A infestação de pulgões pode causar perdas expressivas de produtividade, especialmente em trigo, cevada, aveia, milho e sorgo. Além da sucção de seiva, algumas espécies transmitem o vírus do nanismo amarelo da cevada (VNAC), comprometendo o desenvolvimento das plantas e a qualidade dos grãos.  

Em condições favoráveis, as populações de pulgões se multiplicam rapidamente, tornando o controle um desafio constante para agricultores e técnicos. 

Por isso, o controle biológico, com uso de parasitoides como vespas e fungos entomopatogênicos, ganha destaque como estratégia sustentável e integrada. 

Neste conteúdo, serão detalhados os principais pulgões das gramíneas, os mecanismos de ação dos inimigos naturais, como reconhecer e monitorar o parasitismo, além de recomendações práticas para integrar o controle biológico ao manejo, visando produtividade e sustentabilidade. 

Ficha rápida 

Item Resumo 
Principais pulgões Rhopalosiphum padi, Schizaphis graminum, Sitobion avenae, Metopolophium dirhodum e Rhopalosiphum maidis 
Parasitoides Lysiphlebus testaceipes e Aphidius spp. 
Predadores Joaninhas, larvas de sirfídeose crisopídeos, aranhas e percevejos predadores 
Fungos Beauveria bassiana, Cordyceps fumosorosea, Akanthomyces spp. e fungos da ordem Entomophthorales 
Sinal de parasitismo Múmias: pulgões inchados, endurecidos e imóveis, de cor bege a dourada ou preta 

Principais pontos 

  • O controle biológico de pulgões combina parasitoides, predadores e fungos entomopatogênicos. 
  • O Lysiphlebus testaceipes já está presente em muitas regiões e é peça-chave do controle conservativo. 
  • Fungos entomopatogênicos dependem de alta umidade, temperatura moderada e baixa radiação ultravioleta para infectar os pulgões. 
  • Em áreas de alto risco do vírus do nanismo amarelo da cevada, o controle biológico deve ser combinado a outras táticas. 

Mecanismos de ação no controle biológico de pulgões 

O controle biológico de pulgões utiliza inimigos naturais para reduzir as populações da praga. Os principais grupos são os parasitoides, como Lysiphlebus spp. e Aphidius spp., que se desenvolvem dentro dos pulgões, os predadores, como joaninhas e sirfídeos, e os fungos entomopatogênicos, como Beauveria bassiana, que infectam e matam os pulgões. 

Existem três estratégias principais de controle biológico: 

  • Controle biológico clássico: introdução de inimigos naturais provenientes da região de origem da praga, para o controle de pragas exóticas. 
  • Controle biológico conservativo: proteção e estímulo dos inimigos naturais já presentes na área, por meio de práticas que preservam sua sobrevivência. 
  • Controle biológico aumentativo: liberação ou aplicação de agentes produzidos em laboratório, como parasitoides ou fungos, para reforçar o controle natural. 

Espécies de pulgões que desafiam as gramíneas brasileiras 

Espécie Nome comum Culturas 
Rhopalosiphum padi Pulgão-da-aveia Trigo, cevada, aveia, milho 
Schizaphis graminum Pulgão-verde-dos-cereais Trigo, cevada, sorgo 
Sitobion avenae Pulgão-da-espiga Trigo e cevada 
Metopolophium dirhodum Pulgão-da-folha Trigo e cevada 
Rhopalosiphum maidis Pulgão-do-milho Milho e sorgo 

Principais danos causados pelos pulgões: 

  • Os danos causados pelos pulgões podem ser diretos, pela alimentação nas plantas, ou indiretos, pela transmissão de vírus. 

Danos diretos: 

  • Sucção de seiva, que enfraquece as plantas e reduz seu desenvolvimento 
  • Injeção de saliva tóxica, especialmente por S. graminum, que provoca lesões no local de alimentação e pode levar plântulas à morte, principalmente em regiões onde o trigo é semeado entre fevereiro e abril 
  • Excreção de melado, sobre o qual se desenvolve a fumagina, que reduz a fotossíntese em altas infestações 

Danos indiretos: 

  • Transmissão do VNAC, que tem R. padi como vetor mais eficiente e provoca amarelecimento das folhas, redução da estatura das plantas, espigas menores e grãos chochos 

Em conjunto, esses danos resultam em redução da produtividade e da qualidade dos grãos, com menos espigas, menos grãos por espiga e menor peso de grãos. 

A reprodução dos pulgões ocorre principalmente por partenogênese: as fêmeas geram ninfas sem necessidade de acasalamento, e essas ninfas se desenvolvem em novas fêmeas.  

Parasitoides especialistas: Lysiphlebus e Aphidius no combate aos pulgões 

Os parasitoides da subfamília Aphidiinae (Braconidae) são fundamentais no controle biológico de pulgões. A fêmea do parasitoide deposita um ovo dentro do pulgão, onde a larva se desenvolve, matando o hospedeiro e formando uma múmia (casca endurecida). O adulto emerge por um pequeno orifício, reiniciando o ciclo. 

Lysiphlebus testaceipes: características e papel no controle conservativo 

O L. testaceipes é um parasitoide nativo das Américas e polífago, que ataca mais de 100 espécies de pulgões. Em cereais, parasita principalmente S. graminum e Rhopalosiphum spp., sendo peça-chave no controle biológico conservativo, pois já está presente em muitas regiões produtoras. 

Aphidius spp.: papel e potencial no manejo biológico 

O gênero Aphidius inclui espécies como Aphidius colemani, Aphidius ervi, Aphidius rhopalosiphi e Aphidius uzbekistanicus, utilizadas em programas de controle biológico clássico e aumentativo. Algumas espécies são criadas em laboratório e comercializadas, especialmente para cultivos protegidos. 

Característica Lysiphlebus testaceipes Aphidius spp. 
Origem Nativo das Américas Várias espécies, algumas introduzidas no Brasil pela Embrapa Trigo a partir de 1978 
Pulgões hospedeiros Polífago; em cereais, Rhopalosiphum spp., S. graminum e S. avenae Varia com a espécie; em trigo, R. padi, M. dirhodum e outros 
Estratégia predominante no Brasil Conservativa Clássica e conservativa; aumentativa em cultivos protegidos 

Hiperparasitoides, como espécies de Dendrocerus e Alloxysta, podem parasitar os parasitoides, reduzindo sua ação em determinadas situações. 

Predadores naturais: aliados no controle de pulgões 

  • Joaninhas: Hippodamia convergens, Cycloneda sanguinea, Eriopis connexa 
  • Larvas de sirfídeos (moscas-das-flores) 
  • Larvas de crisopídeos (bicho-lixeiro) 
  • Aranhas e percevejos predadores 

Esses predadores consomem grandes quantidades de pulgões e contribuem para o equilíbrio natural das populações. 

Fungos entomopatogênicos: agentes microbianos no manejo de pulgões 

Os fungos entomopatogênicos infectam pulgões por meio de esporos (conídios) que aderem à cutícula, germinam, penetram no corpo e colonizam o inseto, levando à morte. Após a morte, o fungo esporula sobre o cadáver, liberando novos esporos para infectar outros pulgões. 

Fungo Situação no Brasil,  Observação 
Beauveria bassiana Produtos registrados para outros alvos, como mosca-branca, cigarrinha-do-milho e ácaro-rajado Ação sobre pulgões demonstrada em pesquisa; uso depende de registro para o alvo 
Cordyceps fumosorosea (antiga Isaria fumosorosea) Produtos registrados para mosca-branca Atua sobre insetos sugadores; uso contra pulgões depende de registro para o alvo 
Akanthomyces (Lecanicillium) spp. Uso comercial em outros países, principalmente em cultivos protegidos Atua sobre pulgões e mosca-branca 
Fungos da ordem Entomophthorales (Pandora neoaphidis) Ocorrência natural Causam epizootias sob alta umidade; produção em larga escala limitada 

Condições favoráveis para fungos entomopatogênicos incluem alta umidade, temperaturas moderadas e baixa radiação UV (ultravioleta). É recomendável aplicar no fim da tarde ou em dias nublados, para reduzir a exposição dos conídios à radiação solar. 

Controle biológico de pulgões do trigo: panorama brasileiro 

Em 1978, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), por meio da Embrapa Trigo, iniciou um programa de controle biológico de pulgões no Sul do Brasil, com a introdução de 14 espécies de parasitoides e 2 de joaninhas predadoras provenientes das regiões de origem da praga.  

Com o estabelecimento desses inimigos naturais, os pulgões deixaram de ser o principal problema fitossanitário do trigo. 

Identificação e monitoramento de pulgões parasitados em campo 

Como reconhecer e contar pulgões parasitados: 

Pulgão mumificado, de cor marrom-dourada e com orifício de saída, sobre folha verde, sinal de parasitismo por vespa
  1. Procurar múmias: pulgões inchados, endurecidos e sem movimento, com aspecto de casca, de cor bege a dourada (parasitoides Aphidiinae) ou preta (parasitoides Aphelinidae). 
  1. Verificar orifícios: múmias com um furo redondo indicam que o parasitoide já saiu. 
  1. Observar fungos: pulgões mortos cobertos por camada de fungo, branca ou colorida, indicam infecção. 
  1. Contar: em cada ponto de amostragem, contar pulgões vivos, múmias e pulgões com fungo. 
  1. Calcular: estimar a proporção de parasitismo e infecção e acompanhar a evolução. 
  1. Decidir: considerar a presença de inimigos naturais junto com o nível de ação antes de aplicar inseticida. 

O monitoramento deve ser realizado desde o início do ciclo da cultura, por meio de inspeções semanais na bordadura e no interior da lavoura. Para os níveis de ação, é recomendável seguir as indicações da Embrapa Trigo e dos órgãos de assistência técnica regionais. 

Integração do controle biológico ao manejo integrado de pragas 

  • Monitorar pulgões e inimigos naturais desde o início do ciclo 
  • Evitar aplicações sem base no monitoramento 
  • Preferir inseticidas seletivos quando o controle químico for necessário 
  • Manter áreas de refúgio e plantas que abriguem inimigos naturais 
  • Usar fungos entomopatogênicos registrados para o alvo, em condições favoráveis de umidade e temperatura, conforme o registro 

Em áreas com alto risco do vírus do nanismo amarelo da cevada, o controle biológico reduz a população de pulgões, mas pode não impedir a transmissão inicial do vírus. Nesses casos, a estratégia deve combinar diferentes táticas de manejo. 

Principais falhas e desafios no controle biológico de pulgões 

  • Aplicar inseticidassem monitorar 
  •  
  • Aplicar agentes biológicos em dias quentes e secosIgnorar o risco de transmissão de vírus na decisão de manejo 
  • Eliminar todas as plantas de refúgio ao redor da lavoura 

Integração do controle biológico: sustentabilidade e produtividade no manejo de gramíneas 

O controle biológico de pulgões em gramíneas, com uso de parasitoides e fungos entomopatogênicos, é uma estratégia sustentável que contribui para a redução do uso de inseticidas e para a preservação do equilíbrio ecológico.  

Monitorar corretamente, reconhecer os sinais de parasitismo e integrar diferentes táticas de manejo são passos essenciais para proteger a produtividade e a qualidade das lavouras. 

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Perguntas frequentes 

1. Como funciona o controle biológico de pulgões? 

O controle biológico de pulgões utiliza parasitoides, como Lysiphlebus e Aphidius; predadores, como joaninhas e larvas de sirfídeos; e fungos entomopatogênicos, que ocorrem naturalmente sobre os pulgões em condições de alta umidade. No trigo, a principal estratégia é a conservação dos inimigos naturais já estabelecidos nas lavouras. Para isso, o manejo combina monitoramento, uso de inseticidas seletivos quando necessário e manutenção de áreas de refúgio. 

2. O que é a múmia de pulgão? 

A múmia é o pulgão morto por um parasitoide. A larva do parasitoide se desenvolve e passa pela fase de pupa dentro do pulgão, que fica inchado, endurecido, imóvel e com aspecto de casca. A cor varia de bege a dourada nos parasitoides da subfamília Aphidiinae e é preta nos da família Aphelinidae. Quando o parasitoide adulto emerge, deixa um pequeno furo redondo na múmia. A presença de múmias indica que o parasitismo já está em curso na lavoura e que outros pulgões, ainda vivos, também podem estar parasitados. 

3. Qual a diferença entre Lysiphlebus e Aphidius? 

Lysiphlebus e Aphidius são gêneros de pequenas vespas da subfamília Aphidiinae que parasitam pulgões. O Lysiphlebus testaceipes é nativo das Américas e ataca grande número de espécies de pulgões, incluindo os de cereais. O gênero Aphidius reúne várias espécies, algumas introduzidas no Brasil pelo programa de controle biológico da Embrapa Trigo, como Aphidius rhopalosiphi. Hoje, espécies desse gênero estão entre os parasitoides mais frequentes de pulgões no trigo. Algumas espécies de Aphidius também são produzidas comercialmente, sobretudo para cultivos protegidos. 

4. Quais fungos entomopatogênicos atuam sobre pulgões? 

Fungos como Beauveria bassiana e Cordyceps fumosorosea apresentam ação sobre pulgões em estudos científicos, mas o uso a campo depende do registro do produto para o alvo, que pode ser consultado no Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários) do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária). 

5. As joaninhas contribuem para o controle de pulgões? 

As joaninhas contribuem para o controle de pulgões, pois adultos e larvas se alimentam desses insetos e ajudam a reduzir suas populações. Entre as espécies comuns em lavouras estão Hippodamia convergens, Cycloneda sanguinea e Eriopis connexa. As larvas são alongadas, escuras e com pernas longas, e podem ser confundidas com pragas. Por isso, reconhecê-las é importante para preservá-las no manejo. 

6. O controle biológico impede a transmissão do vírus do nanismo amarelo da cevada? 

O controle biológico reduz a população de pulgões, mas ode não impedir a transmissão inicial do vírus, pois a transmissão é persistente e pode ocorrer antes que os inimigos naturais reduzam a população. Em regiões e épocas de alto risco, é recomendável combiná-lo com outras táticas, como o tratamento de sementes com inseticidas. 

7. Como preservar os inimigos naturais dos pulgões? 

É recomendável monitorar a lavoura antes de qualquer aplicação, evitar inseticidas de amplo espectro sem necessidade, priorizar produtos seletivos e manter áreas de refúgio ao redor da lavoura. A presença de múmias e de pulgões com fungo também deve ser considerada na decisão de controle.