O avanço da resistência de Ramularia areola a fungicidas representa um dos maiores desafios fitossanitários para a cotonicultura brasileira.
Produtores e agrônomos em regiões como Mato Grosso, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul têm relatado, com crescente frequência, falhas no controle da doença, mesmo com a aplicação de fungicidas que antes demonstravam alta eficácia.
A pressão seletiva exercida pelo uso contínuo de produtos com o mesmo mecanismo de ação tem favorecido o surgimento de populações de R. areola menos sensíveis aos fungicidas.
Entender o cenário atual por Estado e implementar um manejo eficaz são fundamentais para preservar as ferramentas químicas disponíveis e assegurar a sustentabilidade e a produtividade da cultura do algodão.
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O que é Ramularia areola e por que ela preocupa o algodoeiro brasileiro
Para compreender os riscos de resistência e estruturar um programa de controle eficaz, é preciso conhecer o agente causal damancha-de-ramulária, como a doença se desenvolve e qual é o impacto econômico que ela representa para a cotonicultura nacional.
Sintomas, ciclo e condições favoráveis à doença
Amancha-de-ramulária do algodoeiro se manifesta por meio de manchas angulares, delimitadas pelas nervuras, verde-amareladas na face superior e com esporulação branca com aspecto pulverulento na face inferior das folhas.
Com a evolução da doença, essas lesões coalescem, provocando o secamento e a queda prematura das folhas. Em casos severos, ramos e maçãs também podem ser afetados, comprometendo a qualidade da fibra e a produção.
O ciclo de Ramularia areola é rápido, especialmente sob alta umidade relativa (acima de 80%) e temperaturas entre 22°C e 28°C, condições comuns em muitas áreas de cultivo de algodão no Brasil.
A dispersão dos conídios ocorre principalmente pelo vento e pela chuva, favorecendo a rápida progressão da doença. Restos culturais infectados e hospedeiros secundários contribuem para a sobrevivência e inoculação inicial do patógeno.
Impacto na produtividade e na qualidade da fibra
O impacto da mancha-de-ramulária pode levar a perdas de produtividade ede até 25% em condições típicas, podendo ultrapassar 70% em situações de alta severidade e ausência de controle.
A desfolha prematura impede a formação adequada das maçãs, resultando em fibras mais curtas, fracas e de menor peso, o que deprecia o valor comercial do produto.
Além da redução de produtividade e qualidade da fibra, a mancha-de-ramulária aumenta significativamente os custos de produção pela necessidade de múltiplas aplicações de fungicidas.
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Resistência de Ramularia areola a fungicidas: o que dizem as evidências
A capacidade de R. areola de desenvolver resistência a fungicidas é sustentada por evidências de campo e estudos laboratoriais. Este fenômeno ameaça a eficácia das ferramentas de controle químico e torna urgente a compreensão dos mecanismos envolvidos e a adoção de estratégias preventivas.
Como a resistência se desenvolve em fungos fitopatogênicos
A resistência a fungicidas em patógenos fitopatogênicos ocorre por meio do processo de seleção natural após exposição recorrente, que conferem ao fungo a capacidade de tolerar doses do defensivo que seriam letais para populações sensíveis.
Com a aplicação repetida do mesmo fungicida, os indivíduos sensíveis são eliminados e os resistentes se multiplicam, tornando-se dominantes ao longo do tempo.
Os mecanismos de resistência incluem:
- alterações no sítio-alvo do fungicida, que impedem a ligação do ingrediente ativo à sua enzima-alvo;
- desintoxicação acelerada do fungicida pelo metabolismo do patógeno;
- redução da absorção ou aumento da extrusão do produto da célula fúngica.
O conhecimento desses mecanismos é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de manejo anti-resistência.
Grupos químicos com maior relato de perda de eficácia
As estrobilurinas (FRAC C3) e os triazóis (FRAC G1) são os grupos mais afetados, pelo mecanismo de ação sítio-específico, sendo queo uso intensivo e desassociado de outros grupos acelerou esse processo.
Há também preocupações crescentes com a eficácia dos fungicidas SDHI (inibidores da succinato desidrogenase, FRAC C2). A combinação e rotação com produtos multissítios, que agem em diversas vias metabólicas do fungo, são recomendadas para reduzir a pressão seletiva e proteger a eficácia dos fungicidas sítio-específicos remanescentes.

Cenário por Estado: onde a resistência é mais crítica
O cenário da resistência de R. areola a fungicidas não é uniforme em todo o Brasil, concentrando-se nas regiões de maior intensidade de cultivo e, consequentemente, maior pressão de seleção.
A seguir, um panorama das principais regiões produtoras.
Mato Grosso
Mato Grosso, líder nacional na produção de algodão, é também o Estado onde a pressão da mancha-de-ramulária é mais intensa e a preocupação com a resistência mais evidente.
O regime de múltiplas safras e a grande área cultivada favorecem a continuidade do ciclo do patógeno e o uso repetitivo de fungicidas. Ainda na safra 2003/2004, foram documentadas perdas econômicas e resistência em Campo Verde, MT, associadas ao uso contínuo do mesmo fungicida.
No Norte do Estado, o número de aplicações de fungicidas é elevado, criando ambiente de forte pressão seletiva.
Esse cenário exige dos produtores mato-grossenses comprometimento ainda maior com o manejo integrado e a rotação de princípios ativos.
Bahia e MATOPIBA
A Bahia e a região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) também enfrentam desafios crescentes com a mancha-de-ramulária. Embora a resistência não seja tão historicamente documentada quanto em Mato Grosso, o modelo de produção intensivo e a crescente área de cultivo indicam que a pressão de seleção está em ascensão.
O monitoramento constante e a adesão rigorosa a programas de rotação de fungicidas são essenciais para evitar que a situação se agrave nessa região.
A introdução de cultivares com resistência parcial à doença pode auxiliar na redução da dependência do controle químico.
Goiás e Mato Grosso do Sul
Em Goiás e Mato Grosso do Sul,, a mancha-de-ramulária também é doença de atenção. O aumento da área cultivada e a intensificação do uso de fungicidas criam cenário propício para o desenvolvimento de resistência. A vigilância e a aplicação de boas práticas desde o início são cruciais.
Os produtores nesses Estados devem adotar programa preventivo e rigoroso de manejo, priorizando a rotação de fungicidas com diferentes mecanismos de ação e a integração com outras estratégias, como o uso de cultivares tolerantes e a eliminação de restos culturais.
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Manejo rotacional de fungicidas como estratégia de controle
Diante do cenário de resistência, o manejo rotacional de fungicidas é a principal estratégia para preservar a eficácia dos produtos disponíveis e garantir o controle sustentável da doença.
O objetivo é reduzir a pressão seletiva sobre as populações do fungo, dificultando o desenvolvimento e a proliferação de indivíduos resistentes.
Princípios do manejo anti-resistência
Os princípios do manejo anti-resistência são baseados na diversificação e na aplicação inteligente dos fungicidas. A principal diretriz é nunca utilizar o mesmo fungicida ou fungicidas com o mesmo mecanismo de ação em aplicações consecutivas.
A alternância entre grupos com diferentes mecanismos de ação (grupos FRAC) é mandatória para evitar a seleção de populações resistentes.
Outro princípio fundamental é o uso de misturas de fungicidas, associando produtos multissítios ou de contato com fungicidas sítio-específicos. Essa estratégia aumenta a probabilidade de controle e dificulta a adaptação do fungo.
É igualmente importante utilizar as doses recomendadas, pois doses abaixo ou acima do recomendado podem acelerar o processo de seleção de resistência.
Como montar um programa rotacional eficaz
Montar um programa rotacional eficaz requer planejamento e conhecimento técnico. O ponto de partida é identificar os grupos químicos registrados para mancha-de-ramulária no algodão e seus mecanismos de ação, seguindo a classificação FRAC.
O programa deve rotacionar os fungicidas priorizando aqueles com menor risco de resistência e mecanismos de ação diferentes.
Um exemplo de rotação estruturada:
- Aplicação 1: Estrobilurina + Triazol + Protetor multissítio
- Aplicação 2: SDHI + Protetor multissítio
- Aplicação 3: Triazol + Protetor multissítio
- Aplicação 4: Fungicida multissítio isolado ou em mistura com outro grupo
Consulte sempre o MAPA Agrofit para verificar os produtos registrados e suas recomendações de uso.
Grupos de fungicidas registrados para ramulária no algodão: mecanismo de ação e recomendação de uso rotacional
| Grupo (FRAC) | Mecanismo de ação | Exemplos (classe) | Risco de resistência | Recomendação no manejo rotacional |
| Triazóis (G1) | Inibidores da biossíntese de ergosterol (DMI) | Difenoconazol, Protioconazol | Médio a alto | Usar em rotação ou mistura com outros grupos. Não repetir em aplicações consecutivas. |
| Estrobilurinas (C3) | Inibidores da respiração mitocondrial (QoI) | Trifloxistrobina, Piraclostrobina | Alto | Rotação estrita e em mistura com multissítios para proteger o sítio de ação. |
| Carboxamidas/SDHI (C2) | Inibidores da succinato desidrogenase | Fluxapyroxad, Benzovindiflupir | Alto | Alternar rigorosamente com outros grupos, sempre em mistura com multissítios. |
| Multissítios (M) | Diversos sítios metabólicos (não-sítio-específico) | Mancozebe, Clorotalonil | Baixo | Essenciais em misturas ou rotações. Reduzem pressão seletiva e gerenciam resistência. |
| Organoestânicos (FRAC 30) | Inibidores da fosforilação oxidativa | Trifenil hidróxido de estanho | Médio | Integrar em rotação preventiva com outros grupos para diversificar mecanismos de ação |
Fonte: FRAC (Fungicide Resistance Action Committee); Embrapa Algodão; MAPA/Agrofit; ABRAPA. Recomendações baseadas em diretrizes técnicas para a cotonicultura brasileira.
Boas práticas complementares no manejo da ramulária
O sucesso no controle da mancha-de-ramulária vai além do manejo químico. A integração de boas práticas agronômicas e culturais é fundamental para reduzir a pressão da doença, otimizar o uso de fungicidas e promover a sustentabilidade do sistema produtivo.
Monitoramento e tomada de decisão
O monitoramento constante da lavoura é a base para a tomada de decisão no manejo da mancha-de-ramulária.
A inspeção regular das plantas, principalmente a partir do início da floração, permite identificar os primeiros sintomas e determinar o momento ideal para a aplicação dos fungicidas.
A avaliação da severidade e incidência da doença, junto com as condições climáticas favoráveis, deve guiar o acionamento do controle.
A tomada de decisão deve ser baseada em critérios técnicos como nível de dano econômico e curvas de progresso da doença específicas para a região e cultivar. A ABRAPA oferece informações sobre boas práticas e sustentabilidade na cotonicultura.
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Integração com práticas culturais e resistência genética
A escolha de cultivares de algodão com resistência parcial à mancha-de-ramulária é uma das estratégias mais promissoras, pois reduz a necessidade de aplicações de fungicidas e, consequentemente, a pressão de seleção. A Embrapa Algodão tem trabalhado no desenvolvimento de genótipos com resistência parcial à doença.
Outras práticas culturais importantes incluem a eliminação de restos culturais, a rotação de culturas com gramíneas, o manejo adequado de plantas daninhas e a nutrição equilibrada da planta.
Essas ações contribuem para reduzir o inóculo inicial do fungo no campo, diminuindo a intensidade da doença e prolongando a eficácia das soluções químicas.
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