguir.
Parasitoides: agentes-chave na redução de infestações
Entre os parasitoides mais utilizados no controle biológico de cochonilhas destacam-se Anagyrus pseudococci e Leptomastix dactylopii, ambos micro-himenópteros especializados em parasitar cochonilhas:
- Anagyrus pseudococci: amplamente utilizado em citros e videira, parasita ninfas e adultos de Planococcus citri,, interrompendo o ciclo da praga.
- Leptomastix dactylopii: apresenta alta especificidade para Planococcus citri, sendo recomendável para áreas com predominância dessa espécie.
A liberação deve ser realizada no início da infestação, conforme recomendação técnica do fornecedor e nível de infestação. É fundamental evitar inseticidas químicos durante o período de liberação, para não comprometer a sobrevivência dos parasitoides.
Predadores naturais: a ação de Cryptolaemus montrouzieri no controle de pragas
O predador mais reconhecido no controle biológico de cochonilhas é a joaninha Cryptolaemus montrouzieri, conhecida como “devoradora de cochonilhas”. Tanto larvas quanto adultas alimentam-se vorazmente de ovos, ninfas e adultos de cochonilhas.

Para estimular a presença de predadores naturais na lavoura, recomenda-se:
- Reduzir o uso de inseticidas de amplo espectro.
- Manter áreas de vegetação nativa próximas à cultura.
- Eliminar formigas simbiontes, que defendem as cochonilhas dos predadores.
A eliminação das formigas é essencial: sua presença reduz significativamente a ação dos predadores naturais, protegendo as colônias de cochonilhas.
Fungos entomopatogênicos: atuação de Beauveria bassiana e Lecanicillium lecanii
Os fungos entomopatogênicos representam outra estratégia para o controle biológico de cochonilhas, especialmente em situações de alta infestação:
- Beauveria bassiana: capaz de penetrar a cutícula das cochonilhas mesmo na presença da cera protetora, principalmente em formulações com adjuvantes que melhoram a adesão. Desempenho potencializado em condições de alta umidade relativa e temperaturas amenas.
- Lecanicillium lecanii: apresenta especificidade para cochonilhas e pulgões, sendo recomendável para ambientes protegidos ou regiões com alta umidade. Formulações oleosas aumentam a capacidade de penetração do fungo pela cera.
A aplicação deve ser realizada em horários de menor insolação, visando prolongar a viabilidade dos conídios e otimizar a infecção das cochonilhas.
Leia mais: Biodefensivos: O que são e como funcionam no manejo sustentável de pragas e doenças
Programa integrado de controle biológico de cochonilhas
A integração de diferentes agentes biológicos é fundamental para o sucesso do manejo. Um programa consistente deve seguir quatro etapas sequenciais:
| Etapa | Ação recomendada |
| 1. Manejo das formigas | Eliminar a proteção conferida às cochonilhas com iscas formicidas seletivas e barreiras físicas |
| 2. Liberação de parasitoides | Introduzir Anagyrus pseudococci e Leptomastix dactylopii em populações iniciais |
| 3. Aplicação de fungos | Utilizar Beauveria bassiana ou Lecanicillium lecanii em áreas com alta infestação |
| 4. Monitoramento contínuo | Avaliar regularmente a taxa de parasitismo, a presença de predadores e a evolução da população, ajustando as estratégias conforme necessário |
Passo a passo para adoção eficaz do controle biológico em campo
Para implementar o programa de controle biológico com consistência, as seguintes práticas são recomendadas:
- Realizar o manejo das formigas antes da liberação de inimigos naturais.
- Iniciar a liberação de parasitoides no início da infestação.
- Aplicar fungos entomopatogênicos em horários de menor insolação e com alta umidade relativa.
- Monitorar a população de cochonilhas e ajustar as estratégias conforme a evolução do quadro.
- Evitar o uso de inseticidas não compatíveis durante o programa de controle biológico.
Sinergia de métodos: construindo um manejo sustentável contra cochonilhas
O controle biológico de cochonilhas exige abordagem integrada, combinando manejo das formigas, liberação de parasitoides, estímulo a predadores naturais e aplicação de fungos entomopatogênicos. A adoção dessas práticas, aliada ao monitoramento constante, potencializa a redução das populações da praga e contribui para a sustentabilidade das culturas.
Cada componente do programa cumpre uma função específica: as formigas são a barreira que precisa ser removida primeiro; os parasitoides atuam sobre populações iniciais de forma sustentada; os predadores mantêm o equilíbrio de longo prazo; e os fungos entomopatogênicos são acionados de forma complementar.
A sequência e a integração correta dessas ferramentas, orientadas por monitoramento contínuo e suporte técnico especializado, são o que diferencia um programa de controle biológico consistente de intervenções isoladas sem resultado duradouro.
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