Enquanto rizobactérias e outros microrganismos benéficos atuam no solo e na superfície das raízes, existe um grupo que vai além: os microrganismos endofíticos colonizam o interior dos tecidos vegetais, estabelecendo uma relação íntima com o hospedeiro  sem causar danos. 

Essa proximidade única com o metabolismo da planta é o que torna os endófitos ferramentas biológicas de alto valor para o manejo agrícola, com potencial impacto no crescimento, na proteção contra patógenos e na tolerância a estresses.

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O que são microrganismos endofíticos

Os microrganismos endofíticos são bactérias e fungos que colonizam e vivem, ao menos parte de seu ciclo de vida, no interior dos tecidos vegetais, como raízes, caules, folhas e sementes,  sem causar danos ou sintomas negativos evidentes ao hospedeiro. 

Essa relação, geralmente simbiótica, pode ser importante para a saúde  e o desenvolvimento das plantas. Representam uma parte crucial do microbioma vegetal e são agentes biológicos promissores para o desenvolvimento de bioinsumos na agricultura moderna.

Diferença entre endófitos e microrganismos da rizosfera

Embora tanto os endófitos quanto os microrganismos da rizosfera sejam benéficos para as plantas, a principal diferença está no local de interação. 

Microrganismos da rizosfera habitam o solo adjacente às raízes e sua superfície, estabelecendo interações externas. Os endofíticos vivem predominantemente dentro dos tecidos vegetais, colonizando o interior das células ou os espaços intercelulares.

Essa colonização interna proporciona interação mais direta com o metabolismo da planta, conferindo-lhes uma vantagem funcional na promoção da defesa e do crescimento vegetal, sem a interferência externa que os microrganismos da rizosfera podem sofrer.

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Como microrganismos endofíticos vivem dentro das plantas

A capacidade dos endofíticos de viver e prosperar dentro dos tecidos das plantas é resultado da longa coevolução entre esses organismos e seus hospedeiros. 

Essa colonização interna é importante  para sua atuação benéfica, pois permite interação direta e constante com o metabolismo da planta.

Processo de colonização dos tecidos vegetais

A colonização dos tecidos vegetais pode ocorrer de diversas formas. A entrada mais comum se dá por aberturas naturais da planta, como estômatos nas folhas, lenticelas nos caules ou ferimentos e ramificações nas raízes. 

Bactérias e fungos endofíticos também podem penetrar tecidos da epiderme radicular ou pelos radiculares, colonizando preferencialmente os espaços intercelulares.

Uma vez dentro, movem-se e se multiplicam nos espaços intercelulares ou dentro das próprias células, estabelecendo-se em diferentes órgãos como raízes, caules, folhas, flores e sementes. Essa colonização sistêmica garante que os benefícios se estendam por toda a planta.

Relação simbiótica com a planta

A relação entre os endofíticos e a planta hospedeira é geralmente simbiótica. A planta oferece aos endófitos um ambiente estável e protegido, além de nutrientes provenientes da fotossíntese, como açúcares e aminoácidos. 

Em troca, os endófitos contribuem com promoção do crescimento,proteção contra patógenos e pragas e aumento da tolerância a estresses ambientais. 

Essa troca de benefícios permite à planta otimizar seu desempenho e resiliência, enquanto os microrganismos garantem sua sobrevivência e dispersão.

Tipos de microrganismos endofíticos e seus principais efeitos nas plantas

Tipo de Microrganismo EndofíticoPrincipais Gêneros (Exemplos)Mecanismos de Ação ComunsPrincipais Efeitos nas Plantas
Bactérias EndofíticasBacillus, Pseudomonas, Azospirillum, EnterobacterFixação de N, solubilização de P, produção de fitormônios, antibiose.Promoção do crescimento, maior absorção de nutrientes, biocontrole de doenças, tolerância a estresses.
Fungos EndofíticosTrichoderma, Beauveria, Metarhizium, PiriformosporaProdução de enzimas, metabólitos secundários, ISR (Indução de Resistência Sistêmica), modulação hormonal.Proteção contra patógenos e pragas, aumento da biomassa, tolerância à seca, salinidade e metais pesados.

Benefícios dos endófitos para o desenvolvimento vegetal

Os microrganismos endofíticos atuam em diversas frentes dentro das plantas, desde a promoção do crescimento até a proteção contra adversidades, tornando-os ferramentas biológicas de alto valor para a agricultura sustentável.

Promoção do crescimento das plantas

A promoção do crescimento é um dos benefícios mais relevantes dos endófitos. Eles produzem fitormônios como auxinas, giberelinas e citocininas, que regulam o alongamento celular, a divisão celular e a diferenciação, resultando em sistema radicular mais robusto, com maior ramificação e pelos radiculares, e desenvolvimento mais vigoroso da parte aérea. 

Alguns endófitos também fixam nitrogênio atmosférico e solubilizam nutrientes como fósforo, tornando-o mais disponível para a planta e otimizando a absorção de nutrientes ao longo do ciclo da cultura.

Imagem em close-up de uma planta de soja com vagens e raízes com bactérias fixadoras de nitrogênio visíveis.

Proteção contra patógenos

Os endófitos são aliados relevantes na defesa da planta contra patógenos. Atuam de forma direta produzindo metabólitos secundários com atividade antimicrobiana, como antibióticos e enzimas líticas que degradam paredes celulares de fungos e bactérias. 

De forma indireta, induzem na planta a Indução de Resistência Sistêmica (ISR), tornando-a mais resistente a uma ampla gama de patógenos.

A colonização interna cria um efeito de proteção biológica que dificulta a entrada e o estabelecimento de agentes causadores de doenças, reduzindo a pressão de patógenos na lavoura.

Tolerância a estresses

Os endófitos podem conferir  à planta maior tolerância a estresses abióticos como seca, salinidade, temperaturas extremas e presença de metais pesados. 

Isso ocorre pela modulação da resposta hormonal ao estresse, pela produção de antioxidantes que reduzem o dano celular e pela alteração da arquitetura radicular para melhorar a absorção de água e nutrientes em condições adversas.

Essa capacidade é especialmente relevante em cenários de mudanças climáticas e solos marginais, onde a resiliência da cultura se torna fator determinante para a produtividade.

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O papel dos microrganismos endofíticos no manejo agrícola

Os endofíticos são considerados ferramentas relevantes no manejo agrícola moderno pela combinação de múltiplos mecanismos de ação e pela natureza biológica que os torna compatíveis com sistemas produtivos mais sustentáveis.

Sua integração ao campo representa um passo concreto em direção a uma agricultura de menor impacto e maior eficiência.

Uso em bioinsumos

Os microrganismos endofíticos são utilizados no desenvolvimento de bioinsumos, incluindo biofertilizantes, bioestimulantes e biodefensivos.Bactérias e fungos endofíticos são formulados em produtos comerciais aplicados via tratamento de sementes, inoculação de solo ou pulverização foliar, com o objetivo de otimizar a nutrição vegetal, promover o crescimento, aumentar a resistência a doenças e melhorar a tolerância a estresses. 

O mercado de bioinsumos tem crescido de forma consistente,  impulsionado pela demanda por soluções biológicas incentivadas pelo Programa Nacional de Bioinsumos do MAPA.

Integração com manejo sustentável

Os endófitos atuam como componentes complementares às práticas de manejo sustentável, contribuindo para a melhoria do desempenho agronômico sem substituir integralmente os métodos convencionais.

Integram-se a programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e Manejo Integrado de Doenças (MID), ajudando a reduzir a dependência de defensivos químicos, diminuir a pressão de seleção para resistência e promover o equilíbrio ecológico. 

Essa abordagem contribui para a saúde do solo, a conservação da biodiversidade e a produção de alimentos mais seguros.

Como os microrganismos endofíticos podem ser utilizados para fortalecer a lavoura

A correta utilização dos endófitos garante que bactérias e fungos colonizem a planta de forma eficaz e proporcionem seus benefícios ao longo do ciclo da cultura. As principais recomendações práticas são:

  • Seleção de produtos de qualidade: opte por bioinsumos com registro no MAPA e comprovação científica de eficácia para a cultura e região de interesse.
  • Tratamento de sementes: via preferencial de introdução de endófitos, garantindo colonização desde os estágios iniciais de germinação e desenvolvimento.
  • Aplicação no solo ou sulco de plantio: promove a colonização via sistema radicular e o estabelecimento sistêmico na planta, sendo indicada quando o contato precoce com raízes é determinante.
  • Pulverização foliar: indicada para endófitos que colonizam a parte aérea, com atenção à cobertura e às condições climáticas no momento da aplicação.
    Condições climáticas adequadas: evite aplicações sob luz solar direta intensa, altas temperaturas e baixa umidade. O final da tarde ou dias nublados favorecem a sobrevivência e a atividade dos endófitos.
  • Compatibilidade com outros insumos: verifique a compatibilidade com defensivos e fertilizantes antes da aplicação conjunta, pois alguns agroquímicos podem comprometer a viabilidade dos microrganismos.
  • Armazenamento correto: siga as instruções do fabricante quanto à temperatura, umidade e proteção contra luz para manter a viabilidade até o momento da aplicação.
  • Monitoramento e avaliação: acompanhe o vigor das plantas, a resistência a doenças e pragas e a produtividade para avaliar a eficácia e ajustar as estratégias quando necessário.
  • Integração com manejo integrado: combine os endófitos com outras práticas culturais e biológicas para maximizar a eficácia e a sustentabilidade do sistema produtivo.

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