A bioprospecção de microrganismos é um dos motores da inovação em bioinsumos agrícolas no Brasil. Estima-se que apenas uma pequena fração dos microrganismos do solo possa ser cultivada em laboratório pelas técnicas convencionais, o que mantém grande parte dessa diversidade ainda desconhecida, mesmo em um país que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta.
Essa riqueza biológica representa uma fonte estratégica para o desenvolvimento de soluções sustentáveis, capazes de enfrentar desafios como pragas, doenças e estresses abióticos nas lavouras.
Porém o avanço da agricultura tropical exige alternativas que sejam adaptadas às condições locais, como solos ácidos, altas temperaturas e períodos de seca. Nesse contexto, a busca por microrganismos nativos, capazes de promover crescimento, fixar nitrogênio ou controlar patógenos, tornou-se fundamental para a competitividade e sustentabilidade do setor agrícola brasileiro.
Neste conteúdo, você vai entender o que é bioprospecção de microrganismos, por que a biodiversidade brasileira é estratégica, como funciona o caminho da descoberta ao bioinsumo registrado, exemplos nacionais de sucesso, desafios do processo e critérios para escolher bioinsumos de qualidade.
Ficha rápida
| Item | Resumo |
| O que é bioprospecção | Busca sistemática por microrganismos da natureza com características úteis para a agricultura |
| Onde buscar | Solo e rizosfera, tecidos de plantas, solos supressivos, insetos e nematoides infectados e ambientes extremos |
| Etapas | Coleta, isolamento, triagem, identificação, caracterização, casa de vegetação, campo, formulação e registro |
| Exemplos brasileiros | Bradyrhizobium spp. selecionados em solos brasileiros, Azospirillum brasilense e Bacillus spp. solubilizadores de fósforo e indutores de tolerância à seca |
| Legislação | Lei da Biodiversidade (Lei nº 13.123/2015), cadastro no SisGen (Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado) e repartição de benefícios |
Principais pontos
- A bioprospecção é o primeiro passo para o desenvolvimento de novos bioinsumos.
- Microrganismos de ambientes tropicais podem apresentar adaptações ao calor, seca, solos ácidos e alta radiação.
- O caminho da descoberta ao registro pode levar vários anos, e muitos isolados promissoresem laboratório não apresentam desempenho semelhante no campo.
- Cepas diferentes da mesma espécie podem apresentar resultados distintos na lavoura.
- O acesso ao patrimônio genético brasileiro, que inclui microrganismos isolados no país, deve ser cadastrado no SisGen.
- Na escolha de bioinsumos, é recomendável priorizar produtos registrados no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), com cepa identificada no rótulo e testados em campo.
O que é bioprospecção de microrganismos
A bioprospecção de microrganismos é a busca sistemática por bactérias, fungos e outros microrganismos da natureza que tenham características de interesse agrícola, como o controle de pragas e doenças, a fixação biológica do nitrogênio atmosférico, a maior absorção de nutrientes pelas plantas e a tolerância a estresses abióticos.
O solo, as plantas e até mesmo os insetos abrigam uma diversidade microbiana imensa, com potencial para originar novos bioinsumos. Como grande parte desses microrganismos não cresce nos meios de cultura convencionais, a bioprospecção é um campo em constante evolução, que avança com novas técnicas de cultivo e com métodos independentes de cultivo, como a metagenômica, que permite estudar o material genético da comunidade microbiana diretamente da amostra.
Trata-se da etapa inicial do desenvolvimento de novos bioinsumos.
Biodiversidade brasileira: a chave estratégica para avanços em bioinsumos
- O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do mundo, com seis biomas de características distintas e microbiota ainda pouco explorada.
- Microrganismos de ambientes tropicais podem apresentar adaptações ao calor, seca, solos ácidos e alta radiação, características valiosas para a agricultura local.
- Cepas nativas tendem a se estabelecer melhor em condições semelhantes às de origem, o que pode favorecer o desempenho dos bioinsumos.
- A agricultura tropical enfrenta desafios específicos, como alta pressão de pragas e doenças, que demandam soluções adaptadas.
| Bioma | Condições marcantes | Características buscadas nos microrganismos |
| Caatinga | Semiárido, com seca prolongada, calor intenso e alta radiação | Tolerância à seca e ao calor |
| Cerrado | Solos ácidos, com alumínio tóxico e baixo teor de fósforo, e estação seca definid | Solubilização de fósforo, tolerância à acidez e seca |
| Amazônia | Alta umidade, solos ácidos de baixa fertilidade e grande diversidade biológica | Metabólitos antimicrobianos, diversidade de mecanismos |
| Mata Atlântica | Alta diversidade e umidade | Antagonistas de patógenos, promotores de crescimento |
| Pantanal | Alternância entre cheia e seca | Tolerância a encharcamento e variações de umidade |
| Pampa | Clima temperado, com invernos frios e geadas, e campos nativos | Adaptação a temperaturas mais baixas |
Tabela ilustrativa. As características podem variar conforme o local e o objetivo da pesquisa.
Fontes de prospecção: onde estão os microrganismos de interesse agrícola
Os microrganismos de interesse agrícola podem ser isolados de diferentes ambientes, com destaque para:
- Solo e rizosfera de plantas saudáveis, região do solo sob influência direta das raízes onde a interação planta-microrganismo é intensa, sobretudo em plantas sadias de áreas com ocorrência de doenças.
- Tecidos internos das plantas, colonizados por microrganismos endofíticos, que podem promover crescimento e contribuir para a proteção contra pragas e doenças.
- Solos supressivos, nos quais o patógeno e plantas suscetíveis estão presentes, mas a doença não se estabelece ou se desenvolve com baixa severidade em razão da atividade microbiana.
- Insetos infectados ou mortos por fungos ou bactérias, fonte de agentes de controle biológico.
- Nematoides, ovos e cistos de nematoides parasitados por microrganismos, fonte de agentes de controle biológico de fitonematoides, como os fungos nematófagos.
- Ambientes extremos, como áreas secas, salinas ou com variações bruscas de temperatura, fonte de microrganismos capazes de favorecer a tolerância das plantas a estresses abióticos.
Do laboratório ao campo: as fases cruciais na criação de bioinsumos microbianos
O caminho da descoberta de um microrganismo até o registro de um bioinsumo envolve múltiplas etapas técnicas e regulatórias. Veja o resumo das principais fases:
| Etapa | O que é feito | Objetivo |
| Coleta | Amostras de solo, plantas, insetos ou outros ambientes | Obter a diversidade microbiana |
| Isolamento | Separação dos microrganismos em meios de cultura | Obter culturas puras |
| Triagem | Testes de laboratório (antagonismo, enzimas, solubilização, promoção de crescimento) | Selecionar isolados promissores |
| Identificação | Sequenciamento de genes e do genoma | Determinar espécie e cepa |
| Caracterização | Estudo dos mecanismos de ação e avaliação de riscos à saúde e ao ambiente | Compreender o modo de ação e o perfil de risco |
| Casa de vegetação | Testes com plantas em condições controladas | Confirmar efeito nas plantas |
| Campo | Ensaios em diferentes locais e safras | Comprovar a consistência dos resultados |
| Formulação e escalonamento | Desenvolvimento da formulação e produção em larga escala | Obter estabilidade, qualidade e custo viável |
| Registro | Dossiê técnico com dados agronômicos, toxicológicos, ambientais e de controle de qualidade | Obter o registro no MAPA para comercialização |
O processo pode levar vários anos, já que inclui ensaios em diferentes locais e safras, e muitos isolados promissores em laboratório não apresentam desempenho semelhante no campo.
O sequenciamento genético e a mineração de genomas aceleram a seleção de cepas, permitindo identificar genes ligados à produção de metabólitos de interesse.
Casos nacionais: microrganismos selecionados no Brasil que originaram bioinsumos
| Microrganismo | Uso | Observação |
| Bradyrhizobium spp. | Inoculantes para soja | Cepas selecionadas no Brasil a partir de populações adaptadas aos solos tropicais; base da fixação biológica de nitrogênio na soja |
| Azospirillum brasilense | Inoculantes para gramíneas, como milho e trigo, e coinoculação na soja | Promoção de crescimento por diferentes mecanismos, incluindo produção de fito-hormônios e fixação biológica de nitrogênio |
| Bacillus spp. Solubilizadores de fósforo | Maior aproveitamento de fósforo | Cepas selecionadas pela Embrapa Milho e Sorgo, de origem rizosférica e endofítica |
| Bacillus spp. indutores de tolerância à seca | Tolerância das plantas ao estresse hídrico | Exemplo: cepa isolada da rizosfera do mandacaru, na Caatinga, pela Embrapa Meio Ambiente |
| Fungos entomopatogênicos e antagonistas nativos | Controle de pragas e doenças | Diversos isolados brasileiros em uso e em pesquisa |
Esses exemplos ilustram como a pesquisa nacional, em parceria com instituições como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), universidades e empresas, transforma a biodiversidade em soluções práticas para a agricultura.
Coleções de culturas: o motor da inovação em bioinsumos
As coleções de microrganismos são fundamentais para a pesquisa e o desenvolvimento de bioinsumos. Elas preservam cepas identificadas e caracterizadas, o que permite sua disponibilidade para estudos futuros e para a produção industrial.
No Brasil, o MAPA mantém uma lista oficial de cepas autorizadas para a produção de inoculantes, depositadas em coleções de referência, o que contribui para a qualidade e a rastreabilidade dos produtos.
Regulamentação e acesso ao patrimônio genético: o cenário legal da bioprospecção no Brasil
O acesso ao patrimônio genético, incluindo microrganismos isolados de amostras coletadas no território nacional, é regulado pela Lei da Biodiversidade (Lei nº 13.123/2015).
Pesquisas e desenvolvimentos de produtos com recursos genéticos brasileiros devem ser cadastrados no SisGen, e a exploração econômica do produto acabado pode envolver a repartição de benefícios.
Desde 2021, o Brasil também é parte do Protocolo de Nagoya, acordo internacional que estabelece regras para o acesso a recursos genéticos e a repartição justa dos benefícios derivados de seu uso.

Desafios e oportunidades na bioprospecção microrganismos
- Grande parte dos microrganismos do solo não cresce em meios de cultura convencionais, e mesmo os identificados por métodos moleculares só podem originar bioinsumos se forem cultivados em escala.
- Resultados promissores em laboratório nem sempre se confirmam no campo, em razão de variações de solo e clima e da competição com a microbiota nativa..
- A manutenção da viabilidade do microrganismo na formulação, durante o armazenamento e após a aplicação, é um desafio técnico.
- O escalonamento da produção, do laboratório à escala industrial, exige processos de fermentação que mantenham pureza, concentração do microrganismo e custo viável.
- O registro exige dossiê com dados agronômicos, toxicológicos, ambientais e de controle de qualidade, o que torna o processo longo e oneroso.
- A proteção da propriedade intelectual depende do cadastro prévio do acesso no SisGen, e a exploração econômica do produto pode envolver a repartição de benefícios.
Como identificar bioinsumos de excelência para uso agrícola
- Preferir bioinsumos registrados, com cepa identificada no rótulo, o que favorece a rastreabilidade.
- Valorizar produtos testados em campo, em diferentes regiões e safras.
- Entender que cepas diferentes da mesma espécie podem ter resultados distintos.
- Seguir as recomendações do rótulo e da bula e avaliar o desempenho na própria área.
Mitos e equívocos frequentes sobre a bioprospecção microbiana
- Supor que qualquer microrganismo isolado do solo pode virar produto comercial.
- Confundir espécie com cepa, ignorando a importância da linhagem específica.
- Esperar que os resultados de laboratório, feitos em condições controladas, se repitam no campo.
- Desconsiderar as regras de acesso e repartição de benefícios da biodiversidade.
Inovação sustentável: da biodiversidade tropical ao avanço agrícola
A bioprospecção de microrganismos é um processo complexo, que transforma a riqueza dos biomas brasileiros em soluções inovadoras para a agricultura.
Na escolha de bioinsumos, é recomendável valorizar produtos registrados, com cepa identificada e testados em campo, o que contribui para um manejo mais assertivo e sustentável da lavoura.
A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo.
Perguntas frequentes
1. O que é bioprospecção de microorganismos?
É a busca sistemática por microrganismos da natureza, que tenham características úteis para a agricultura, a saúde ou a indústria. A bioprospecção de microrganismos concentra-se em bactérias, fungos e outros microrganismos e, na agricultura, é a etapa inicial do desenvolvimento de bioinsumos.
2. Como um microrganismo se transforma em bioinsumo?
A partir de amostras coletadas na natureza, o microrganismo é isolado, testado em laboratório, identificado e caracterizado. Depois, passa por testes em casa de vegetação e em campo, em diferentes locais e safras. O produto é então formulado, produzido em escala e registrado no MAPA antes de chegar ao produtor.
3. Por que a biodiversidade brasileira é importante para os bioinsumos?
A biodiversidade brasileira inclui microrganismos que podem apresentar adaptações a condições tropicais, como calor, seca e solos ácidos. Cepas selecionadas nesses ambientes tendem a se estabelecer melhor em condições semelhantes às de origem, o que pode favorecer o desempenho dos bioinsumos nas lavouras do país.
4. Quais bioinsumos brasileiros vieram da bioprospecção?
Exemplos são as cepas de Bradyrhizobium selecionadas no Brasil e usadas nos inoculantes de soja, as cepas de Azospirillum brasilense usadas em gramíneas e na coinoculação e bactérias do gênero Bacillus que favorecem a absorção de fósforo e a tolerância das plantas à seca, desenvolvidas a partir de pesquisas brasileiras.
5. Quanto tempo leva para desenvolver um bioinsumo?
O desenvolvimento de um bioinsumo pode levar vários anos, da coleta ao registro, porque inclui testes em laboratório, em casa de vegetação e em campo, em diferentes locais e várias safras, além do desenvolvimento da formulação e da elaboração do dossiê de registro.
6. É preciso cadastro para pesquisar microrganismos no Brasil?
Sim. Pela Lei da Biodiversidade, microrganismos isolados de amostras coletadas no território nacional fazem parte do patrimônio genético brasileiro. O acesso deve ser cadastrado no SisGen antes de etapas como envio de amostras, pedido de propriedade intelectual, comercialização ou divulgação de resultados. A autorização prévia é exigida apenas em casos específicos previstos na legislação, e a exploração econômica do produto acabado pode envolver a repartição de benefícios.
7. Qual a diferença entre espécie e cepa?
A espécie reúne organismos com características genéticas e biológicas em comum, como Bacillus subtilis. A cepa, também chamada de estirpe, é uma linhagem específica dentro da espécie, com características próprias. Duas cepas da mesma espécie podem apresentar desempenho muito diferente na lavoura.”


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