A soja brasileira consolidou de vez o posto de principal fonte de proteína vegetal da China em 2026, com o país asiático ampliando as importações do Brasil e mantendo em ritmo lento a retomada das compras norte-americanas, mesmo após a trégua comercial fechada no fim de 2025. O movimento reforça uma tendência que vem se acelerando desde a guerra tarifária de 2018 e que, agora, ganha contornos estruturais.
Segundo dados da Administração Geral de Alfândega chinesa, as importações vindas do Brasil saltaram 82,7% no primeiro bimestre deste ano, somando 6,56 milhões de toneladas, ante uma queda de 83,7% nos embarques originados nos Estados Unidos no mesmo período. Em junho, a China bateu recorde histórico ao importar 13,55 milhões de toneladas de soja, alta de 10,5% em relação a igual mês de 2025, com forte concentração no produto brasileiro.
China responde por 70% dos embarques do Brasil em 2026
Levantamento da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) mostra que, entre janeiro e maio, a China absorveu 70% de todo o volume de soja exportado pelo Brasil. Os embarques totais do país no primeiro semestre alcançaram 73,95 milhões de toneladas, superando o desempenho observado no mesmo período do ano passado.
Entre os fatores que sustentam esse protagonismo estão:
- Preço mais competitivo do produto brasileiro em relação ao americano, mesmo após ajustes cambiais.
- Safra recorde estimada em 178,9 milhões de toneladas pela StoneX no ciclo 2025/26.
- Antecipação de compras chinesas da safra 2026/27, com mais de 9 milhões de toneladas já garantidas exclusivamente no Brasil.
- Tarifa total de 34% ainda incidente sobre a soja dos EUA, incluindo imposto de valor agregado.
Estados Unidos ainda pagam a conta do tarifaço
Apesar da retomada parcial das compras chinesas após a trégua de outubro de 2025, quando a estatal Cofco adquiriu cerca de 12 milhões de toneladas de soja americana, o ritmo segue aquém do histórico. Relatório da American Farm Bureau Federation projeta que as exportações agrícolas dos EUA para a China devem cair para US$ 9 bilhões em 2026, o menor patamar desde o início da guerra comercial.
O adiamento do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, anunciado em março, adicionou nova camada de incerteza ao setor e limitou o potencial de recuperação dos preços em Chicago.
Argentina avança como coadjuvante
Outro efeito colateral do rearranjo é o crescimento das compras chinesas de origem argentina. As importações do país vizinho subiram para 3,27 milhões de toneladas no primeiro bimestre de 2026, contra apenas 111,6 mil toneladas em igual período do ano anterior. O movimento foi turbinado pela suspensão temporária das retenciones em setembro de 2025, que aqueceu as vendas externas.
Perspectivas para o segundo semestre
Analistas ouvidos pelo mercado avaliam que a projeção do USDA de 114 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil em 2026 é factível, desde que sejam superadas duas variáveis:
- A negociação de requisitos fitossanitários entre Brasil e China, tema que voltou à mesa após declarações do ministro Carlos Fávaro em março.
- Eventuais gargalos logísticos nos portos brasileiros, especialmente no pico de exportação do farelo, que já soma 12,88 milhões de toneladas embarcadas neste ano.
Enquanto isso, produtores americanos seguem estocando grãos na expectativa de melhores preços, com o custo de produção estimado em US$ 12,05 por bushel superando as cotações praticadas em Chicago.


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