O etanol de batata-doce deixa de ser aposta pontual e passa a ganhar contornos de estratégia estadual em São Paulo. Nesta quinta-feira (23), durante a abertura da Batatec 2026, em Presidente Prudente, o governo paulista formaliza uma parceria tecnológica entre o Instituto Agronômico (IAC-Apta), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento, e a Agropecuária Vista Alegre, empresa do Grupo Better Beef. O foco é claro: desenvolver cultivares industriais de batata-doce voltadas à produção de biocombustíveis renováveis, sobretudo etanol e biometano.

O acordo, com vigência inicial de 12 meses e sem transferência financeira entre as partes, prevê projetos conjuntos de pesquisa, intercâmbio de pesquisadores e troca de conhecimento técnico. A leitura por trás do movimento é direta: aproximar o melhoramento genético público das necessidades reais da agroindústria de bioenergia, um setor que vem ganhando tração no estado com a diversificação das matérias-primas para além da cana.

O que muda no melhoramento genético

O IAC já é referência nacional em batata-doce e atende segmentos como alimentação, biofortificação e mercado ornamental. Com a nova cooperação, os pesquisadores passam a priorizar materiais desenhados para o processamento industrial. Entre as características buscadas:

  • Maior produtividade por hectare;
  • Alto teor de matéria seca e amido, essenciais para a fermentação;
  • Raízes mais uniformes, favorecendo o processamento;
  • Melhor rendimento litro por tonelada na produção de etanol.

O programa também vai avaliar o aproveitamento da biomassa e dos resíduos do cultivo e da indústria para gerar biogás e biometano, ampliando o retorno energético da lavoura. As novas cultivares serão testadas em condições comerciais, o que reduz a distância entre laboratório e agroindústria.

Uma das vitrines recentes do trabalho do instituto é a IAC Dom Pedro II, cultivar biofortificada com concentração de carotenoides quase 65 vezes maior que as variedades de polpa branca mais cultivadas em São Paulo, e produtividade 48,6% superior à principal cultivar utilizada pelos produtores paulistas.

Modelo circular por trás do etanol de batata-doce

A parceria com o IAC dá suporte científico a um movimento que a Vista Alegre já vinha estruturando. O projeto Bioenergia da Batata-Doce, do Better Group, prevê investimento de R$ 20 milhões e mira 7 milhões de litros de etanol por ano, dos quais 5 milhões viriam da fermentação direta da raiz, além de 7 mil toneladas de ração animal e 7 milhões de metros cúbicos de biogás com a integração de dejetos da pecuária.

A iniciativa já rendeu o 32º Prêmio Expressão de Ecologia, na categoria Energias Limpas, e propõe transformar em receita a batata-doce fora do padrão comercial, que historicamente ficava no campo por falta de mercado.

Assentamentos rurais no radar do bioenergético

Em movimento complementar firmado durante a Feicorte 2026, a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) assinou protocolo de intenções com a Vista Alegre para avaliar projetos produtivos em assentamentos estaduais do Oeste Paulista. A proposta prevê:

  • 150 hectares de batata-doce destinados ao etanol e ao biometano;
  • 80 hectares de eucalipto para geração de biomassa;
  • Cerca de 45 lotes rurais beneficiados, com geração de renda e integração com a agroindústria.

O modelo desenha um sistema em que pequenos produtores passam a fornecer matéria-prima previsível para uma cadeia industrial próxima, com contratos ancorados na demanda por biocombustíveis.

Oeste Paulista concentra a produção

São Paulo é o maior produtor brasileiro de batata-doce. Em 2025, o estado colheu 149,5 mil toneladas, movimentando R$ 183,95 milhões em Valor da Produção Agropecuária, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA/Apta). A região de Presidente Prudente responde por 81,5 mil toneladas, ou 54,5% do VPA estadual da cultura, com cerca de 180 produtores em municípios como Alfredo Marcondes, Álvares Machado, Caiabu, Martinópolis, Narandiba, Pirapozinho, Presidente Bernardes e Santo Expedito.

É esse tecido produtivo que a parceria pretende conectar de forma mais estruturada à agroindústria de bioenergia. O sinal para o produtor é a possibilidade de demanda estável e previsível, algo historicamente instável em uma cultura marcada pelo destino quase exclusivo ao mercado in natura.

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