A acidez do solo é um desafio recorrente na agricultura brasileira, especialmente em regiões de solos altamente intemperizados como os do Cerrado. Esta condição limita consideravelmente a produtividade das culturas, restringindo o desenvolvimento radicular e a disponibilidade de nutrientes às plantas. A calagem e a gessagem são as práticas fundamentais para corrigir o pH e criar um ambiente favorável para que as culturas expressem seu potencial produtivo. 

Em solos com pH abaixo de 5,5 (determinado em CaCl₂), há aumento da acidez, associado principalmente à presença de íons H⁺ e, em menor proporção, à elevação do alumínio trocável (Al³⁺), que pode atingir níveis tóxicos e prejudicar o crescimento radicular.  

Para a maioria das culturas anuais cultivadas no Brasil, a faixa de pH entre 5,5 e 6,5 (em CaCl₂ 0,01 M) é considerada a mais favorável, conforme referências da Embrapa, pois reduz a toxicidade de Al³⁺ e melhora a disponibilidade de nutrientes. 

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O que é solo ácido e por que isso compromete a produtividade 

A acidez do solo é uma condição comum em diversas regiões agrícolas do Brasil e pode limitar significativamente o desempenho das culturas.

Entender o que caracteriza um solo ácido e como essa condição afeta a dinâmica dos nutrientes é essencial para direcionar práticas de manejo mais eficientes — especialmente no que diz respeito ao pH e sua influência direta na disponibilidade nutricional.

Como o pH influencia a disponibilidade de nutrientes no solo 

A acidez do solo impacta diretamente a disponibilidade de nutrientes às plantas. Em solos ácidos, o fósforo (P) fica fixado nos coloides do solo, devido sua afinidade com os óxidos e hidróxidos de alumínio e ferro,  tornando-se indisponível mesmo após a adubação fosfatada. Além disso: 

  • A mineralização do nitrogênio (N) é reduzida e a atividade microbiana responsável pela ciclagem de nutrientes é inibida 
  • Cálcio (Ca) e magnésio (Mg) tornam-se menos disponíveis em pH baixo devido o aumento na taxa de lixiviação 
  • A toxicidade por alumínio, Hidrogênio e manganês aumenta, comprometendo o crescimento radicular 

A correção da acidez é, portanto, o pré-requisito fundamental para que qualquer programa de adubação e fertilização alcance sua máxima eficiência. 

Quais culturas são mais sensíveis à acidez do solo 

Culturas como soja, milho e feijão são espécies com baixa tolerância à acidez e altamente suscetíveis aos efeitos do alumínio trocável. A limitação do sistema radicular nessas condições pode reduzir drasticamente a absorção de água e nutrientes, comprometendo a produtividade. Por outro lado, algumas gramíneas tropicais, como a braquiária, apresentam maior tolerância à acidez do solo; ainda assim, mesmo essas espécies respondem positivamente à calagem, o que evidencia que a correção da acidez é benéfica para a maioria dos sistemas produtivos. 

Como fazer a análise de solo e interpretar os resultados 

A análise de solo é o ponto de partida obrigatório em programas de manejo de adubação e da correção da acidez. Realizá-la periodicamente, em intervalos de dois a três anos, a depender da cultura implantada, permite monitorar os víveis de fertilidade e planejar intervenções mais efetivas , como destacam os guias do Mais Agro sobre solos

Como coletar amostras de solo corretamente 

A acurácia da análise depende diretamente da qualidade da amostragem: 

  • Padrão zigue-zague: coleta em zigue-zague para assegurar a representatividade da área ou talhão 
  • Profundidades: 0 a 20 cm para a camada arável (calagem); 20 a 40 cm para a subsuperfície (gessagem) 
  • Glebas homogêneas: áreas com características topográficas, histórico de cultivo, manchas de dolo e manejo semelhantes, não excedendo 20 hectares 
  • Evitar locais como beira de estradas, adubação orgânica, cupinzeiros ou antigas construções; usar equipamentos limpos 

O que observar no laudo de análise de solo 

Os principais parâmetros a serem observados no laudo: 

  • pH (em CaCl2 ou H2O): faixa ideal de 5,5 a 6,5 para a maioria das culturas de grãos 
  • Saturação por bases (V%): recomendado entre 50 e 70% para a maioria das culturas de grãos, conforme recomendações da Embrapa e do Boletim 100 IAC 
  • Saturação por alumínio (m%): valores elevados indicam toxicidade e exigem atenção; acima de 20% na camada de 20 a 40 cm indica necessidade de gessagem 
  • Teores de Ca2+ e Mg2+importantes para determinar a necessidade de fornecimento desses nutrientes; teor de Ca2+ abaixo de 0,5 cmolc/dm3 em subsuperfície indica necessidade de gessagem 

O que é calagem e como fazer a aplicação de calcário no solo 

calagem é a prática agronômica mais difundida para a correção de pH do solo geralmente na camada arável de 0 a 20 cm de profundidade. Ela consiste na aplicação de corretivos de acidez, principalmente os calcários agrícolas, com o objetivo de elevar o pH do solo, neutralizar o alumínio tóxico, os átomos de H+ e fornecer cálcio e magnésio. O efeito residual dura, em média, de 3 a 5 anos. 

Como calcular a quantidade de calcário a aplicar 

O cálculo da Necessidade de Calagem (NC) é uma etapa crítica para a eficiência da correção. O método da saturação por bases (V%) é o mais amplamente utilizado, com a fórmula: 

NC = CTC x (V2 – V1) / 100, onde: 

  • NC: necessidade de calagem em toneladas por hectare (t/ha) 
  • CTC: Capacidade de Troca Catiônica do solo (em cmolc/dm3
  • V2: saturação por bases desejada para a cultura (%) 
  • V1: saturação por bases atual do solo (%), obtida na análise 

O que é PRNT e como ele afeta a dose de calcário 

O PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total) mede a eficiência de um corretivo, considerando tanto a pureza (valor neutralizante) quanto a granulometria. Quanto maior o PRNT, menor a quantidade necessária para atingir a correção desejada. 

Dose Corrigida = NC / (PRNT / 100). Calcários com PRNT acima de 75% são preferíveis, pois apresentam maior velocidade de reação. 

Quando fazer a calagem: época e forma de aplicação 

A aplicação na pré-safra, com antecedência ao menos de 60 a 90 dias antes do plantio, é o padrão recomendado. Em cultivo convencional, a incorporação por meio de gradagem ou aração é a forma mais eficaz. Para o plantio direto consolidado, a calagem superficial a lanço sem incorporação é a prática comum, dependendo da umidade do solo e das chuvas para que o calcário solubilize e realize as reações de neutralização.  

O prazo mínimo de reação varia conforme a cultura: gramíneas tropicais exigem ao menos 3 meses; leguminosas podem precisar de até 6 meses para que os benefícios sejam plenamente observados, conforme orientações da Embrapa. 

Tipos de calcário agrícola: calcítico, magnesiano e dolomítico 

Os tipos de calcário agrícola são classificados pelo teor de óxido de magnésio (MgO) em sua composição: 

  • Calcítico: menos de 5% de MgO; indicado para solos com boa disponibilidade de magnésio que necessitam de correção de pH e adição de cálcio 
  • Magnesiano: entre 5% e 12% de MgO; boa opção para solos com deficiência moderada de magnésio 
  • Dolomítico: mais de 12% de MgO; rico em cálcio e magnésio; indicado para solos deficientes em magnésio, condição comum em muitas áreas agrícolas brasileiras, sendo um dos mais utilizados no Brasil 

A escolha deve sempre considerar o teor de magnésio no laudo de solo, conforme classificação da Embrapa e da ABNT. 

Tipos de calcário agrícola: composição e indicações 

Tipo Teor de MgO Composição principal Indicação 
Calcítico < 5% Predominante em CaO (cálcio) Solos com boa disponibilidade de Mg; necessidade de correção de pH e Ca 
Magnesiano 5% a 12% Balanço entre Ca e Mg Solos com deficiência moderada de Mg 
Dolomítico > 12% Rico em Ca e Mg (CaCO3 + MgCO3) Solos deficientes em Mg; condição comum em solos tropicais brasileiros 

Veja também: Conservação do solo: 10 técnicas para produção sustentável 

O que é gessagem agrícola e quando ela é necessária 

gessagem agrícola é uma prática de condicionamento do solo, complementar à calagem, com foco distinto e fundamental para o manejo da acidez em profundidade. Enquanto a calagem atua na camada arável (0 a 20 cm) elevando o pH, a gessagem condiciona o ambiente radicular em subsuperfície (20 a 40 cm ou mais) sem alterar significativamente o pH devido sua mobilidade no perfil do solo. O gesso agrícola (CaSO4·2H2O) fornece cálcio e enxofre em profundidade e reduz a saturação por alumínio nessas camadas, favorecendo o aprofundamento do sistema radicular. 

Quando a análise indica necessidade de gessagem 

A necessidade da gessagem é determinada por critérios técnicos avaliados na análise de solo da camada subsuperficial (20 a 40 cm). Os principais indicadores são: 

  • Saturação por alumínio (m%) acima de 20% na camada de 20 a 40 cm, que aponta para níveis tóxicos de Al3+ em profundidade 
  • Teor de Ca2+ abaixo de 0,5 cmolc/dm3 nessa mesma camada, indicando deficiência de nutriente crucial para o desenvolvimento radicular 
  • Sistema radicular superficial da cultura mesmo após a calagem bem conduzida na camada arável, sugerindo barreira química em profundidade 

Diferença entre calagem e gessagem: resumo técnico 

Embora complementares, calagem e gessagem possuem objetivos e mecanismos de ação distintos. Como destaca o Mais Agro: em sistemas bem manejados, a calagem prepara a superfície, enquanto a gessagem corrige as limitações em profundidade, promovendo um perfil de solo mais equilibrado e produtivo. 

Calagem x gessagem: comparativo técnico 

Característica Calagem Gessagem 
Corretivo Calcário agrícola (CaCO3, MgCO3) Gesso agrícola (CaSO4.2H2O) 
Camada de atuação Superficial (0 a 20 cm) Subsuperficial (20 a 40 cm ou mais) 
Efeito no pH Eleva o pH do solo Neutraliza o Al em profundidade  
Mecanismo Neutraliza H+ e Al3+; fornece Ca2+ e Mg2+ Forma complexos de sulfato de alumínio; fornece Ca2+ e SO4 em profundidade 
Efeito residual 3 a 5 anos Até 5 anos 
Relação entre si Pratica principal de correção Pratica complementar a calagem 

Como integrar calagem, gessagem e adubação em um plano de manejo 

A correção do solo ácido não deve ser vista como um evento isolado, mas como parte integrante de um plano de manejo da fertilidade do solo. A calagem, ao elevar o pH e neutralizar o alumínio, cria um ambiente onde os nutrientes presentes nos fertilizantes são utilizados de forma muito mais eficiente pelas plantas. Isso é especialmente verdadeiro para os fertilizantes fosfatados: a redução da acidez minimiza a fixação do fósforo nos coloides do solo, aumentando sua disponibilidade.A faixa de pH ideal para o fósforo está entre 5,5 e 6,5, fora dessas faixas ele se torna imóvel, devido sua capacidade de adsorção com minerais da fração argila. 

Em áreas novas ou degradadas, a fosfatagem corretiva pode ser integrada ao mesmo plano de manejo, potencializando a formação de um ambiente fértil desde o início. A sinergia entre calagem, gessagem e adubação é a chave para maximizar a produtividade e a rentabilidade da lavoura — base do manejo sustentável das culturas

Frequência de monitoramento e repetição da calagem 

O efeito benéfico da calagem dura, em média, de 3 a 5 anos; o da gessagem pode persistir por até 5 anos. No entanto, essas estimativas variam conforme o tipo de solo, a intensidade de cultivo, a pluviometria e as características do corretivo. Por isso, análises de solo periódicas, realizadas a cada 2 a 3 anos, são indispensáveis para monitorar a evolução do pH, o índice de saturação por bases, a CTC, os teores de cálcio e magnésio e a necessidade de repetição da calagem ou gessagem. 

saúde do solo depende desse monitoramento contínuo, que é a base para um manejo proativo e eficiente da fertilidade, assegurando que as condições químicas permaneçam ótimas para o desenvolvimento das culturas. 

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