No complexo ecossistema de uma lavoura, a atenção do produtor está frequentemente voltada para as pragas que historicamente causam os maiores prejuízos. No entanto, o cenário fitossanitário tem se transformado, e espécies que antes eram consideradas de menor importância econômica estão emergindo como desafios crescentes.

Essas são as chamadas pragas secundárias, e seu aumento de frequência é um sinal de alerta para a agricultura moderna. Entender a dinâmica por trás dessa ascensão é fundamental para qualquer estratégia de manejo eficaz. 

Este artigo aprofunda as razões que levam essas espécies a se tornarem mais relevantes, explorando fatores como mudanças no manejo agrícola, desequilíbrios ecológicos e alterações climáticas, além da importância do monitoramento contínuo e do manejo integrado de pragas para uma proteção proativa da lavoura. 

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O que são pragas secundárias na agricultura 

As pragas secundárias são espécies que, historicamente, não causavam danos econômicos significativos às culturas, seja pela baixa população, pela ação eficaz de inimigos naturais ou por outros fatores limitantes do ambiente. 

Existiam no campo, mas sua presença raramente justificava intervenção de controle. No entanto, por uma série de fatores que alteram o equilíbrio ecológico do agroecossistema, essas espécies podem aumentar em população e passar a causar prejuízos que exigem atenção e manejo específico, migrando do status de observadoras para protagonistas na lista de preocupações do produtor. 

Diferença entre pragas primárias e secundárias 

A distinção entre pragas primárias e secundárias é feita com base na importância econômica e na regularidade com que causam danos. As primárias ocorrem de forma consistente, em praticamente todas as safras, em níveis que causam prejuízos significativos e exigem programa de controle contínuo.  

Exemplos clássicos são a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e o percevejo-marrom (Euschistus heros). As secundárias, em condições normais, não atingem o nível de dano econômico, mas podem ter explosão populacional sob condições específicas, tornando-se, temporária ou persistentemente, um problema relevante para a sanidade da lavoura. 

Como uma praga se torna economicamente relevante 

Uma praga se torna economicamente relevante quando sua população atinge o Nível de Dano Econômico (NDE), momento em que o custo do dano causado iguala ou supera o custo do controle. 

Para uma praga secundária, esse salto de status ocorre geralmente por desequilíbrio no agroecossistema: eliminação de inimigos naturais por aplicações de defensivos de amplo espectro, adoção de novas práticas de manejo que a favorecem ou alterações climáticas que aceleram seu desenvolvimento. 

O ambiente muda, e a espécie antes inofensiva encontra condições para proliferar sem restrições. 

Por que pragas secundárias estão se tornando mais frequentes 

A crescente frequência das pragas secundárias nas lavouras brasileiras não é um fenômeno isolado, mas resultado de uma complexa teia de interações e modificações no ambiente agrícola. 

A intensificação da produção, as escolhas de manejo fitossanitário e as mudanças climáticas têm criado um novo cenário, no qual espécies antes controladas naturalmente encontram nichos para proliferar e causar prejuízos. 

Entender essas causas é crucial para desenvolver estratégias de manejo integrado mais robustas e preventivas. 

Mudanças no manejo agrícola 

 As transformações no manejo agrícola são um dos principais vetores para o aumento de pragas secundárias. A monocultura extensiva, a redução da diversidade de culturas na paisagem e o uso indiscriminado de defensivos de amplo espectro são fatores determinantes. 

aplicação frequente de inseticidas, embora vise controlar as pragas primárias, elimina também os inimigos naturais das pragas secundárias.  

Com a ausência de seus controladores biológicos, essas espécies encontram um ambiente livre de pressões e podem ter surto populacional, tornando-se uma ameaça concreta à sanidade da lavoura. 

Alterações no equilíbrio ecológico 

A alteração do equilíbrio ecológico é uma consequência direta das mudanças no manejo e da introdução de novas tecnologias. O ambiente de uma lavoura é um sistema dinâmico, onde pragas, inimigos naturais, plantas hospedeiras e microrganismos interagem constantemente. 

Quando esse equilíbrio é perturbado, seja pela eliminação de um predador natural chave ou pela adoção de uma cultivar que serve como novo alimento para uma espécie antes irrelevante, as pragas secundárias se beneficiam. 

Essa interrupção da teia alimentar e das relações de controle natural é um dos caminhos mais comuns para que uma espécie antes de pouca importância passe a causar impacto econômico significativo. 

Influência das condições climáticas 

As condições climáticas também desempenham papel crescente no surgimento de pragas secundárias. Variações na temperatura, umidade e padrões de chuva podem favorecer o ciclo de vida de algumas espécies, acelerando seu desenvolvimento e aumentando o número de gerações por ano.  

Ao mesmo tempo, essas variações podem prejudicar o desenvolvimento de seus inimigos naturais, desequilibrando ainda mais a balança. Invernos mais amenos, por exemplo, podem permitir a sobrevivência de maior número de indivíduos de uma praga secundária, que se desenvolverão mais cedo na safra seguinte.  

Esses fatores climáticos, aliados às mudanças no manejo, criam um ambiente propício para que espécies antes inofensivas se tornem problemas sérios de controle. 

Exemplos de pragas secundárias que passaram a causar danos relevantes em diferentes culturas 

 O fenômeno do surgimento de pragas secundárias é observado em diversas culturas e regiões do Brasil. A tabela a seguir apresenta alguns exemplos de espécies que deixaram de ser coadjuvantes e passaram a se tornar protagonistas nas estratégias de manejo fitossanitário. 

Praga Secundária Nome Científico Culturas Atingidas Principais Fatores Contribuintes 
Mosca-branca Bemisia tabaci biótipo B Soja, feijão, algodão, hortaliças Uso excessivo de piretroides, eliminação de inimigos naturais, cultivos sucessivos, mudanças climáticas, biótipos mais agressivos 
Lagarta-elasmo Elasmopalpus lignosellus Milho, soja, arroz, cana-de-açúcar Plantio direto com palhada, prolongamento do período seco, eliminação de inimigos naturais, monocultivo 
Ácaro-rajado Tetranychus urticae Soja, algodão, feijão, morango Inseticidas de amplo espectro (eliminam predadores de ácaros), seca e calor, ausência de rotação de culturas 
Tripes Frankliniella schultzei Soja, algodão, alho, cebola, feijão Inseticidas de largo espectro, estresse hídrico, aumento das temperaturas, cultivares suscetíveis 
Cigarrinha-do-milho Dalbulus maidis Milho Cultivo de milho safrinha, ausência de vazio sanitário, sobrevivência em milho voluntário, expansão de áreas 

Informações baseadas em observações de campo e literatura agronômica, sujeitas a variações regionais e de manejo. 

Impactos das pragas secundárias na produtividade das lavouras 

A emergência e a maior frequência de pragas secundárias representam um desafio significativo para a produtividade.  

O que antes era uma preocupação menor pode se transformar em fator limitante, causando perdas diretas na produção e elevando os custos de controle.  

 A complexidade aumenta porque o produtor e o agrônomo precisam lidar com um espectro mais amplo de ameaças, muitas das quais demandam abordagens específicas e conhecimento aprofundado de sua biologia e ecologia. 

Danos diretos às plantas 

Os danos diretos causados pelas pragas secundárias são variados e podem ser severos.  

Incluem redução da área foliar por desfolha, como no caso das lagartas, sucção de seiva que enfraquece a planta, como mosca-brancatripes e ácaros, transmissão de doenças viróticas, como mosca-branca e cigarrinhas, e ataque a estruturas reprodutivas como flores, vagens e grãos, comprometendo diretamente o rendimento.  

Em muitos casos, os sintomas iniciais podem ser confundidos com deficiências nutricionais ou outros problemas, atrasando o diagnóstico e a intervenção. 

Dificuldade no manejo fitossanitário 

O surgimento de pragas secundárias adiciona camadas de dificuldade ao manejo fitossanitário. Muitas dessas espécies têm seus inimigos naturais eliminados por aplicações destinadas às pragas primárias, tornando o controle biológico ineficaz. 

Pode faltar experiência sobre a biologia e o comportamento dessas pragas, dificultando a definição do momento e da estratégia de controle mais adequados. 

Além disso, o uso contínuo dos mesmos grupos químicos para combater pragas primárias e secundárias pode levar ao desenvolvimento de resistência, criando um problema ainda maior a longo prazo. 

Esses fatores reforçam a necessidade de um manejo integrado de pragas bem estruturado. 

Importância do monitoramento para identificar novas pragas 

Diante da crescente pressão de pragas secundárias, o monitoramento deixa de ser opcional e passa a ser a base do manejo integrado eficiente. Trata-se de uma vigilância proativa que permite detecção precoce, decisões rápidas e controle antes que a infestação atinja o nível de dano econômico. 

Monitoramento da lavoura 

  • Deve ser realizado de forma rotineira e sistemática por profissionais treinados ou produtores com conhecimento técnico. 
  • Inclui inspeção visual das plantas em diferentes estádios de desenvolvimento. 
  • Uso de armadilhas luminosas, adesivas e de feromônio para capturar e identificar insetos-praga. 
  • Contagem de indivíduos para estimar a população e sua tendência. 
  • Coleta de dados deve ser georreferenciada para identificar focos de infestação e variabilidade espacial da lavoura. 
  • Um monitoramento bem-feito permite identificar pragas secundárias antes que atinjam o NDE e causem prejuízos irreversíveis. 

Identificação precoce de infestação 

  • Quanto mais cedo uma praga secundária é detectada, maiores as chances de sucesso do controle e menores os impactos na produtividade. 
  • A intervenção precoce permite atuação mais localizada, com menor dose de defensivo e menor impacto sobre inimigos naturais. 
  • Permite escolher a estratégia mais adequada — biológica, cultural ou química — antes que a praga se estabeleça e prolifere. 
  • Transforma o monitoramento em ferramenta estratégica para a sustentabilidade e a rentabilidade do sistema produtivo. 

Como o manejo integrado de pragas ajuda a reduzir o impacto das pragas secundárias 

manejo integrado de pragas (MIP) é a abordagem mais eficaz para lidar com pragas secundárias, combinando estratégias que mantêm as populações abaixo do nível de dano econômico, preservam o equilíbrio biológico e minimizam o impacto ambiental. 

Para reduzir o risco de surtos, algumas práticas são essenciais: monitoramento constante para identificar espécies e níveis populacionais precocemente; priorização do controle biológico por meio da preservação de inimigos naturais; adoção de práticas culturais como rotação de culturas, cultivares resistentes e vazio sanitário; uso racional de defensivos, aplicados apenas quando o nível de controle for atingido, com preferência por produtos seletivos; e diversificação dos modos de ação para evitar resistência. 

Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

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