A broca-da-cana, Diatraea saccharalis, é considerada uma das pragasde maior impacto à cultura da cana-de-açúcar no Brasil, podendo causar perdas significativas em produtividade e qualidade do produto final.  

A lagarta perfura o colmo da planta, formando galerias que prejudicam o transporte de seiva e facilitam a entrada de patógenos secundários. 

O controle químico apresenta limitações devido ao hábito da lagarta de se abrigar no interior do colmo. Nesse contexto, o controle biológico com Cotesia flavipes se consolidou como uma estratégia de manejode pragas nos canaviais brasileiros. 

Neste conteúdo, serão abordados o ciclo de vida do parasitoide, o protocolo de liberação recomendado, os resultados obtidos em campo e as estratégias para integrar o Cotesia flavipes a outros componentes do manejo integrado de pragas (MIP). 

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Cotesia flavipes e o ciclo de parasitismo da broca-da-cana 

Cotesia flavipes é um micro-himenóptero parasitoide da família Braconidae, introduzido no Brasil na década de 1970 para o controle biológico da broca-da-cana. O inseto parasita preferencialmente lagartas de terceiro e quarto ínstares de Diatraea saccharalis, depositando seus ovos diretamente no corpo da lagarta.  

As larvas do parasitoide se desenvolvem às custas do hospedeiro, levando à sua morte ao completarem o desenvolvimento. 

A fêmea do Cotesia flavipes localiza as lagartas da broca-da-cana por meio de sinais químicos liberados pela planta danificada e pela própria lagarta. Após a  oviposição, as larvas do parasitoide eclodem e consomem os tecidos internos do hospedeiro, emergindo posteriormente e formando casulos brancos, característicos do parasitismo. 

Dinâmica populacional: distribuição, sazonalidade e fatores de risco 

A broca-da-cana está presente em todas as regiões produtoras do Brasil, com maior incidência nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. A infestação é favorecida por lavouras com alta densidade de plantas, manejo inadequado de restos culturais e ausência de rotação de culturas.  

O monitoramento periódico da taxa de infestação, por meio da contagem de colmos brocados em amostras representativas, é indispensável para orientar as liberações do parasitoide. 

Como a broca-da-cana compromete a produtividade: mecanismos de dano 

A lagarta da broca-da-cana perfura o colmo da planta, formando galerias que prejudicam o transporte de seiva e facilitam a entrada de patógenos secundários, como fungos causadores de podridões. 

 Além das perdas diretas em tonelagem, há redução no teor de açúcar (pol) e no teor de fibra do caldo, comprometendo a qualidade industrial.  

A intensidade de infestação da broca-da-cana está diretamente relacionada às perdas industriais: a cada 1% de colmos brocados, estimam-se perdas aproximadas de 35 kg de açúcar e 30 litros de etanol por hectare, além de redução no teor de sacarose (pol) e comprometimento da qualidade do caldo. 

Protocolo de liberação do Cotesia flavipes no campo 

O sucesso do controle biológico com Cotesia flavipes depende da adoção de um protocolo rigoroso de liberação. Os parâmetros essenciais são: 

Parâmetro Recomendação técnica 
 Nível de ação  800 a 1.000 lagartas de Diatraea saccharalis por hectare, ou áreas com infestação superior a 2% na safra anterior 
Quantidade por hectare 6.000 parasitoides/ha,  distribuídos em 8 pontos de liberação (aproximadamente 750 indivíduos por ponto) 
Distribuição  Copos ou tubetes fixados nas plantas, com espaçamento de 20 a 25 metros entre pontos 
 Horário de aplicação  Preferencialmente ao entardecer ou pela manhã, evitando as horas mais quentes do dia 
Reaplicação Nova liberação sempre que constatada nova infestação da praga 

Estrutura de biofábrica: produção em escala do Cotesia flavipes 

A produção massal do Cotesia flavipes é realizada em biofábricas, estruturas especializadas que garantem o fornecimento contínuo e padronizado do parasitoide. As etapas principais da produção são: 

  • Criação do hospedeiro: colônias de Diatraea saccharalis são mantidas em laboratório com dieta artificial para garantir suprimento contínuo de lagartas para parasitismo. 
  • Parasitismo controlado: fêmeas do parasitoide são expostas às lagartas hospedeiras em câmaras de parasitismo, com controle de temperatura e luminosidade. 
  • Coleta e embalagem: após o período de parasitismo, os insetos são embalados para transporte e liberação no campo. 

As biofábricas podem ser próprias das usinas ou terceirizadas, sendo fundamentais para a autossuficiência no controle biológico. A produção local permite adaptar o protocolo de liberação às condições específicas de cada região. 

Resultados e integração ao MIP 

A adoção do Cotesia flavipes em programas de manejo integrado de pragas tem contribuído para a redução das perdas causadas pela broca-da-cana.   

Estudos conduzidos pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) em canaviais paulistas registraram taxas de parasitismo de Cotesia flavipes variando de 13% a 43% em áreas com liberações regulares (Dinardo-Miranda et al., 2014), o que contribui para manter a população da broca-da-cana abaixo do nível de dano econômico. 

A integração do parasitoide com outros agentes de controle biológico, como os fungos entomopatogênicos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, amplia o espectro de controle, preservando inimigos naturais e reduzindo a pressão de seleção para resistência. 

O monitoramento contínuo da população da broca-da-cana e dos níveis de parasitismo é essencial para ajustar as estratégias de manejo ao longo da safra,de modo que as liberações sejam realizadas no momento e na quantidade adequados. 

Recomendações práticas para o uso do Cotesia flavipes 

Para maximizar a eficiência do controle biológico, as seguintes práticas são recomendadas: 

  • Monitorar regularmente a população da broca-da-cana por meio de amostragens e armadilhas; 
  • Iniciar as liberações no início da infestação; 
  • Distribuir os pontos de liberação de forma uniforme na lavoura; 
  • Evitar liberações em dias muito quentes (acima de 32°C) ou com previsão de chuvas intensas; 
  • Integrar o controle biológico com outras práticas do MIP, como o uso de fungos entomopatogênicos e manejo de restos culturais. 

Confira: Pragas da cana-de-açúcar: desafios e soluções no manejo integrado 

Controle biológico sustentável: o futuro do manejo da broca-da-cana 

O controle biológico com Cotesia flavipes representa uma alternativa sustentável e economicamente viável para o manejo da broca-da-cana. Com décadas de uso no Brasil, o parasitoide demonstrou capacidade de manter as populações da praga abaixo do nível de dano econômico, contribuindo para a redução de perdas e para a preservação do potencial produtivo dos canaviais. 

A consolidação desse programa depende de biofábricas estruturadas, monitoramento rigoroso e protocolos de liberação bem executados. A integração com Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e outras ferramentas do MIP amplia o sucesso do manejo dessa praga no campo. 

O avanço das biofábricas, aliado ao desenvolvimento de novas cepas do parasitoide adaptadas a diferentes condições climáticas, aponta para um futuro em que o controle biológico da broca-da-cana será cada vez mais preciso, escalável e integrado ao manejo sustentável da cultura. 

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