A soja cultivada no Brasil enfrenta mais de40 doenças identificadas, capazes de comprometer severamente a produtividade quando não há manejo adequado. As perdas mais expressivas são causadas pela ferrugem-asiática, mofo-branco e doenças de final de ciclo. 

A crescente resistência de patógenos a fungicidas, associada à intensificação do cultivo e à pressão de inóculo em regiões de alta densidade produtiva, torna o manejo integrado de doenças (MID) uma necessidade estratégica e não apenas uma recomendação. 

Neste artigo, serão apresentados os pilares do  manejo integrado de doenças (MID) na soja, as principais doenças da cultura e seus momentos críticos de controle, as diretrizes para a construção de um programa de fungicidas integrado e as práticas para um manejo mais consciente e sustentável ao longo das safras. 

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O desafio das doenças na soja: agentes, dispersão e condições de risco 

A soja é acometida por uma ampla gama de patógenos, incluindo fungos, bactérias e vírus. Entre os principais agentes de impacto econômico destacam-se Phakopsora pachyrhizi (ferrugem-asiática), Sclerotinia sclerotiorum (mofo-branco) e um complexo de fungos causadores das doenças de final de ciclo (DFC). 

A dispersão desses patógenos ocorre principalmente por esporos transportados pelo vento, sementes infectadas e restos culturais.  

Como as doenças afetam o potencial produtivo da soja 

Os patógenos atuam de diferentes formas sobre a soja. A ferrugem-asiática, por exemplo, coloniza rapidamente as folhas, comprometendo a fotossíntese e acelerando a senescência foliar. Em condições severas, a ferrugem-asiática pode causar perdas de até 90% da produtividade, em áreas sem manejo adequado. 

Já o mofo-branco ataca hastes e vagens, formando micélio e escleródios que persistem no solo por anos.  

Estrutura essencial do manejo integrado de doenças (MID) na cultura da soja 

O manejo integrado de doenças na soja baseia-se em múltiplos pilares que atuam de forma complementar para reduzir a pressão dos patógenos ao longo do ciclo da cultura. Os cinco componentes fundamentais são: 

  • Resistência varietal: a escolha de cultivares com tolerância  a doenças é o primeiro passo para reduzir a pressão dos patógenos. 
  • Época de semeadura: a definição da janela de plantio é estratégica para escapar dos períodos nos quais as condições climáticas favorecem as principais doenças. 
  • Rotação de culturas: alternar a soja com gramíneas, como milho ou braquiária, diminui o inóculo de patógenos  na área, quebrando o seu ciclo. 
  • Manejo de daninhas: o manejo de plantas daninhas e voluntáriasminimizam fontes de inóculo primário para a próxima safra. 
  • Monitoramento: a observação sistemática da lavoura permite identificar precocemente sintomas e tomar decisões assertivas sobre o momento e o produto a aplicar. 

Entenda mais: Biofungicida na soja: como integrar ao programa de fungicidas e ajudar no manejo da resistência 

Doenças-chave da soja e janelas críticas para intervenção  

A definição do momento de controle depende do ciclo da doença e do estádio fenológico da cultura. As principais doenças e seus momentos críticos são: 

  • Ferrugem-asiática: controle preventivo, com início das aplicações de fungicidas antes do fechamento das entrelinhas, visando proteger as folhas do terço inferior da planta antes que o microclima sob o dossel favoreça o desenvolvimento do patógeno.l. 
  • Mofo-branco: manejo preventivo, com aplicações específicas no início do florescimento (R1), associadas a práticas culturais de redução do inóculo no solo. 
  • Doenças de final de ciclo (DFC): o complexo formado pela mancha-parda e cercóspora exige controle a partir dos estádios R3 a R5.1, período em que os sintomas se intensificam. Doenças como mancha-alvo, antracnose e oídio também demandam atenção nessa faixa fenológica. 
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Construindo um programa de fungicidas integrado e sustentável 

A construção de um programa de fungicidas integrado requer planejamento, conhecimento dos grupos químicos e atenção ao manejo de resistência. Os 4 parâmetros essenciais são: 

  • Número de aplicações: em anos de alta pressão, podem ser necessárias reaplicações, ajustando conforme o histórico da área e a pressão observada no monitoramento. 
  • Rotação de grupos químicos (FRAC): alternar fungicidas de diferentes mecanismos de ação reduz a pressão seletiva sobre os patógenos e retarda o surgimento de populações resistentes. 
  • Adjuvantes e tecnologia de aplicação: a qualidade da cobertura foliar é determinante para os resultados do controle. O uso de adjuvantes adequados e bicos de pulverização calibrados melhora a distribuição e a adesão do produto. 
  • Momento de aplicação: decidir, através do monitoramento, especialmente para a ferrugem-asiática e o mofo-branco. 

Monitoramento: a espinha dorsal do MID na soja 

O monitoramento contínuo é a base para decisões assertivas no MID na soja.  Para a ferrugem-asiática, recomenda-se o monitoramento desde a emergência da cultura, com intensificação próximo ao florescimento ou ao fechamento das entrelinhas, observando folhas dos terços médio e inferior da planta para identificação de pontuações escuras na face abaxial. 

Para o mofo-branco, a decisão de controle deve considerar o histórico de ocorrência na área, as condições climáticas favoráveis à doença (alta umidade e temperaturas amenas) e a densidade do dossel, com aplicações preventivas a partir do início do florescimento (R1). 

Táticas recomendadas para o controle consciente de doenças na soja 

As orientações técnicas consolidadas para o manejo integrado de doenças na soja são: 

  • Escolher cultivares com maior tolerância  às principais doenças. 
  • Planejar a semeadura para escapar dos períodos de maior risco. 
  • Realizar rotação de culturas e manejo adequado de restos culturais. 
  • Monitorar a lavoura de forma sistemática, utilizando ferramentas digitais de apoio à decisão. 
  • Estruturar o programa de fungicidas com base na pressão de doenças, histórico da área e recomendações técnicas. 
  • Rotacionar mecanismos de ação conforme orientação do FRAC Brasil
  • Priorizar fungicidas com ação preventiva e garantir cobertura foliar adequada. 

Integração de estratégias para mais proteção, produtividade e sustentabilidade nas lavouras 

O manejo de doenças na soja exige planejamento, integração de práticas e atualização constante. O MID, aliado a um programa de fungicidas bem estruturado e ao monitoramento sistemático, é o que permite manter a produtividade e a sustentabilidade do sistema produtivo diante da crescente pressão de patógenos. 

 Produtores que investem na rotação de mecanismos de ação, no momento correto de aplicação e na integração com outras estratégias do MID estão construindo um sistema mais resiliente e sustentável. 

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