Surtos de gafanhotos podem devastar lavouras e pastagens em questão de dias, causando perdas econômicas expressivas e exigindo respostas rápidas e assertivas. Em 2020, a ameaça de entrada de nuvens de gafanhotos no Sul do Brasil mobilizou órgãos de defesa agropecuária e produtores, evidenciando a necessidade de estratégias eficazes e seguras para o controle desses insetos. 

A ameaça não se restringe aos gafanhotos. Grilos de superfície e paquinhas também representam riscos importantes para culturas de grãos, cana-de-açúcar e pastagens, especialmente em regiões com histórico de infestação. O manejo integrado, com foco em soluções biológicas específicas e monitoramento preventivo, é fundamental para proteger o potencial produtivo e garantir a sustentabilidade das operações agrícolas. 

Neste artigo, serão detalhados os mecanismos de ação do Metarhizium acridum, as vantagens do controle biológico preventivo, as diferenças no manejo de grilos e paquinhas, além de recomendações práticas para a tomada de decisão no campo. 

Ficha rápida 

Item Resumo 
Principal agente Metarhizium acridum, fungo entomopatogênico específico de gafanhotos 
Como age Infecta o inseto pelo contato e o elimina em alguns dias 
Melhor momento Aplicação preventiva sobre as bandas de ninfas 
Formulação e aplicação Formulações em óleo, em ultrabaixo volume (UBV), terrestre ou aérea 
Grilos e paquinhas Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e nematoides entomopatogênicos 

Principais pontos 

  • O Metarhizium acridum é específico de gafanhotos e tem baixo risco para abelhas, inimigos naturais e vertebrados. 
  • Como o fungo leva alguns dias para matar o inseto, a aplicação preventiva sobre as ninfas é decisiva. 
  • Formulações em óleo favorecem o desempenho em baixa umidade; a proteção dos conídios contra fatores ambientais depende da composição. 
  • O controle químico também pode integrar o manejo precoce de ninfas, conforme o monitoramento, a recomendação técnica e as condições autorizadas de uso. 
  • Contra grilos e paquinhas, o Metarhizium acridum tem baixa eficiência; outros agentes biológicos são mais indicados. 

Mecanismos de ação do controle biológico em infestações de gafanhotos 

O controle biológico de gafanhotos utiliza principalmente o fungo Metarhizium acridum, que infecta esses insetos por contato e apresenta elevada especificidade para determinados grupos de gafanhotos. Como a morte ocorre em alguns dias, o uso preventivo, com aplicação sobre as ninfas, é decisivo para evitar a formação de nuvens de adultos e grandes surtos. 

A escolha pelo controle biológico é estratégica em áreas extensas, próximas a vegetação nativa, corpos d’água ou comunidades, onde a especificidade e a segurança ambiental do agente biológico são diferenciais importantes. O uso de fungos entomopatogênicos selecionados para a praga-alvo pode contribuir para a sustentabilidade do sistema produtivo. Seus efeitos sobre polinizadores, inimigos naturais e vertebrados dependem do agente, da formulação e das condições de uso. 

Principais espécies de gafanhotos e grilos que ameaçam a agricultura brasileira 

Espécie ou grupo Tipo Onde ocorre Dano principal 
Schistocerca cancellata Gafanhoto que forma nuvens Argentina, Paraguai, Sul do Brasil (surtos) Desfolha intensa em lavouras e pastagens 
Rhammatocerus schistocercoides Gafanhoto que forma bandas/nuvens Mato Grosso, Rondônia Desfolha em pastagens e lavouras 
Stiphra robusta e outras regionais Gafanhotos Nordeste e outras regiões Desfolha em culturas e vegetação nativa 
Grilos (Gryllidae) Grilos de superfície Diversas regiões Cortam plântulas e folhas 
Paquinhas ou grilos-toupeira (Gryllotalpidae) Grilos que vivem no solo Diversas regiões Atacam raízes, sementes e plântulas 

Schistocerca cancellata apresenta fases solitária e gregária e pode formar bandas de ninfas e nuvens de adultos capazes de grandes deslocamentos. Rhammatocerus schistocercoides também forma grandes agregações de ninfas e adultos e pode causar surtos com danos severos. 

O papel do Metarhizium acridum no combate a pragas agrícolas 

O Metarhizium acridum é um fungo entomopatogênico altamente específico para gafanhotos da superfamília Acridoidea. Anteriormente classificado como uma variedade de Metarhizium anisopliae, esse fungo foi selecionado em programas internacionais de controle biológico, especialmente na África e na Austrália, onde formulações em óleo e aplicações em ultrabaixo volume (UBV) foram amplamente utilizadas para conter surtos de gafanhotos. 

No Brasil, pesquisas conduzidas pela Embrapa avaliaram cepas nacionais de Metarhizium acridum para o controle do gafanhoto do Mato Grosso (Rhammatocerus schistocercoides), com resultados promissores em áreas de pastagem e vegetação nativa. O uso do fungo em emergências fitossanitárias depende de autorizações específicas e registro no Agrofit/MAPA, sendo fundamental consultar as recomendações oficiais antes da aplicação. 

Processo de infecção: como o fungo age no organismo do gafanhoto 

Etapa O que acontece 
Contato Os conídios do fungo aderem à cutícula do gafanhoto 
Germinação e penetração O conídio germina, forma apressório e atravessa a cutícula com enzimas 
Colonização O fungo se multiplica na hemolinfa do inseto 
Redução da alimentação O gafanhoto infectado reduz o consumo antes de morrer 
Morte O inseto morre em alguns dias, dependendo da temperatura e da dose 
Esporulação Em condições favoráveis, o fungo esporula no cadáver, liberando novos conídios 

Durante o processo de infecção, alguns gafanhotos exibem comportamento de “febre comportamental”, expondo-se ao sol para elevar a temperatura corporal e retardar o avanço do fungo. O Metarhizium acridum apresenta tolerância a temperaturas mais elevadas do que outros fungos entomopatogênicos, o que favorece sua eficácia em ambientes quentes e secos. 

Tecnologias de formulação e aplicação: eficiência do óleo e do ultrabaixo volume 

As formulações em óleo favorecem a aplicação e a ação do fungo em condições de baixa umidade. A proteção dos conídios contra fatores ambientais, incluindo a radiação ultravioleta, depende da composição da formulação. A aplicação em ultrabaixo volume (UBV), terrestre ou aérea, é utilizada em grandes áreas, e a deposição sobre as bandas de ninfas e a vegetação depende da calibração do equipamento e das condições de aplicação. 

Para maximizar a eficácia, recomenda-se aplicar o fungo nas horas mais frescas do dia, com vento adequado e sobre as áreas onde as ninfas se concentram. O monitoramento prévio das áreas de postura e eclosão é fundamental para identificar o momento ideal de intervenção. 

Gafanhoto de cor bege, com listras escuras no tórax, pousado em uma haste seca, com fundo alaranjado desfocado

Benefícios do manejo preventivo no controle de gafanhotos e grilos 

O controle biológico com Metarhizium acridum é mais eficaz quando aplicado de forma preventiva, sobre as bandas de ninfas, antes que elas se transformem em adultos e formem nuvens migratórias. Como o fungo leva alguns dias para eliminar o inseto, a antecipação da aplicação é determinante para evitar danos severos e a dispersão dos gafanhotos. 

Linha do tempo da estratégia preventiva: 

  1. Postura: fêmeas depositam ovos no solo em áreas específicas 
  1. Eclosão: surgem as ninfas, que ainda não voam 
  1. Bandas de ninfas: momento ideal para aplicação do fungo 
  1. Adultos: mais difíceis de controlar, pois voam longas distâncias 
  1. Nuvens: exigem ações emergenciais, geralmente com controle químico 

Estratégia preventiva contra gafanhotos: 

  1. Mapear áreas de postura e eclosão com base no histórico e monitoramento 
  1. Acompanhar alertas dos órgãos de defesa agropecuária 
  1. Monitorar a formação de bandas de ninfas 
  1. Aplicar o fungo sobre as bandas de ninfas, de forma preventiva 
  1. Reavaliar as áreas alguns dias após a aplicação 
  1. Definir a necessidade de controle químico conforme o monitoramento, o estágio da praga e a recomendação técnica. 

Metarhizium acridum x defensivos químicos: análise comparativa de resultados e desafios 

Característica Metarhizium acridum Controle químico 
Velocidade de ação Lenta, alguns dias Rápida 
Especificidade Alta, específico de gafanhotos Variável, pode afetar outros insetos 
Segurança para abelhas e inimigos naturais Alta Variável 
Uso em áreas sensíveis Mais indicado Com restrições 
Melhor momento Ninfas, de forma preventiva Conforme monitoramento, estágio da praga e recomendação técnica. 
Efeito residual na população Possível, via esporulação Limitado ao período de ação 

O controle biológico e o químico podem ser complementares. A escolha e o posicionamento das ferramentas dependem da espécie, do estágio de desenvolvimento, da infestação, da velocidade de ação necessária e das condições autorizadas de uso. 

Alternativas biológicas recomendadas para o manejo de grilos e paquinhas 

O Metarhizium acridum é específico para gafanhotos e apresenta baixa eficiência contra grilos e paquinhas. Para essas pragas, outros agentes biológicos são mais recomendados. 

Praga Opções biológicas mais estudadas Observação 
Grilos de superfície Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae Conforme registro 
Paquinhas (grilos-toupeira) Nematoides entomopatogênicos, Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana Algumas espécies de nematoides são específicas para paquinhas 

A escolha do agente deve considerar o registro no Agrofit/MAPA e as recomendações técnicas para cada cultura e praga. 

Falhas frequentes no uso do controle biológico contra gafanhotos e como evitá-las 

  • Esperar efeito imediato do fungo em nuvens de adultos 
  • Aplicar tarde, quando as ninfas já viraram adultos 
  • Usar Metarhizium acridum contra grilos e paquinhas esperando o mesmo efeito 
  • Aplicar sob sol forte e calor, sem formulação adequada 
  • Não acompanhar os alertas da defesa agropecuária 

Monitoramento integrado e manejo preventivo: estratégias para lavouras resilientes 

O sucesso do controle biológico de gafanhotos depende do monitoramento constante, da identificação precoce das áreas de postura e eclosão e da aplicação preventiva do fungo sobre as bandas de ninfas.  

A integração de agentes biológicos específicos, como o Metarhizium acridum, com práticas de manejo integrado de pragas, contribui para a sustentabilidade, a segurança ambiental e a proteção do potencial produtivo das lavouras brasileiras. 

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Perguntas Frequentes 

1. Como controlar gafanhotos de forma biológica? 

O principal agente é o fungo Metarhizium acridum, que infecta e elimina gafanhotos de forma específica. Ele deve ser aplicado preventivamente sobre as ninfas, antes da formação de grandes grupos e nuvens de adultos. 

2. O que é Metarhizium acridum? 

É um fungo entomopatogênico específico de gafanhotos, utilizado em programas de controle na África e Austrália e estudado no Brasil pela Embrapa. Infecta o inseto por contato e o elimina em alguns dias. 

3. Quanto tempo o fungo leva para matar o gafanhoto? 

Em geral, alguns dias, dependendo da temperatura, dose e espécie. Antes de morrer, o gafanhoto infectado reduz a alimentação, o que contribui para a proteção da lavoura. 

4. O Metarhizium acridum é seguro para abelhas? 

Sim. O fungo é específico de gafanhotos e apresenta baixo risco para abelhas, outros insetos benéficos e vertebrados, sendo indicado para áreas sensíveis. 

5. Por que aplicar o fungo nas ninfas? 

Porque as ninfas ainda não voam, permanecem concentradas em bandas e são mais fáceis de atingir. O controle das ninfas evita a formação de nuvens de adultos, que se deslocam rapidamente e causam danos severos. 

6. O Metarhizium acridum controla grilos? 

O fungo é específico de gafanhotos e tem baixa eficiência contra grilos e paquinhas. Para esses insetos, agentes como Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e nematoides entomopatogênicos são mais indicados. 

7. O que fazer em caso de nuvem de gafanhotos? 

Acione os órgãos de defesa agropecuária da sua região e siga as orientações oficiais. Em emergências, o controle químico registrado pode ser necessário, enquanto o biológico é mais indicado para prevenção e áreas sensíveis.