O final da safra de algodão, especialmente nos meses de março e abril no Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, marca um período de grande atenção para os produtores. As condições climáticas de calor intenso e baixa umidade relativa criam um ambiente altamente favorável à proliferação de ácaros. O uso excessivo de acaricidas químicos, por sua vez, pode levar ao desequilíbrio do agroecossistema e ao aumento do risco de resistência — agravando o problema.
O controle biológico do ácaro no algodão emerge como uma estratégia complementar e sustentável, essencial para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) da cultura.
Ácaros predadores como Phytoseiulus e Amblyseius são eficientes contra ácaros-praga e têm uso importante em programas de baixo impacto, enquanto fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae infectam e matam os ácaros por contato.
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Os principais ácaros-praga do algodoeiro e seus danos
Os ácaros, embora minúsculos, são capazes de causar prejuízos significativos ao algodoeiro. Esses artrópodes se alimentam da seiva das plantas, causando desfolha prematura, redução da área fotossintética e perdas em produtividade e qualidade da fibra.
Ácaro-rajado (Tetranychus urticae): biologia, sintomas e nível de dano econômico
O ácaro-rajado (Tetranychus urticae) é uma das pragas mais importantes do algodoeiro. Sua biologia é marcada por ciclo de vida curto (7 a 14 dias), alta capacidade reprodutiva (até 100 ovos por fêmea) e produção de teias finas na face inferior das folhas. Os sintomas de ataque incluem pontuações amareladas que evoluem para bronzeamento, necrose e desfolha, reduzindo drasticamente a produtividade e a qualidade da fibra.
Ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus): como identificar e diferenciar
O ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus) é menor (0,2 mm) e não produz teias. Suas toxinas causam deformações, enrugamento e endurecimento das folhas jovens e brotos, necrose das gemas apicais e superbrotamento. Identificação exige lupa de campo — seus sintomas podem ser confundidos com deficiências nutricionais. Para mais detalhes sobre os ácaros que atacam o algodão, acesse o artigo sobre ácaro-vermelho no algodão.
Por que abril é um período crítico para surtos de ácaros no algodão
Em abril, a combinação de algodoeiro em fase final de safra com elevadas temperaturas e baixa umidade relativa favorece a explosão populacional dos ácaros. Nesse período as plantas estão mais suscetíveis ao estresse hídrico, tornando-as alvos mais atraentes. O MIP do algodoeiro exige intensificação do monitoramento e ação preventiva nesse período.
Por que o controle biológico é estratégico no manejo de ácaros no algodão
O controle biológico tem ganhado protagonismo no manejo de ácaros no algodão por oferecer uma abordagem mais equilibrada e sustentável frente aos desafios do campo. Em um cenário de pressão crescente e risco de resistência a acaricidas, integrar agentes biológicos ao manejo se torna estratégico para manter a eficácia do controle e preservar a produtividade ao longo da safra.
O problema da resistência a acaricidas químicos
A alta capacidade reprodutiva dos ácaros e seu ciclo de vida curto os tornam particularmente propensos a desenvolver resistência. O uso contínuo e repetitivo de produtos com o mesmo modo de ação exerce pressão de seleção, favorecendo indivíduos resistentes. O controle biológico é um componente essencial para a gestão dessa resistência, ajudando a preservar a eficácia dos acaricidas ainda disponíveis.
Como o uso indiscriminado de inseticidas desequilibra a fauna benéfica
Inseticidas de amplo espectro, muitas vezes aplicados contra lagartas e percevejos, eliminam predadores e parasitoides que controlam naturalmente as populações de ácaros. Sem seus reguladores naturais, os ácaros têm surtos populacionais severos, criando um ciclo vicioso de dependência de insumos. Segundo o Mais Agro, o Brasil é um dos líderes mundiais no uso de defensivos biológicos, com crescimento de 34% do mercado em 2022 — justamente por sua capacidade de romper esse ciclo.
O papel dos ácaros predadores e fungos entomopatogênicos no equilíbrio da lavoura
Ácaros predadores da família Phytoseiidae, como Neoseiulus californicus, são inimigos naturais vorazes, alimentando-se de ácaros-praga em todas as suas fases. Fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae infectam e matam os ácaros por contato. Integrar o controle biológico por meio da preservação e da liberação desses agentes é fundamental para o equilíbrio da lavoura de algodão.
Principais ácaros-praga do algodoeiro: identificação, danos e estratégias de controle biológico
| Espécie | Sintomas-chave | Condições favoráveis | Agente biológico indicado |
| Ácaro-rajado (T. urticae) | Pontuações amarelas, bronzeamento, teias na face inferior, desfolha | Calor e baixa umidade (abaixo de 50%) | Neoseiulus californicus, Beauveria bassiana |
| Ácaro-branco (P. latus) | Deformação e enrugamento de brotos, superbrotamento | Temperatura alta, alta umidade relativa | Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae |
| Ácaro-vermelho (T. ludeni) | Bronzeamento severo, queda prematura de folhas, teias finas | Calor, ambiente seco | Neoseiulus spp., Beauveria bassiana |
Bioinsumos disponíveis para o controle de ácaros no algodão
O controle de ácaros no algodão tem passado por uma transformação com o avanço dos bioinsumos, que ampliam as opções dentro do manejo integrado. Hoje, o produtor conta com diferentes soluções biológicas que atuam de forma complementar, contribuindo para um controle mais sustentável e equilibrado da praga.
Fungos entomopatogênicos: Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae
Os fungos entomopatogênicos são ferramentas poderosas no controle biológico de ácaros no algodão. Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae infectam por contato direto: seus esporos aderem à cutícula do ácaro, germinam e penetram no corpo do hospedeiro, liberando toxinas que levam à sua morte em poucos dias. São mais eficazes quando aplicados preventivamente ou no início da infestação, pois necessitam de tempo para infectar a praga
Segundo o Mais Agro, o controle biológico aumentativo — como a liberação em massa de agentes biológicos produzidos em biofábricas — é indicado quando os inimigos naturais existentes não são suficientes ou quando há picos de infestação.
Ácaros predadores como agentes de controle biológico
Espécies como Neoseiulus californicus (Phytoseiidae) são criadas em laboratório e liberadas na lavoura para predar o ácaro-rajado e outras espécies fitófagas. A liberação deve ser feita estrategicamente no início da infestação, para que os predadores possam se estabelecer e multiplicar antes que a praga atinja populações elevadas.
Como escolher o bioinsumo certo para cada situação
A escolha depende de: espécie de ácaro predominante, estágio da cultura, condições climáticas esperadas e histórico da lavoura:
- Fungos entomopatogênicos (Beauveria, Metarhizium): versáteis, indicados para diferentes espécies de ácaros; exigem umidade acima de 70% para eficácia
- Ácaros predadores (Neoseiulus californicus): mais específicos para o ácaro-rajado; liberação inoculativa para controle duradouro
- Bioinseticidas bacterianos: como os à base de Pseudomonas para pragas associadas ao algodão;
Veja também: Inseticida biológico para controle de tripes no algodão e soja
Como aplicar bioinsumos para controle de ácaros no algodão: boas práticas
A aplicação de bioinsumos para o controle de ácaros no algodão exige atenção a fatores que vão além da escolha do produto. Para alcançar bons resultados, é fundamental adotar boas práticas que favoreçam a sobrevivência dos microrganismos e maximizem sua eficiência no campo, especialmente em um manejo integrado.
Condições climáticas ideais para aplicação de fungos entomopatogênicos
A umidade relativa do ar é o fator mais crítico: deve estar acima de 70% durante e após a aplicação para que os esporos de Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae germinem e infectem os ácaros. Temperaturas entre 20 e 30 °C são as mais favoráveis. Recomendações:
- Aplicar ao final da tarde, à noite ou em dias nublados para evitar degradação dos esporos pela radiação UV
- Aproveitar a umidade noturna para favorecer a infecção dos ácaros
- Evitar a aplicação em dias com temperatura acima de 35 °C e umidade abaixo de 50%
Compatibilidade com acaricidas químicos e outros defensivos
Fungos entomopatogênicos podem ser sensíveis a alguns fungicidas e acaricidas químicos. Antes de qualquer mistura de tanque, consultar a bula e realizar testes de compatibilidade. Priorizar produtos químicos seletivos que preservem a fauna benéfica é uma prática recomendada dentro do MIP do algodão.
Monitoramento e limiar de ação: quando acionar o controle biológico
O monitoramento deve ser realizado com inspeções regulares (a cada 5-7 dias no final da safra), amostrando a face inferior de folhas em diferentes pontos da lavoura com lupa de campo. O controle biológico deve ser acionado antes que a população atinja o nível de dano econômico, idealmente quando os primeiros focos são detectados. Quanto mais cedo a intervenção biológica, maior a chance de sucesso, pois os agentes precisam de tempo para se estabelecer.
Estratégias de controle biológico do ácaro no algodão: comparativo por bioinsumo
| Bioinsumo | Alvo principal | Modo de ação | Condição ideal de aplicação | Posicionamento no MIP |
| Beauveria bassiana | Ácaro-rajado, ácaro-branco, ácaro-vermelho | Contato: esporos infectam a cutícula | UR > 70%, temp. 20-30°C, perído fresco do dia | Preventivo e início de infestação |
| Metarhizium anisopliae | Ácaro-rajado, outros ácaros | Contato: esporos infectam a cutícula | UR > 70%, evitar UV direto | Preventivo, integrado com outros agentes |
| Neoseiulus californicus | Ácaro-rajado (T. urticae) | Predação de ovos, ninfas e adultos | Início da infestação; evitar aplicação com acaricidas | Liberação inoculativa para controle duradouro |
Integração do controle biológico ao MIP do algodão no final da safra
O controle biológico do ácaro no algodão é um componente essencial do MIP, não apenas complementando as ferramentas químicas, mas preservando sua eficácia a longo prazo. Ao preservar os inimigos naturais e introduzir agentes biológicos específicos, reduz-se a pressão de seleção para resistência a acaricidas.
Para o MIP completo do algodão, que inclui o manejo de outras pragas como o bicudo-do-algodoeiro, acesse os artigos sobre bicudo-do-algodoeiro e pragas do algodão no Brasil.
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