O mofo-branco, causado por Sclerotinia sclerotiorum, é uma das doenças mais severas da soja em regiões de clima temperado e úmido, podendo resultar em perdas expressivas de produtividade em áreas de alta pressão.  

O principal desafio está na persistência dos escleródios no solo, estruturas de resistência que permitem a sobrevivência do patógeno por  vários anos no solo. 

A cada ciclo, o banco de escleródios representa a principal fonte de inóculo primário, sendo responsável pela germinação de apotécios e liberação de ascósporos que infectam as plantas.  

Estratégias convencionais apresentam limitações em situações de alta pressão, pois não atuam sobre o banco de escleródios no solo. 

Neste conteúdo, serão detalhados o mecanismo de ação do Coniothyrium minitans, suas condições ideais de aplicação, limitações e recomendações práticas para o manejo integrado do mofo-branco na soja. 

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O papel do Coniothyrium minitans no controle do mofo-branco 

Coniothyrium minitans é um fungo ascomiceto especializado em parasitar exclusivamente os escleródios de Sclerotinia sclerotiorum presentes no solo. Seu modo de ação é o hiperparasitismo: o fungo penetra nos escleródios, coloniza seu interior e forma estruturas reprodutivas denominadas picnídios, que destroem a matriz de resistência do patógeno. 

O processo ocorre em três etapas sequenciais: 

  • Penetração: os conídios de C. minitans germinam e penetram na superfície dos escleródios por meio de enzimas líticas e pressão mecânica. 
  • Colonização: o fungo prolifera no interior do escleródio, consumindo as reservas nutricionais e formando picnídios com novos conídios. 
  • Inviabilização: o escleródio parasitado perde completamente a capacidade de germinar e formar apotécios, interrompendo o ciclo do mofo-branco. 

A consequência direta é a redução progressiva do banco de escleródios viáveis no solo, com impacto direto na redução do inóculo primário nas safras seguintes. 

Controle do inóculo no solo: um diferencial estratégico contra o mofo-branco 

Os escleródios de Sclerotinia sclerotiorum podem permanecer viáveis no solo por vários anos, tornando-se a principal fonte de inóculo primário em áreas com histórico da doença. A cada safra, a germinação desses escleródios resulta na produção de apotécios e liberação de ascósporos que infectam as plantas em condições favoráveis. 

Reduzir o banco de escleródios no solo é a  estratégia capaz de atuar o problema em sua origem. O controle biológico com C. minitans, ao inviabilizar os escleródios, contribui para a sustentabilidade do sistema produtivo e para a redução da dependência de aplicações foliares de fungicidas ao longo das safras. 

Fatores ambientais que favorecem a ação do Coniothyrium minitans 

A eficácia do C. minitans depende diretamente das condições ambientais do solo. Os principais fatores são: 

Fator Condição ótima Impacto na eficácia 
Temperatura  Próximo de 20 °C, dentro da faixa de 15 a 25 °C  Abaixo de 7 °C, a germinação de esporos e a infecção dos escleródios são significativamente reduzidas; temperaturas acima de 25 °C também comprometem a atividade 
Umidade   Umidade relativa elevada e solo com umidade mantida Solo seco compromete a germinação e a colonização dos escleródios; períodos secos prolongados após a aplicação reduzem o desempenho 
Antecedência à semeadura Aplicação com pelo menos 60 a 90 dias antes do plantio O parasitismo é progressivo e requer tempo para inviabilizar os escleródios antes da formação de apotécios 
Incorporação ao solo 0 a 10 cm de profundidade  Faixa em que se concentra a maior parte dos escleródios viáveis; incorporação superficial aumenta o contato do fungo com as estruturas de resistência 
Horário de aplicação Aplicação no fim da tarde ou em dias nublados Conídios são sensíveis à radiação ultravioleta; aplicações sob sol intenso reduzem a viabilidade do inóculo 

Técnicas de aplicação do Coniothyrium minitans para maximizar o controle biológico 

 A aplicação de C. minitans deve ocorrer com antecedência de pelo menos 60 a 90 dias em relação à semeadura da soja, em janela que coincida com temperatura do solo próxima de 20 °C e umidade mantida.  

Em regiões de clima temperado e subtropical, essa janela geralmente coincide com o período de outono-inverno; em outras regiões, a definição do momento adequado depende do monitoramento das condições edafoclimáticas locais. 

As principais orientações técnicas para a aplicação são: 

  • Aplicar por pulverização sobre o solo, seguida de incorporação superficial por gradagem leve para garantir o contato com os escleródios nos primeiros 5 a 10 cm. 
  • Priorizar janelas com temperatura do solo próxima de 20 °C e umidade mantida, evitando períodos de seca prolongada após a aplicação. 
  • Integrar com práticas de manejo como rotação de culturas, eliminação de plantas hospedeiras alternativas e manejo adequado da palhada. 
  • Repetir as aplicações por múltiplas safras para obter redução significativa do banco de escleródios. 
  • Monitorar as condições ambientais e ajustar o manejo conforme a pressão da doença e o histórico da área. 

Limites e perspectivas do uso de Coniothyrium minitans no manejo biológico 

É fundamental compreender o que C. minitans pode e não pode fazer. Conhecer suas limitações é tão importante quanto conhecer seu mecanismo de ação: 

  • Não atua sobre a planta: o produto não controla a doença já instalada e não tem efeito sobre lesões ativas no tecido vegetal. 
  • Efeito progressivo: os resultados são acumulados ao longo de múltiplos ciclos produtivos. Aplicações únicas dificilmente produzem reduções expressivas do inóculo. 
  • Dependência das condições climáticas: temperatura e umidade do solo são determinantes para a eficácia. Safras com verões muito secos ou invernos muito frios podem comprometer o desempenho do produto. 
  • Complementar, não substituto: deve ser utilizado como parte de um programa integrado de manejo do mofo-branco, complementando, mas não substituindo, o uso de fungicidas foliares e outras práticas recomendáveis. 

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Controle biológico do mofo-branco: sustentabilidade e proteção contínua para a soja 

O controle biológico do mofo-branco com Coniothyrium minitans representa uma abordagem inovadora e sustentável para a redução do inóculo de Sclerotinia sclerotiorum no solo.  

Ao inviabilizar os escleródios, o hiperparasita contribui para a diminuição da pressão da doença ao longo das safras, promovendo a saúde do solo e a produtividade da soja. 

A expectativa realista é a redução gradual da pressão da doença, com benefícios acumulados ao longo do tempo. Produtores que adotam essa estratégia de forma continuada, integrada ao manejo cultural e ao uso criterioso de fungicidas foliares, tendem a observar redução progressiva na incidência do mofo-branco e na dependência de intervenções químicas. 

O avanço no uso de  biofungicidas de solo como C. minitans representa um passo importante na construção de sistemas produtivos mais resilientes, onde a proteção das lavouras é planejada com horizonte de múltiplas safras e não apenas em resposta a crises pontuais. 

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