A produtividade do milho no Brasil enfrenta desafios fitossanitários cada vez mais complexos, e um dos mais relevantes é o avanço do enfezamento, complexo de doenças transmitida pela cigarrinha do milho, Dalbulus maidis. Para o produtor que busca proteger o potencial produtivo da lavoura, entender como essa praga se mantém ativa entre safras é um passo essencial no manejo.
Nesse contexto, a ponte verde tem papel central. A presença de plantas voluntárias de milho mantém tanto a cigarrinha quanto os patógenos associados ao enfezamento em circulação no sistema produtivo, elevando o risco de infecção logo no início da nova safra. Neste conteúdo, você vai entender como esse processo ocorre e quais práticas ajudam a quebrar esse ciclo no campo.
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O que é ponte verde no sistema de produção de milho
No contexto agrícola, ponte verde é a presença contínua de plantas hospedeiras vivas que permitem a sobrevivência de pragas e doenças entre uma safra e outra. No milho, esse processo acontece principalmente por causa das plantas voluntárias, conhecidas como milho tiguera ou milho guaxo, que permanecem vivas no campo após a colheita.
Essas plantas funcionam como um elo biológico entre os ciclos produtivos. Mesmo na ausência de uma lavoura comercial implantada, elas oferecem alimento e abrigo para a cigarrinha do milho, principalmente a Dalbulus maidis, permitindo que o inseto sobreviva, se reproduza e mantenha os patógenos circulando na área, especialmente fitoplasta do enfezamento vermelho e o espiroplasma do emfezamento pálido, além do víruas da risca do milho.
Como surgem plantas voluntárias de milho
Para entender a origem das plantas voluntárias de milho, conhecidas como milho tiguera, é importante observar os principais fatores que contribuem para a perda de grãos durante e após a colheita e durante o transporte. A tabela a seguir resume essas causas e como elas favorecem o surgimento dessas plantas no campo.
| Fator | Como contribui para o surgimento do milho tiguera |
| Perdas na colheitadeira | Ajustes inadequados, velocidade excessiva ou condições desfavoráveis durante a colheita aumentam a quantidade de grãos que caem no solo. |
| Vazamento no transporte | Caminhões e equipamentos podem derramar grãos no trajeto ou na área de armazenamento, contribuindo para a presença de sementes no campo. |
| Condições climáticas | Chuvas e ventos fortes antes da colheita podem causar tombamento e debulha das espigas, espalhando grãos pela lavoura. |
| Manejo do solo | Práticas que não incorporam ou enterram adequadamente os grãos favorecem sua germinação na safra seguinte. |
| Condições favoráveis de ambiente | Umidade e temperatura adequadas permitem que os grãos germinem, originando plantas voluntárias entre safras ou junto a outras culturas. |
Relação entre ponte verde e sobrevivência de pragas
A presença de plantas voluntárias é decisiva para a sobrevivência da cigarrinha-do-milho entre uma safra e outra. Sem essas plantas, a população do inseto seria reduzida pela falta de alimento e hospedeiro adequado. Com a ponte verde estabelecida, a praga continua ativa mesmo fora do período da cultura comercial.
Esse processo é ainda mais grave porque as plantas voluntárias também podem manter os patógenos causadores dos enfezamentos (fitoplasmas e espiroplasmas). Assim, a nova safra já começa sob maior pressão, com cigarrinhas presentes na área e, muitas vezes, já infectadas.
Como a ponte verde favorece a cigarrinha do milho
A ponte verde (vegetação hospedeira) sustenta o ciclo da cigarrinha ao oferecer condições para sua permanência no ambiente. Isso significa que o inseto mantém sua população viável, mesmo na aus~encia de lavouras comerciais, continuando o seu ciclo reprodutivo. Quando o milho seguinte é implantado, a população já está estabelecida e pronta para colonizar a área desde as fases iniciais.
Esse cenário torna o manejo muito mais difícil, porque a lavoura passa a conviver com o vetor desde o começo do ciclo, aumentando a chance de infecção precoce e de perdas mais severas.
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Ciclo da cigarrinha (Dalbulus maidis)
A cigarrinha –do-milho é um inseto pequeno, de coloração amarelada, com cerca de 3 a 4 milímetros de comprimento. Seu ciclo de vida é relativamente curto e depende diretamente da presença de plantas de milho para alimentação e reprodução.
As fêmeas depositam os ovos nas nervuras das folhas jovens do milho, inserindo-os no tecido vegetal. Depois da eclosão, as ninfas passam por diferentes estádios até chegar à fase adulta. Em condições favoráveis, o ciclo completo pode durar de 20 a 45 dias, sendo mais rápido em temperaturas entre 2-28°C, o que favorece a rápida multiplicação da população quando há disponibilidade contínua de hospedeiro.

Transmissão do enfezamento nas lavouras
A transmissão do enfezamento é persistente, ou seja, uma vez que a cigarrinha adquire o patógeno ao se alimentar de uma planta infectada, ela pode transmiti-lo ao longo de toda a sua vida. Os principais agentes envolvidos são fitoplasmas e espiroplasmas, associados aos sintomas de enfezamento vermelho e enfezamento pálido.
Quando a nova safra é implantada em uma área com ponte verde, a cigarrinha já pode estar presente e infectada, o que acelera a disseminação da doença nas fases mais sensíveis da cultura.
Impactos do enfezamento do milho na produtividade
O enfezamento (pálido e vermelho) compromete diretamente o desenvolvimento da planta e a formação de espigas e grãos. Em lavouras com alta incidência, as perdas podem ser expressivas e afetar tanto o rendimento quanto a qualidade final da produção.
A intensidade dos danos depende de fatores como a época de infecção, a pressão da cigarrinha-do-milho, a suscetibilidade do híbrido e a eficiência do manejo adotado ao longo do ciclo.
Sintomas nas plantas
Para facilitar a identificação em campo, a tabela a seguir organiza os principais sintomas do enfezamento do milho, diferenciando as manifestações do enfezamento pálido e do enfezamento vermelho, além de seus impactos na planta e na produção.
| Tipo de Enfezamento | Sintoma | Como se manifesta na planta |
| Enfezamento pálido (fitoplasma) | Estrias cloróticas | Listras esbranquiçadas ou amareladas paralelas às nervuras, da base ao ápice das folhas, encurtamento dos entrenós |
| Enfezamento pálido (fitoplasma) | Avermelhamento ou arroxeamento | Presente principalmente nas bordas das folhas mais jovens, devido ao acúmulo de antocianinas |
| Enfezamento pálido (fitoplasma) | Encurtamento dos internódios | Planta com porte reduzido e folhas mais próximas entre si, aspecto “engruvinhado” |
| Enfezamento pálido (fitoplasma) | Espigas pequenas e improdutivas | Grãos mal formados, falhos ou ausentes |
| Enfezamento vermelho (espiroplasma) | Avermelhamento intenso e generalizado | Inicia nas pontas e margens das folhas e se espalha, podendo deixar a planta quase totalmente avermelhada |
| Enfezamento vermelho (espiroplasma) | Proliferação de perfilhos | Emissão excessiva de perfilhos que também apresentam nanismo e avermelhamento foliar |
| Enfezamento vermelho (espiroplasma) | Espigas pequenas e com grãos soltos | Espigas mal preenchidas, com grãos pouco fixados ao sabugo |
| Ambos | Secamento prematuro | Redução do ciclo da planta, comprometendo a produtividade |
| Ambos | Perda de produtividade e qualidade | Impacto direto na colheita e na qualidade final dos grãos |
Redução de rendimento da lavoura
A redução de rendimento pode ser significativa, variando de 15 a 90% da produção, especialmente quando a infecção peplso agentes infecciosos ocorre no início do desenvolvimento da cultura. Nesses casos, a planta perde capacidade de crescimento, acumula menos fotoassimilados e forma espigas com menor número de grãos e menor peso.
Além da perda quantitativa, o enfezamento também reduz o valor comercial da produção, já que afeta a uniformidade da lavoura e a qualidade dos grãos colhidos.
Como eliminar a ponte verde e reduzir o risco de enfezamento
A eliminação da ponte verde é uma das medidas mais importantes para reduzir a pressão inicial da cigarrinha-do-milho e diminuir o risco de enfezamento. O objetivo é interromper a continuidade do hospedeiro no sistema, reduzindo a sobrevivência do inseto e a permanência dos patógenos entre safras.
Esse manejo exige atenção não apenas à área cultivada, mas também ao entorno da lavoura, emcarreadores, bordaduras e locais onde o milho voluntário possa se estabelecer.
Manejo de plantas voluntárias
O controle do milho voluntário tiguera exige uma abordagem prática e integrada, combinando diferentes estratégias de manejo para reduzir a presença de plantas voluntárias e interromper a ponte verde que favorece a perpetuação de pragas e doenças. A seguir, veja as principais ações utilizadas no campo e como cada uma contribui para esse objetivo.
| Tipo de Manejo | Estratégia | Como contribui para o controle do milho tiguera |
| Manejo químico | Aplicação de herbicidas seletivos | Elimina plantas voluntárias de forma eficiente, especialmente quando aplicados em estádios iniciais, sem prejudicar culturas em rotação como soja ou algodão |
| Manejo químico | Rotação de princípios ativos | Evita a seleção de biótipos resistentes, mantendo a eficácia dos herbicidas ao longo do tempo |
| Manejo mecânico | Eliminação manual ou revolvimento superficial | Permite o controle em áreas menores ou de difícil acesso, removendo plantas voluntárias diretamente |
| Manejo mecânico | Uso criterioso do revolvimento do solo | Ajuda no controle, mas exige cuidado para não expor sementes viáveis de outras plantas daninhas |
| Manejo cultural | Ajuste adequado da colheitadeira | Reduz perdas de grãos na colheita, diminuindo a origem do milho tiguera na safra seguinte |
| Manejo cultural | Rotação de culturas | Dificulta a sobrevivência de pragas associadas, como a cigarrinha, contribuindo indiretamente para quebrar a ponte verde |
| Estratégia integrada | Combinação de métodos de manejo | Aumenta a eficiência do controle ao atuar em diferentes frentes, reduzindo a persistência do milho voluntário |
| Objetivo final | Erradicação do milho tiguera antes da nova safra | Interrompe a ponte verde do milho, reduzindo a sobrevivência da cigarrinha e o risco de enfezamento |
Intervalo entre safras
O intervalo sem plantas de milho vivas entre uma safra e outra, geralmente de 60 a 90 dias é uma medida importante para interromper o ciclo da cigarrinha-do-milho. Esse período reduz a disponibilidade de alimento e impede que o inseto continue se multiplicando no sistema e interrompe a transmissão de patógenos como molicutes.
Quando associado à eliminação rigorosa do milho voluntário, esse intervalo sanitário ajuda a diminuir a população inicial do vetor no momento da implantação da nova safra.
Monitoramento da cigarrinha
O monitoramento contínuo da cigarrinha (Dalbulus maidis) é uma ferramenta indispensável para o manejo do enfezamento e deve ser realizado em todas as fases da cultura, desde a entressafra até a maturação.
- Na entressafra: Realizar inspeções em áreas com milho tiguera para verificar a presença de cigarrinhas, indicando a necessidade de intensificar o controle da ponte verde milho.
- No pré-plantio e pós-emergência: Utilizar armadilhas adesivas amarelas (geralmente em densidade de 1 armadilha a cada 2-3 hectares) em áreas com alta pressão da praga para capturar e quantificar a população de cigarrinhas na área. O monitoramento deve começar pré-plantio (7-10 dias antes da semeadura) e se estender até os estádios V10 E V12, sendo os estádios V3 e V8 são os mais críticos para a infecção.
- Inspeção Visual: Realizar inspeções visuais diretas nas plantas, especialmente na face inferior das folhas e no cartucho, para identificar a presença de ninfas e adultos. A coleta e análise dos dados de monitoramento permitem ao produtor tomar decisões mais assertivas sobre a necessidade e o momento da aplicação de inseticidas, garantindo a eficácia do controle e a otimização dos recursos.
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Estratégias de manejo para proteger a lavoura contra o enfezamento
Proteger o milho contra o enfezamento causado por molicutes transmitidos pela cigarrinha exige manejo integrado e atenção contínua. Do planejamento ao monitoramento, cada decisão impacta diretamente a sanidade, a produtividade e a rentabilidade da lavoura. Na prática, isso envolve combinar as seguintes estratégias:
- Uso de híbridos tolerantes ou resistentes — Escolha materiais adaptados à região e ao histórico da área, com maior tolerância ao enfezamento e à cigarrinha.
- Tratamento de sementes com inseticidas — Protege as plantas nas fases iniciais (até V2V4), reduzindo a infestação do vetor nos primeiros 15-20 dias.
- Manejo Integrado de Pragas (MIP) — Combine monitoramento frequente, preservação de inimigos naturais e controle químico apenas quando necessário, com rotação de modos de ação.
- Eliminação da ponte verde — Controle rigoroso do milho tiguera na área e no entorno da lavoura.
- Respeito ao vazio sanitário — Mantenha período mínimo de 60-90 dias sem milho e outras gramíneas hospedeiras, conforme regulamentações locais, para interromper o ciclo da praga e do patógeno.
- Rotação de culturas — Utilize culturas não hospedeiras para reduzir a pressão de pragas e doenças.
- Nutrição equilibrada — Plantas bem nutridas são mais vigorosas e tolerantes aos estresses.
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