A pressão de pragas nas lavouras tem levado a perdas significativas em culturas como soja, milho, algodão e hortifrúti, com impacto direto na rentabilidade e na sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Por isso, o controle biológico, especialmente com o uso de fungos entomopatogênicos, tornou-se uma alternativa estratégica para o manejo integrado de pragas.
Entre os agentes biológicos, o Beauveria bassiana destaca-se pelo seu amplo espectro de ação e pelo seu modo de ação, que tem ação específica para as pragas-alvo. O sucesso do controle depende do entendimento técnico sobre o mecanismo de infecção, das condições ambientais e da escolha da formulação adequada.
Neste conteúdo, serão detalhadas as etapas do processo de infecção do Beauveria bassiana, as enzimas envolvidas, o impacto das formulações no controle das principais pragas-alvo no Brasil e as recomendações para compatibilidade com outros defensivos.
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Como o Beauveria bassiana infecta insetos: etapas do processo
O Beauveria bassiana é um fungo entomopatogênico da ordem Hypocreales, família Cordycipitaceae, amplamente utilizado no controle biológico de insetos-praga. Sua infecção ocorre por contato diretocom o alvo.
O processo de infecção ocorre em sete etapas sequenciais:
- Adesão: os conídios aderem à cutícula do inseto por meio de proteínas de superfície, como hidrofobinas e adesinas, que reconhecem componentes da epicutícula.
- Germinação: em condições favoráveis de umidade e temperatura, o conídio germina, formando um tubo germinativo sobre a superfície do hospedeiro.
- Formação do apressório: o tubo germinativo diferencia-se em apressório, estrutura especializada que amplia a área de contato e facilita a penetração.
- Penetração: combina pressão mecânica do apressório e ação de enzimas extracelulares (quitinases, proteases e lipases) que degradam quitina, proteínas e lipídios da cutícula.
- Colonização: o fungo invade a hemolinfa e se multiplica como blastosporos, liberando metabólitos tóxicos como beauvericina, levando à septicemia.
- Morte do inseto: ocorre entre 3 e 10 dias após a infecção, por destruição de órgãos vitais e ação de toxinas.
- Esporulação: o fungo emerge pelo tegumento do inseto morto, formando uma camada branca de conídios que podem infectar novos hospedeiros.
Esse ciclo permite que o Beauveria bassiana atue como agente de supressão populacional, com potencial de efeito residual em ambientes favoráveis.

Fatores ambientais determinantes para o sucesso da infecção fúngica
O desempenho do Beauveria bassiana no controle biológico de pragas está diretamente relacionada às condições ambientais no momento da aplicação e nos dias subsequentes. Quatro fatores são determinantes:
- Temperatura: desenvolvimento ótimo entre 20°C e 30°C, variando conforme o isolado. Abaixo de 18°C ou acima de 32°C, a germinação e o crescimento do fungo são limitados.
- Umidade relativa: exige umidade acima de 70% para a germinação dos conídios. Em ambientes com baixa umidade, a infecção é drasticamente reduzida.
- Radiação UV (radiação ultravioleta): principal fator de degradação dos conídios.. Recomenda-se aplicar no final do dia ou em períodos nublados.
- Precipitação: chuvas logo após a aplicação podem prejudicar o desenvolvimento dos conídios da superfície dos insetos, reduzindo o desempenho.
O entendimento desses fatores é fundamental para o planejamento das aplicações e para o sucesso do controle biológico.
Entenda mais: Inseticidas biológicos: solução sustentável no manejo de pragas
Impacto das formulações no desempenho do controle biológico
A formulação do Beauveria bassiana é determinante para a viabilidade dos conídios, a adesão à cutícula e a proteção contra fatores adversos.
A tabela a seguir sintetiza as três principais formulações disponíveis no mercado brasileiro e orienta a escolha conforme o cenário de uso:
| Formulação | Características | Sensibilidade à radiação UV | Uso recomendável |
| Pó molhável (WP) | Conídios em pó seco, dispersável em água durante o preparo da calda | Elevada | Aplicações em final de tarde ou em condições de baixa incidência solar |
| Suspensão concentrada (SC) | Conídios em veículo aquoso; homogeneização facilitada no tanque | Elevada | Aplicações foliares em condições de umidade favorável |
| Dispersão oleosa (OD) | Conídios em veículo oleoso; adesão à cutícula favorecida pela fase oleosa | Reduzida | Áreas com maior exposição solar, com verificação de compatibilidade do pulverizador |
| Granulado (GR) | Conídios em substrato sólido, com liberação gradual conforme o produto | Não aplicável (proteção pelo substrato) | Aplicação em solo ou palhada, conforme indicação da bula |
Pragas agrícolas brasileiras sob alvo do Beauveria bassiana
O espectro de ação do Beauveria bassiana abrange diversas pragas de importância econômica.Porém, ele pode variar conforme o isolado utilizado, pois cada linhagem apresenta perfil de virulência específico. Por isso, recomenda-se sempre a escolha de produtos registrados e validados para as pragas-alvo.
| Praga | Nome científico | Observação |
| Mosca-branca | Bemisia tabaci | Controle mais eficaz em ninfas |
| Tripes | Frankliniella spp., Caliothrips spp., Thrips spp. | Resultados relevantes em cultivos protegidos e campo aberto |
| Percevejo-barriga-verde | Dichelops melacanthus | Presença crescente em soja e milho, integrando programas de MIP (Manejo Integrado de Pragas) |
| Broca-da-cana | Diatraea saccharalis | Utilizada em áreas de expansão do cultivo, complementando o parasitoide Cotesia flavipes no manejo integrado. |
| Vaquinha | Diabrotica speciosa | Ação sobre adultos em parte aérea; larvas exigem estratégias específicas de aplicação no solo. |
| Cigarrinha-das-pastagens | Deois flavopicta | Prática consolidada em pastagens |
Compatibilidade do Beauveria bassiana com fungicidas e outros defensivos
A integração do Beauveria bassiana com outros defensivos exige atenção à compatibilidade. Três pontos são essenciais:
- Mistura em tanque: não recomendada. A maioria dos fungicidas apresenta ação letal sobre o fungo.
- Compatibilidade com inseticidas biológicos: deve ser verificada caso a caso, consultando a bula do produto e recomendações técnicas.
- Intervalo de segurança para colheita: consultar bula quanto ao intervalo de segurança de cada produto registrado
Além disso, a aplicação do Beauveria bassiana deve ser criteriosa, priorizando áreas e momentos de maior pressão da praga-alvo.
Práticas recomendadas para maximizar o desempenho do Beauveria bassiana
As orientações a seguir sintetizam os pontos críticos para um desempenho consistente desse agente biológicos em campo:
- Escolher a formulação adequada;
- Realizar aplicações no final do dia ou em períodos nublados, minimizando a exposição à radiação UV.
- Aplicar com a umidade relativa acima de 70% para favorecer a germinação dos conídios.
- Respeitar o intervalo mínimo entre aplicações de defensivos e do produto biológico.
- Consultar sempre a bula do produto para doses recomendadas e orientações específicas.
Controle biológico de precisão: a importância do domínio técnico
O sucesso do controle biológico com Beauveria bassiana depende do entendimento detalhado do mecanismo de infecção, da escolha da formulação e do manejo integrado com outros defensivos. Aprofundar o conhecimento técnico é o caminho para aplicações mais assertivas, redução de perdas e sustentabilidade no campo.
Cada etapa do ciclo de infecção, da adesão dos conídios à esporulação pós-morte, representa uma janela de vulnerabilidade que pode ser comprometida por condições ambientais adversas ou por escolhas incorretas de formulação.
Conhecer esses pontos críticos permite ao produtor e ao agrônomo tomar decisões mais embasadas, para determinar desde o horário da aplicação ideal até a compatibilidade com os demais produtos do programa fitossanitário.
Integrado a um programa de manejo consciente de pragas, o Beauveria bassiana contribui para a redução da pressão de seleção de resistência e para a preservação dos inimigos naturais, pilares de um sistema produtivo mais resiliente e sustentável.
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