A escolha da formulação de bioinsumos é um dos fatores mais críticos para o sucesso do manejo biológico no campo. A estabilidade do ingrediente ativo, a facilidade de uso, a vida de prateleira e o desempenho agronômico dependem diretamente do tipo de formulação adotado.  

Segundo a Embrapa, falhas na escolha ou no preparo da formulação podem comprometer a viabilidade dos microrganismos e a eficácia do controle biológico. 

Com a expansão do uso de bioinsumos em diferentes culturas, compreender as diferenças entre as principais formulações — como WP (pó molhável), SC (suspensão concentrada), WG (grânulos dispersíveis em água), GR (granulado) e EC (concentrado emulsionável) — tornou-se fundamental para técnicos, consultores e produtores. Cada tipo apresenta vantagens e limitações específicas, que impactam desde o armazenamento até a aplicação e a compatibilidade em misturas de tanque. 

Neste artigo, você encontrará um guia técnico completo sobre as formulações de bioinsumos, com orientações práticas para leitura de rótulos, escolha da formulação ideal para cada situação, ordem de mistura e teste de compatibilidade, além de respostas para as dúvidas mais frequentes do campo. 

Ficha rápida 

Item Resumo 
O que é a formulação Forma final do produto, que combina o ingrediente ativo com carreadores e aditivos 
WP e WG Pó molhável e grânulos dispersíveis, usados para esporos de bactérias e conídios de fungos 
SC Suspensão concentrada, comum em produtos à base de Bacillus spp. 
GR Granulado aplicado direto no solo ou no sulco, sem preparo de calda 
EC Concentrado emulsionável, frequente em bioinsumos botânicos, como os à base de óleo de nim, e menos comum em produtos microbianos 

Principais pontos 

  • A formulação influencia a vida de prateleira, a compatibilidade, a exposição do aplicador e o desempenho agronômico. 
  • Solventes orgânicos convencionais podem reduzir a viabilidade de microrganismos; por isso, a formulação EC é menos comum em bioinsumos microbianos e, quando utilizada, pode empregar óleos vegetais como veículo. 
  • Formulações OD (dispersão em óleo) podem reduzir o ressecamento dos conídios e os danos causados pela radiação UV, com proteção variável conforme o óleo e o isolado. 
  • Na calda, a referência geral é adicionar primeiro os condicionadores de calda, depois sólidos dispersíveis, suspensões, emulsões e soluções, com adjuvantes surfactantes e óleos por último, sempre priorizando o rótulo. 
  • O teste em recipiente avalia a compatibilidade física; a compatibilidade biológica deve ser verificada no rótulo e nas tabelas do fabricante. 

O papel da formulação nos bioinsumos 

A formulação de bioinsumos corresponde à forma final em que o produto chega ao usuário, combinando o ingrediente ativo (microrganismo ou extrato botânico) com carreadores e aditivos que protegem, estabilizam e facilitam a aplicação.  

Diferentemente dos defensivos químicos, muitos bioinsumos contêm organismos vivos (esporos, conídios ou células vegetativas) ou partículas virais, que precisam manter a viabilidade ou, no caso dos vírus, a capacidade infectiva até o momento da aplicação. 

A escolha da formulação influencia diretamente a vida de prateleira, a compatibilidade com outros produtos, a exposição do aplicador e o desempenho agronômico.  

As siglas WP, SC, WG, GR e EC seguem o sistema internacional de códigos de formulação da CropLife International e constam no rótulo e na bula dos produtos de controle biológico registrados no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), que podem ser consultados no sistema Agrofit. Inoculantes, como os à base de Bradyrhizobium spp., costumam ser identificados por outras denominações, como turfoso ou líquido. 

Tipos de formulação de bioinsumos: características, vantagens e limitações 

WP: pó molhável 

A formulação WP ( pó molhável, do inglês wettable powder) é composta por um pó fino contendo o ingrediente ativo, carreador inerte e agentes molhantes e dispersantes. É tradicionalmente utilizada para esporos de bactérias e conídios de fungos, como Bacillus spp. e Trichoderma spp.. 

Suas principais vantagens são a boa estabilidade biológica e o custo acessível. Como limitação, destaca-se a geração de poeira durante o preparo, aumentando a exposição do aplicador, além da necessidade de agitação constante para evitar sedimentação. 

SC: suspensão concentrada 

A formulação SC (suspensão concentrada, do inglês suspension concentrate) consiste em partículas sólidas suspensas em um líquido com dispersantes e espessantes. É comum em produtos à base de Bacillus spp. e outros microrganismos formadores de esporos. 

A ausência de poeira durante o preparo da calta e a facilidade de dosagem são vantagens importantes. No entanto, pode ocorrer sedimentação durante o armazenamento, exigindo agitação vigorosa antes do uso. 

WG:grânulos dispersíveis em água 

A formulação WG ( grânulos dispersíveis em água, do inglês water dispersible granules) apresenta o ingrediente ativo em grânulos que se dispersam rapidamente na água, formando uma suspensão homogênea.   

Em comparação com o WP, gera menos poeira no preparo e facilita a medição da dose, sendo utilizada em produtos à base de bactérias e fungos. A limitação está na necessidade de boa agitação para completa dispersão e no processo de fabricação mais complexo. 

GR: granulado 

A formulação GR ( granulado, do inglês granule) ) é composta por grânulos aplicados diretamente no solo ou no sulco de plantio, sem necessidade de preparo de calda. Pode ser empregada em produtos destinados ao solo, como inoculantes de fungos micorrízicos arbusculares e alguns produtos à base de Trichoderma spp.  

Entre as vantagens, destacam-se a liberação gradual do ingrediente ativo e a aplicação localizada. Como limitação, exige equipamento específico para aplicação e maior volume de produto para transporte. 

EC: concentrado emulsionável 

A formulação EC (concentrado emulsionável, do inglês emulsifiable concentrate) é líquida: o ingrediente ativo fica em uma fase oleosa com emulsificantes, que formam uma emulsão leitosa quando diluída em água.  

É frequente em bioinsumos botânicos, como produtos à base de óleo de nim e outros extratos vegetais. Em bioinsumos microbianos, a formulação EC é menos comum, já que solventes orgânicos convencionais podem reduzir a viabilidade de células e conídios.  

Quando utilizada, pode empregar óleos vegetais como veículo, conforme previsto nas especificações de referência do MAPA. Entre as vantagens, destacam-se a boa mistura na calda e a cobertura. Entre as limitações, estão a compatibilidade biológica e a necessidade de limpeza criteriosa do equipamento. 

Outras formulações utilizadas em bioinsumos 

  • OD (dispersão em óleo): partículas, como conídios de fungos, dispersas em fase oleosa, o que pode reduzir o ressecamento e os danos causados pela radiação UV. 
  • FS (suspensão concentrada para tratamento de sementes): : suspensão aquosa destinada ao tratamento de sementes, utilizada em alguns bioinsumos de controle biológico. Inoculantes para sementes, por sua vez, costumam ser comercializados como líquidos com protetores celulares ou turfosos. 
  • DP (pó para polvilhamento): pó para aplicação direta,sem diluição em água, pouco utilizado em bioinsumos atuais. 

Comparativo técnico das formulações de bioinsumos 

Sigla Nome Estado físico Principais vantagens Principais limitações Uso mais comum em bioinsumos 
WP Pó molhável Pó Estabilidade e custo Poeira e agitação constante Esporos de bactérias e conídios de fungos 
SC Suspensão concentrada Líquido Sem poeira e fácil de medir Sedimentação Bactérias formadoras de esporos (Bacillus spp.) 
WG Grânulos dispersíveis em água Grânulo Pouca poeira e fácil de medir Exige boa dispersão Bactérias e fungos 
GR Granulado Grânulo Liberação gradual, aplicação direta Exige aplicador próprio Produtos aplicados no solo, como fungos micorrízicos arbusculares 
EC Concentrado emulsionável Líquido Boa mistura e cobertura Compatibilidade biológica e limpeza do equipamento Extratos botânicos (óleo de nim); em menor escala, produtos microbianos em óleo vegetal 
OD Dispersão em óleo Líquido oleoso Redução do ressecamento e dos danos por UV Compatibilidade e limpeza do equipamento Fungos entomopatogênicos ( Beauveria bassiana, Metarhizium spp.) 

Formulações mais frequentes por categoria de bioinsumo 

Grupo Exemplos Formulações comuns 
Bactérias formadoras de esporos Bacillus spp. SC, WP, WG; em menor escala, EC 
Bactérias que não formam esporos Bradyrhizobium spp., Azospirillum brasilense Inoculantes líquidos (com ou sem protetores celulares) e turfosos 
Fungos de biocontrole Trichoderma spp. WP, WG, SC, EC, formulações oleosas e pó de esporos 
Fungos entomopatogênicos Beauveria bassiana, Metarhizium spp WP e produtos técnicos (conídios não formulados ou em substrato); em menor escala, OD 
Vírus Baculovírus WP e formulações líquidas 
Botânicos Óleo de nim, extratos vegetais EC, outras formulações líquidas 

Parâmetros essenciais para selecionar a formulação mais adequada 

A escolha da formulação deve considerar as características do bioinsumo e as condições de uso na propriedade. Os principais parâmetros são: 

  • Registro e indicação de uso: alvo biológico e, quando aplicável, cultura indicados no rótulo e na bula 
  • Tipo de microrganismo: bactéria formadora ou não de esporos, fungo, vírus ou extrato botânico 
  • Forma de aplicação: via foliar, no sulco de plantio, no tratamento de sementes ou em área total no solo 
  • Equipamento disponível: pulverizador, kit de aplicação no sulco, equipamento de tratamento de sementes ou aplicador de granulados 
  • Mistura na calda: compatibilidade física e biológica com defensivos químicos, fertilizantes e adjuvantes 
  • Armazenamento na fazenda: temperatura exigida no rótulo, necessidade de refrigeração e prazo de validade 
  • Condições no momento da aplicação: radiação solar, temperatura e umidade relativa do ar, que afetam a sobrevivência dos microrganismos 
  • Exposição do aplicador: geração de poeira, presença de solventes e EPI (equipamento de proteção individual) necessário 

Mistura e compatibilidade: etapas críticas para o sucesso dos bioinsumos 

A ordem de mistura dos produtos na calda é fundamental para evitar problemas de sedimentação, separação de fases ou perda de viabilidade dos microrganismos. Como referência geral, a sequência de adição é: 

  1. Condicionadores de calda, compatibilizantes e antiespumantes, quando indicados 
  1. Formulações sólidas dispersíveis (WP, WG), previamente misturadas com um pouco de água 
  1. Suspensões (SC) 
  1. Emulsões (EC) e soluções, como SL (concentrado solúvel) 
  1. Adjuvantes surfactantes e óleos, por último 

A ordem indicada no rótulo e pelo fabricante sempre tem prioridade. Além da compatibilidade física, é essencial verificar a compatibilidade biológica, especialmente ao misturar bioinsumos com defensivos químicos ou fertilizantes. 

Mãos com luvas pretas abrindo a tampa de um tanque azul de pulverizador costal, com filtro à mostra

Como fazer o teste de compatibilidade em recipiente: 

  1. Use um recipiente transparente com a água que será usada na aplicação. 
  1. Adicione os produtos na mesma proporção e ordem previstas para a calda. 
  1. Agite e deixe em repouso. 
  1. Observe se há formação de grumos, separação de fases, espuma excessiva ou sedimentação. 
  1. Se houver alteração, não faça a mistura e consulte o fabricante. 

O teste avalia a compatibilidade física. A compatibilidade biológica deve ser verificada no rótulo e nas tabelas do fabricante. 

Decifrando o rótulo: informações cruciais sobre formulação 

  • Tipo de formulação (sigla), que pode constar no nome comercial e em campo próprio do rótulo 
  • Espécie e isolado (ou estirpe) do microrganismo 
  • Concentração do microrganismo declarada no rótulo, expressa em UFC (unidades formadoras de colônia), conídios ou corpos de oclusão (no caso de vírus) por grama ou mililitro 
  • Condições de armazenamento e validade 
  • Instruções de preparo e ordem de mistura 
  • Informações de compatibilidade 

Principais falhas técnicas no manejo de formulações de bioinsumos 

  • Não agitar a suspensão concentrada antes do uso, quando indicado 
  • Preparar calda sem EPI (Equipamento de Proteção Individual) 
  • Misturar formulações na ordem errada 
  • Não limpar bem o pulverizador e equipamentos 
  • Supor que toda formulação é compatível com qualquer produto 
  • Estratégias para selecionar a formulação mais adequada para cada desafio biológico 

A correta seleção e manejo da formulação de bioinsumos são determinantes para o sucesso do controle biológico e para a sustentabilidade das lavouras.  

A decisão deve considerar o alvo biológico, o modo de aplicação, o equipamento disponível e as recomendações do fabricante. A consulta ao rótulo, a realização do teste de compatibilidade e a atenção à proteção do aplicador e à viabilidade do ingrediente ativo completam o manejo consciente dessas formulações. 

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Perguntas Frequentes 

1. O que significa WP, SC, WG, GR e EC? 

São códigos internacionais de tipos de formulação, definidos pela CropLife International a partir dos nomes em inglês, e constam no rótulo e na bula dos produtos.. WP é pó molhável, SC é suspensão concentrada, WG são grânulos dispersíveis em água, GR é granulado e EC é concentrado emulsionável. 

2. Qual formulação é mais indicada para bioinsumos? 

Não há uma formulação indicada para todos os casos. A escolha depende do microrganismo, da forma de aplicação, do equipamento, da mistura com outros produtos e das condições de armazenamento. Bactérias formadoras de esporos costumam ser formuladas como SC, WP ou WG. Já os fungos entomopatogênicos registrados no Brasil são, em sua maioria, formulados como WP ou comercializados como produtos técnicos (conídios não formulados), e alguns como OD. 

3. Qual a diferença entre WP e WG? 

Ambas são formulações sólidas que formam uma suspensão quando diluídas em água. O WP é um pó fino, que gera mais poeira no preparo da calda. O WG é formado por grânulos que se desfazem na água, o que reduz a poeira e facilita a medição da dose. Em contrapartida, o WG exige boa agitação para a dispersão completa. 

4. Existem bioinsumos microbianos em formulação EC? 

Existem, mas são menos comuns. Solventes orgânicos convencionais podem reduzir a viabilidade de microrganismos vivos, por isso produtos microbianos formulados como EC podem empregar óleos vegetais compatíveis como veículo. A formulação EC é mais frequente em bioinsumos botânicos, como os à base de óleo de nim. Para fungos veiculados em óleo, também é usada a formulação OD. 

5. Qual a ordem de mistura de biológicos na calda? 

Como referência geral, , entram primeiro os condicionadores de calda e compatibilizantes, quando indicados. Em seguida, entram as formulações sólidas dispersíveis (WP e WG), as suspensões (SC), as emulsões (EC) e as soluções (SL) e, por último, os adjuvantes surfactantes e óleos. A ordem indicada no rótulo e pelo fabricante sempre tem prioridade. 

6. Suspensão concentrada precisa ser agitada? 

Sim. As partículas da suspensão concentrada podem sedimentar durante o armazenamento. Por isso, a embalagem deve ser bem agitada antes do uso, até que o conteúdo fique homogêneo, e a agitação do tanque deve ser mantida durante toda a aplicação. Se o sedimento não se desfizer com a agitação, o produto não deve ser utilizado e o fabricante deve ser consultado. 

7. O que é formulação OD? 

OD é a dispersão em óleo, em que partículas, como conídios de fungos, ficam suspensas em óleo. Essa formulação pode reduzir o ressecamento dos conídios e os danos causados pela radiação UV e é utilizada em alguns produtos à base de fungos entomopatogênicos.