Alabama argillacea, conhecida popularmente como curuquerê-do-algodoeiro, representa novamente uma das maiores ameaças para as lavouras de algodão no Brasil. 

Historicamente classificada como praga-chave da cotonicultura, essa lagarta desfolhadora foi responsável por perdas que variavam entre 21% e 35% em ataques severos, conforme estudos citados em publicações da SciELO. S 

Seu ressurgimento impõe novos desafios a produtores e agrônomos, exigindo compreensão aprofundada de sua biologia e dos fatores que favorecem o aumento populacional. 

Este conteúdo detalha os motivos por trás do retorno da praga, explora sua biologia e os impactos na cultura do algodão, e apresenta as estratégias mais eficientes de monitoramento e controle integrado, fundamentais para garantir a sustentabilidade e a rentabilidade da cotonicultura nas regiões do Cerrado e MATOPIBA. 

Leia mais: 

Quem é a Alabama argillacea e qual o seu impacto no algodoeiro 

Antes de estruturar qualquer estratégia de controle, é fundamental conhecer a biologia da praga. Entender o ciclo de vida do curuquerê-do-algodoeiro e como ele age sobre a planta é o ponto de partida para um manejo eficiente e assertivo. 

Biologia e ciclo de vida da praga 

Alabama argillacea é um inseto da ordem Lepidoptera, família Noctuidae. Seu ciclo de vida começa com a postura de ovos na face inferior das folhas. Após a eclosão, as lagartas passam por seis instares larvais, período em que ocorre a maior parte do dano à cultura.  

As larvas apresentam coloração que varia do verde-claro ao verde-escuro, com listras longitudinais e pontuações pretas no corpo. 

Durante o desenvolvimento, uma única lagarta pode consumir mais de 100 cm² de área foliar, levando a uma desfolha intensa. A fase de pupa ocorre no solo ou em restos culturais, e os adultos são mariposas de coloração parda com hábitos noturnos. 

Mariposa Alabama argillacea, fase adulta do curuquerê-do-algodoeiro.

Sintomas de ataque e impacto na desfolha e produtividade 

Os sintomas de ataque são visíveis principalmente nas folhas do algodoeiro. As lagartas jovens (primeiros instares) raspam o limbo foliar e fazem pequenas perfurações, enquanto as mais desenvolvidas (últimos instares) consomem grandes porções das folhas, resultando  em casos severos, desfolha completa.  

Esse processo compromete diretamente a capacidade fotossintética da planta, resultando em redução da produção, comprometimento do enchimento das fibras e queda de estruturas reprodutivas. 

A severidade dos danos pode ocorrer em qualquer estágio fenológico, do vegetativo inicial ao reprodutivo avançado, com impacto direto na produtividade e qualidade da fibra. 

Por que a Alabama argillacea voltou a ser problema 

O retorno da Alabama argillacea como praga de alta relevância não é um evento isolado. É resultado de uma combinação de fatores agronômicos e ambientais que criaram condições favoráveis ao seu ressurgimento nas principais regiões algodoeiras do Brasil. 

Fatores que favoreceram o ressurgimento da praga 

Vários elementos contribuíram para o retorno do curuquerê. A presença de plantas voluntárias de algodão (tigueras ou soqueiras), remanescentes de safras anteriores que persistem em áreas de escape ou entre lavouras de soja e milho, é um dos principais fatores.  

Essas plantas funcionam como hospedeiras permanentes, criando pontes verdes que mantêm populações elevadas entre safras e facilitam infestações precoces nas novas lavouras. 

A falta de um vazio sanitário rigoroso para o algodão em algumas regiões, ou a dificuldade em erradicar todas as tigueras, potencializa esse problema e exige atenção redobrada no planejamento da entressafra. 

Relação com o uso de tecnologias Bt e resistência a inseticidas 

A ampla adoção de cultivares de algodão Bt  foi fundamental para a cotonicultura brasileira. No entanto, o ressurgimento da A. argillacea está principalmente associado à presença de tigueras, ao vazio sanitário inadequado e à pressão seletiva de inseticidas químicos, 

Issoreforça a necessidade de um manejo integrado de pragas (MIP), evitando a dependência exclusiva de uma única ferramenta e buscando a rotação de modos de ação para mitigar a seleção de indivíduos resistentes. 

Entenda: Glossário de alvos: lagartas do gênero Spodoptera 

Monitoramento e tomada de decisão no campo 

O monitoramento eficaz é a base de qualquer estratégia de controle de pragas. A identificação precoce da presença da Alabama argillacea e a avaliação da densidade populacional são cruciais para uma tomada de decisão assertiva, que minimize perdas e otimize o uso dos recursos disponíveis. 

Como monitorar a população de Alabama argillacea 

O monitoramento deve ser realizado de forma sistemática e contínua ao longo de todo o ciclo da cultura. Recomenda-se a vistoria regular de talhões percorrendo-os em formato de “X” ou “Z”, com inspeção de folhas especialmente do terço médio e superior das plantas, onde as lagartas jovens tendem a se alimentar. 

É importante contar o número de lagartas por planta ou por metro linear. O uso de armadilhas de feromônio pode auxiliar na detecção de mariposas adultas, indicando o início do voo e a possibilidade de futuras infestações.  

O acompanhamento do estágio de desenvolvimento das lagartas também é vital, pois os últimos instares são os mais vorazes e exigem intervenção mais rápida. 

Níveis de dano econômico e critérios para intervenção 

A intervenção contra a Alabama argillacea deve ser baseada nos Níveis de Dano Econômico (NDE), que representam o ponto em que o custo do controle se iguala ao valor da perda evitada. A ABRAPA e a Embrapa Algodão estabelecem NDEs para desfolhadores que variam conforme o estágio fenológico e o potencial produtivo da lavoura. 

Em estágios vegetativos, a tolerância pode ser maior. No período de formação e desenvolvimento de maçãs, a tolerância diminui significativamente, exigindo maior atenção e ações mais rápidas para preservar as estruturas reprodutivas. 

Estratégias de controle integrado 

O controle eficaz da Alabama argillacea exige uma abordagem multifacetada, baseada no Manejo Integrado de Pragas (MIP). Esse sistema combina diversas táticas para suprimir as populações da praga de forma sustentável, econômica e ambientalmente responsável, reduzindo a dependência de um único método. 

Controle biológico com Bacillus thuringiensis e outros agentes 

O controle biológico é uma ferramenta poderosa no MIP do curuquerê. A utilização de Bacillus thuringiensis (Bt) é uma das estratégias mais consolidadas: esse microrganismo produz toxinas letais para lagartas de Lepidoptera ao serem ingeridas, sendo seletivo e seguro para inimigos naturais e para o ambiente. 

Outros agentes biológicos, como vespas parasitoides e fungos entomopatogênicos, também desempenham papel importante na redução das populações por parasitismo de ovos e lagartas ou por infecção direta do inseto. A preservação de inimigos naturais é crucial e exige evitar o uso indiscriminado de inseticidas de amplo espectro. 

Controle químico e manejo anti-resistência 

O controle químico deve ser empregado de forma estratégica, como complemento ao MIP, quando as populações atingem os níveis de dano econômico. É fundamental optar por inseticidas seletivos e alternar produtos com diferentes grupos químicos e modos de ação (IRAC) para evitar o desenvolvimento de resistência. 

Alguns dos grupos utilizados para o controle de lagartas no algodão: 

  • Reguladores de crescimento (IGR): atuam como miméticos de hormônio juvenil ou inibidores de síntese de quitina, interferindo na ecdise e no desenvolvimento normal da lagarta. 
  • Diamidas (IRAC Grupo 28): causam paralisia muscular, atuando nos receptores de rianodina. 
  • Piretroides (IRAC Grupo 3A): agem no sistema nervoso, provocando hiperexcitação e morte rápida. 
  • Organofosforados (IRAC Grupo 1B): inibem a enzima acetilcolinesterase no sistema nervoso dos insetos. 

A rotação entre esses grupos impede que a praga desenvolva resistência a um único ingrediente ativo, prolongando a eficácia dos produtos disponíveis. O MAPA Agrofit disponibiliza a lista de produtos registrados para a cultura do algodão. 

Estratégias de controle de Alabama argillacea no algodão 

Método Agente/Produto Momento de aplicação Observações técnicas 
Cultural Eliminação de tigueras e plantas voluntárias Pré-plantio e entressafra Reduz a ponte verde entre safras. Essencial para prevenir infestações precoces em todas as regiões produtoras. 
Biológico Bacillus thuringiensis (Bt) Início da infestação, lagartas jovens Seletivo para inimigos naturais. Respeitar o momento ideal de aplicação para otimizar a ação. 
Biológico Vespas parasitoides e fungos entomopatogênicos Ocorrência natural ou liberação inundativa Preservar e/ou introduzir inimigos naturais. Favorecer biodiversidade e reduzir pressão seletiva. 
Químico Inseticidas com rotação de grupos IRAC Quando atingir o NDE Usar apenas quando necessário. Rotacionar grupos químicos. Aplicar em horários adequados e com tecnologia que garanta cobertura. 
Genético Cultivares de algodão Bt Plantio da cultura . Demanda manejo de área de refúgio para preservar a eficácia da tecnologia. 
Monitoramento Vistorias de campo e armadilhas de feromônio Contínuo durante todo o ciclo Base para tomada de decisão. Permite identificar presença e densidade populacional e definir o momento exato de intervenção. 

Fonte: Embrapa Algodão; ABRAPA; MAPA Agrofit. Recomendações baseadas em protocolos de MIP para a cotonicultura brasileira. 

Boas práticas no manejo integrado de pragas do algodão 

A implementação do MIP vai além da escolha dos produtos e métodos de controle. Envolve uma filosofia de produção que equilibra produtividade, rentabilidade e conservação ambiental em todas as etapas da lavoura. A seguir, os dois pilares dessa abordagem para a cotonicultura. 

Integração entre controle biológico, químico e cultural 

O sucesso do MIP reside na sinergia entre diferentes táticas. O controle cultural, como a eliminação rigorosa de tigueras e restos culturais, é a primeira linha de defesa, quebrando o ciclo da praga antes mesmo do plantio.  

controle biológico, por meio da conservação de inimigos naturais e do uso de bioinseticidas como o Bt, atua como pilar de sustentabilidade. O controle químico, quando necessário, deve ser cirúrgico, com produtos seletivos e em rotação. 

A articulação inteligente entre essas ferramentas é o que garante eficiência e perenidade das estratégias de manejo ao longo das safras.  

Importância do MIP para sustentabilidade e redução de custos 

A adoção do MIP para o controle da Alabama argillacea traz benefícios significativos ao produtor e ao meio ambiente. Do ponto de vista econômico, o monitoramento preciso e o uso de métodos biológicos e culturais reduzem a frequência de aplicações de inseticidas, diminuindo os custos com defensivos, combustível e mão de obra. 

Para o meio ambiente, o MIP promove a biodiversidade, protege polinizadores e inimigos naturais, e minimiza a contaminação de solo e água. A longo prazo, um manejo sustentável garante a saúde da lavoura e a resiliência do sistema produtivo, contribuindo para a imagem positiva do agronegócio brasileiro no cenário global. 

Leia também: Controle biológico, mecânico, ambiental e químico: como integrar estratégias no manejo de pragas 

Soluções Syngenta para o manejo de pragas no algodão 

A Syngenta oferece um portfólio de soluções para o controle de lagartas no algodão, incluindo a Alabama argillacea. Os produtos são desenvolvidos para se integrar aos programas de MIP, promovendo eficácia, segurança e sustentabilidade: 

  • POLYTRIN®composto por Cipermetrina e Profenofós (IRAC Grupos 3A e 1B), com ação por contato e ingestão, amplo espectro e rápida ação de choque. 

Para informações detalhadas sobre recomendações de uso, registro e compatibilidade, consulte sempre um engenheiro agrônomo e a bula do produto. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.  

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