Manchas nas folhas da cana-de-açúcar podem ter causas diferentes e nem sempre justificam uma pulverização. A mancha anelar, causada pelo fungo Leptosphaeria sacchari, costuma ocorrer em folhas mais velhas, mas merece atenção quando atinge folhas novas, situação já registrada em canaviais paulistas.   

O diagnóstico correto é o primeiro passo para proteger o canavial e definir quando o controle químico, com produtos registrados para o alvo, é justificável. 

Para avaliar a mancha anelar na cana-de-açúcar, é preciso observar o formato das lesões, a presença de pontos pretos no centro das lesões antigas, a distribuição no dossel e a evolução ao longo do tempo.   

O manejo deve considerar a suscetibilidade da variedade, as condições do ambiente, o histórico do talhão e, quando justificado, o uso de fungicidas registrados para o alvo. 

Ficha rápida 

Característica Resumo 
Espécie do agente Leptosphaeria sacchari 
Hospedeiro Cana-de-açúcar; não há outros hospedeiros conhecidos 
Disseminação  Esporos transportados pelo vento e pela chuva 
Sintomas Principalmente folhas velhas do dossel inferior; também folhas novas, bainha e colmo. Lesões fusiformes com centro cor de palha, bordas castanho-avermelhadas e pontos pretos (estruturas de frutificação) em lesões antigas 
Manejo Diagnóstico, monitoramento, variedades menos suscetíveis, nutrição equilibrada e fungicidas registrados para o alvo, conforme bula e receituário agronômico 

Principais pontos 

  • Mancha anelar e mancha ocular são doenças distintas, causadas por Leptosphaeria sacchari e Bipolaris sacchari, respectivamente. 
  • Centro cor de palha, bordas castanho-avermelhadas e pontos pretos no centro das lesões antigas, que são as estruturas de frutificação do fungo, são o principal critério de identificação em campo. 
  • A ocorrência em folhas velhas não demonstra, por si só, redução de TCH (toneladas de cana por hectare) ou ATR (açúcar total recuperável). 
  • As ferrugens formam pústulas com esporos, principalmente na face inferior da folha; a mancha anelar forma lesões necróticas, sem pústulas. 
  • Há fungicidas registrados para mancha anelar em cana-de-açúcar; a indicação para cada alvo deve ser confirmada na bula. 
  • O diagnóstico e o monitoramento reduzem aplicações não justificadas e orientam a escolha varietal. 
  • Embora considerada secundária, a doença tem registros de alta severidade em folhas novas em canaviais paulistas. 

O que é a mancha anelar e qual é seu impacto 

Agente causal e e diferença em relação à mancha ocular 

A mancha anelar é causada pelo fungo Leptosphaeria sacchari, e a cana-de-açúcar é seu hospedeiro conhecido.  

A doença não deve ser confundida com a mancha ocular, causada por Bipolaris sacchari: são fungos diferentes, mas as lesões iniciais das duas doenças podem ser parecidas. A identificação incorreta do agente pode levar a escolhas inadequadas de manejo. 

A publicação Sugarcane Ring Spot, da Universidade da Flórida, Explica que a mancha anelar afeta principalmente folhas senescentes e indica os pontos pretos nas lesões antigas como critério para diferenciá-la da mancha ocular em campo.  

No Brasil, a Embrapa Meio Ambiente também classifica a doença como de pouca importância econômica, mas relata alta incidência em lavouras comerciais do Estado de São Paulo, inclusive em folhas novas e, em alguns casos, com severidade elevada. 

Área foliar, TCH e ATR 

A necrose elimina a capacidade fotossintética do tecido atingido. Entretanto, a consequência para a lavoura depende de quanto tecido funcional foi perdido, de quais folhas foram afetadas, da duração do problema e da capacidade de compensação da planta, com a emissão de novas folhas.   

Lesões em folhas próximas da senescência tendem a ter impacto menor do que uma progressão intensa sobre as folhas do dossel ativo, responsáveis pela maior parte da fotossíntese. 

A presença de mancha anelar não implica, necessariamente, redução de ATR: o efeito depende da extensão do tecido fotossinteticamente ativo comprometido. 

O TCH expressa a produtividade em massa de colmos. O ATR representa açúcar total recuperável, representa uma estimativa do açúcar recuperável por unidade de cana, influenciada pela composição e pela qualidade da matéria-prima.   

Perda de área foliar: risco potencial e dano 

  • A redução expressiva de área verde pode limitar a produção de fotoassimilados e afetar o desenvolvimento dos colmos. 
  • TCH e ATR devem ser avaliados separadamente, com dados de campo e análises tecnológicas da matéria-prima. 
  • Os efeitos da mancha anelar sobre a produtividade são pouco estudados; sem ensaio ou acompanhamento específico, não atribua um percentual fixo de perda à doença. 

O conteúdo do Mais Agro sobre manchas foliares da cana-de-açúcar relata observações brasileiras da doença também em folhas novas. Essa ocorrência justifica atenção, mas não estabelece uma relação quantitativa universal entre severidade, TCH e ATR. 

Sintomas e diagnose no campo 

Lesões iniciais e evolução 

No início, podem aparecer pequenas manchas alongadas ou ovais, de coloração verde-oliva escuro a marrom-avermelhada, com halo amarelo estreito. Conforme evoluem, tornam-se maiores e fusiformes, com contorno irregular, bordas castanho-avermelhadas e centro que passa de verde-oliva escuro a cor de palha.  

Pequenos pontos pretos no centro de lesões antigas são as estruturas de frutificação do fungo e constituem o principal critério de diagnose em campo. Quando há muitas manchas próximas, elas podem se unir, formando áreas cloróticas e necróticas.  

A coalescência das lesões deve ser registrada, mas não identifica sozinha o agente, porque outras doenças e danos não infecciosos também produzem necrose. 

Onde observar e quando confirmar 

Folhas mais velhas e regiões inferiores do dossel costumam ser mais afetadas. Examine também folhas intermediárias e novas, comparando plantas de diferentes pontos do talhão. Registre se a doença está restrita ao tecido senescente ou se se já compromete as folhas do dossel ativo. 

Mancha ocular, outras manchas e injúrias por herbicidas podem gerar confusão. N Na mancha ocular, as lesões são elípticas, marrom-avermelhadas e predominam em folhas jovens. Podem apresentar estrias que se prolongam em direção ao ápice da folha, mas essas estrias se formam apenas sob temperaturas mais amenas, e sua ausência não exclui a doença. Lesões iniciais de mancha anelar também podem ser confundidas com as de Bipolaris stenospila.  

Quando houver sintomas atípicos oumúltiplas doenças é recomendável encaminhar as amostras a um laboratório de fitopatologia antes de definir o manejo, seguindo os protocolos recomendados. 

Diferenças entre mancha anelar e ferrugens 

Doença Agente causal Aspecto da lesão Onde observar 
Mancha anelar Leptosphaeria sacchari Lesões fusiformes, centro cor de palha, bordas castanho-avermelhadas e pontos pretos em lesões antigas; sem pústulas Predomina em folhas velhas do dossel inferior; pode atingir folhas novas, bainha e colmo 
Mancha ocular (opcional) Bipolaris sacchari Lesões elípticas marrom-avermelhadas; podem apresentar estrias em direção ao ápice da folha Predomina em folhas jovens; as estrias se formam sob temperaturas mais amenas 
Ferrugem castanha Puccinia melanocephala Lesões alongadas, paralelas às nervuras, que evoluem para pústulas marrom-escuras com esporos marrons Pústulas principalmente na face inferior da folha 
Ferrugem alaranjada Puccinia kuehnii Pústulas cor de canela a alaranjadas, com esporos alaranjados; podem coalescer Pústulas principalmente na face inferior; diferenciação mais fácil em folhas jovens do dossel superior 

O aspecto das lesões e a presença de pústulas são mais úteis no diagnóstico do que a posição da folha no dossel. Entre as ferrugens, a cor dos esporos é o principal critério: alaranjados na ferrugem alaranjada e marrons na ferrugem marrom.  

A diferenciação é mais fácil em folhas jovens do dossel superior do que em folhas velhas e inferiores. 

Disseminação e ambiente 

Disseminação, umidade e microclima 

Os esporos do fungo da mancha anelar são disseminados pelo vento e pela chuva, segundo a Universidade da Flórida. Por isso, períodos com chuva, orvalho e permanência de água sobre as folhas favorecem diversos patógenos foliares e merecem atenção no monitoramento.  

O acompanhamento deve relacionar as condições do ambiente à progressão observada da doença, sem depender de um calendário fixo. 

Não há, nas referências técnicas disponíveis, limiar de umidade relativa ou faixa de temperatura definidos para orientar a aplicação contra a mancha anelar.  

A previsão de condições favoráveis complementa o monitoramento, mas não substitui o diagnóstico em campo. 

Palhada e resíduos culturais 

Em doenças foliares, restos culturais infectados podem atuar como fonte de inóculo. Para a mancha anelar, porém, não há recomendação técnica de retirada da palhada como medida de controle.  

A cobertura do solo pela palhada também contribui para a conservação da umidade e para a proteção contra a erosão.  

  A decisão sobre o manejo dos resíduos deve considerar a sanidade da lavoura, a conservação do solo, as operações mecanizadas e as restrições da legislação ambiental à queima.  

O histórico de cada talhão permite distinguir uma associação observada de uma relação de causa confirmada. 

Manejo integrado da mancha anelar 

Variedades e planejamento de talhões 

O uso de variedades menos suscetíveis é uma das principais medidas de manejo, e a escolha deve se apoiar em avaliações regionais e no histórico do talhão.  

Evite substituir uma variedade com base apenas em lesões em folhas velhas observadas em uma só avaliação. Reúna dados de progressão da doença, desempenho agronômico e ocorrência de outras doenças. 

A diversificação e a alocação varietal reduzem a dependência de um só material e ajudam a distribuir os riscos sanitários. A análise deve incluir ciclo, ambiente de produção e objetivos da usina.   

Consulte as informações sobre reação a doenças divulgadas pelos programas de melhoramento genético e compare-as com o histórico de cada talhão. Nesses programas, a mancha anelar é usada como critério para descartar genótipos suscetíveis. 

Solo, nutrição e silício 

A nutrição equilibrada favorece o desenvolvimento da cana, mas a adubação não recupera o tecido já necrosado nem substitui as demais medidas de manejo.  

Ajuste a adubação potássica e a dos demais nutrientes com base em análise de solo, diagnose foliar e recomendação agronômica. Doses acima da necessidade da cultura não se traduzem, necessariamente, em maior resistência à doença. 

Monitoramento para orientar a decisão 

  1. Identificar talhão, variedade, idade, ciclo (cana-planta ou soqueira) e histórico de doenças. 
  1. Examinar diferentes pontos e estratos foliares, incluindo bordas e interior do talhão. 
  1. Registrar lesões típicas, pontos pretos nas lesões antigas, presença de pústulas e proporção de área foliar verde preservada. 
  1. Repetir a avaliação para verificar a progressão, usando fotografias e critérios consistentes. 
  1. Confirmar o agente por análise laboratorial em situações duvidosas e separar doenças de injúrias por herbicidas. 
  1. Relacionar a decisão a evidências de dano e à viabilidade técnica e econômica. 

A proteção da cana-de-açúcar contra doenças deve fazer parte de um programa de sanidade.   

Além disso, quando ferrugens e mancha anelar ocorrem no mesmo talhão, a escolha do fungicida deve considerar a indicação em bula para cada alvo presente, e o resultado deve ser avaliado separadamente para cada doença. 

Manejo com fungicidas: critérios e limites 

Registro, alvo e justificativa 

A indicação de um fungicida depende de registro e bula vigentes para a cultura, o alvo e a modalidade de uso. O registro para outros alvos da cana-de-açúcar, como as ferrugens, não autoriza o uso contra mancha anelar se esse alvo não constar da bula.   

Consulte o Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários), do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), e a bula do produto antes da emissão do receituário agronômico. 

Há fungicidas registrados no Agrofit para mancha anelar (Leptosphaeria sacchari) em cana-de-açúcar, em geral formulados com ingredientes ativos dos grupos das estrobilurinas e dos triazóis. Dose, número máximo de aplicações, intervalo e momento de aplicação variam conforme o produto e devem seguir a bula e o receituário agronômico.  

A decisão de aplicar requer diagnóstico confirmado e avaliação do potencial de dano e do retorno econômico nas condições do talhão. 

Modos de ação dos fungicidas e seus limites 

Estrobilurinas e triazóis são grupos usados no manejo de diferentes doenças fúngicas. De forma geral, as primeiras interferem na respiração mitocondrial e os segundos na biossíntese de esteróis. Conhecer esse mecanismo não indica, por si só, ação sobre um patógeno específico nem autoriza o uso fora das indicações da bula. 

Mas vale destacar que fungicidas não recompõem áreas de folha já necrosadas. Quando existir indicação legal e técnica, siga as orientações específicas de manejo de resistência, número de aplicações e integração com outras práticas. 

Aplicação e avaliação do resultado 

A escolha de equipamento e modalidade precisa respeitar bula e legislação, além de cobertura, acesso ao dossel, risco de deriva e condições meteorológicas. A modalidade de aplicação, seja terrestre, aérea ou por drone, deve respeitar as indicações da bula e as normas do MAPA para cada tipo de equipamento.  

Drone agrícola pulverizando canavial verde sob céu azul com nuvens

O momento de aplicação também segue a bula do produto registrado, que pode indicar início preventivo ou aos primeiros sintomas, associado a fases da cultura como o fim do perfilhamento e o início do alongamento dos colmos. 

A mistura em tanque só deve ser feita com prescrição no receituário agronômico e após a verificação da compatibilidade entre os produtos.  

Após a aplicação de um fungicida registrado para o alvo, acompanhe o surgimento de novas lesões e a evolução da doença para novos ajustes no manejo. 

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Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo. 

Perguntas frequentes 

1. Mancha anelar e mancha ocular são a mesma doença? 

Não. A mancha anelar é causada por Leptosphaeria sacchari, enquanto a mancha ocular é causada por Bipolaris sacchari. As lesões iniciais podem ser parecidas, e os pontos pretos nas lesões antigas da mancha anelar ajudam a diferenciá-las. 

2. A mancha anelar sempre reduz o ATR? 

Não. O efeito depende da proporção de folhas ativas atingidas, da duração da doença e da capacidade de compensação da planta. A presença de sintomas, isoladamente, não confirma perda de açúcar sem avaliação específica. 

3. Como diferenciar mancha anelar das ferrugens? 

mancha anelar apresenta lesões com centro cor de palha, bordas escuras e pontos pretos no centro de lesões antigas. As ferrugens formam pústulas com esporos, principalmente na face inferior da folha; a mancha anelar não forma pústulas. 

4. A palha deve ser removida para controlar a doença? 

Não há recomendação técnica de retirada da palhada para o controle da mancha anelar. A cobertura também contribui para a conservação da umidade e para a proteção do solo contra a erosão. 

5. Quando avaliar o uso de fungicidas? 

Quando o diagnóstico estiver confirmado e a progressão da doença sobre as folhas ativas indicar potencial de dano. A aplicação deve usar produto registrado para mancha anelar em cana-de-açúcar, conforme bula e receituário agronômico. 

6. Posso usar um fungicida registrado para ferrugem? 

Somente se a mancha anelar constar da bula como alvo para cana-de-açúcar. Alguns fungicidas registrados para ferrugens na cultura também têm indicação para mancha anelar; confirme no Agrofit e na bula vigente. 

7. Silício elimina a mancha anelar? 

Não. Na Flórida, a escória de silicato de cálcio reduziu a severidade da doença, mas a resposta depende da fonte, do solo e do manejo. A prática não substitui o diagnóstico e o manejo integrado. 

8. Silício elimina a mancha anelar? 

Sim. O Agrofit lista fungicidas registrados para mancha anelar em cana-de-açúcar, em geral formulados com estrobilurinas e triazóis. Dose, número de aplicações e momento de aplicação variam conforme o produto e devem seguir a bula e o receituário agronômico.