A degradação de pastagens é um dos principais desafios da pecuária brasileira, afetando diretamente a produtividade animal e a rentabilidade do sistema. Segundo a Embrapa, cerca de 60% das áreas de pastagem no Brasil apresentam algum nível de degradação, com impacto significativo na capacidade de suporte e na qualidade da forragem disponível. 

A braquiária, pertencente ao gênero Urochloa, domina as pastagens  brasileiras devido à sua adaptabilidade e produtividade, dentre outros benefícios . A escolha correta da espécie e o manejo adequado são determinantes para evitar a degradação precoce e preservar o potencial produtivo de cada área. 

Neste conteúdo, serão detalhados os principais tipos de braquiária cultivados no Brasil, suas diferenças agronômicas, os benefícios no sistema produtivo e as práticas de manejo essenciais para a formação e manutenção das pastagens. 

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Fatores que sustentam a liderança da braquiária nas pastagens do Brasil 

A ampla adoção da braquiária nas pastagens tbrasileiras se deve a três fatores principais: 

  • Adaptação ao solo e ao clima tropical: a maioria das espécies apresenta elevada tolerância à acidez, ao alumínio tóxico e à seca, características comuns aos solos do Cerrado e de outras regiões tropicais. 
  • Produtividade e custo-benefício: capacidade de produção de forragem em grande volume com baixo custo de implantação em relação a outras gramíneas forrageiras. 
  • Versatilidade: além da pastagem para bovinos, a braquiária é amplamente utilizada como cobertura de solo no Sistema de Plantio Direto (SPD),contribuindo para a produção de palhada e a conservação do solo. 
Pastagem de braquiária verde e densa sob céu nublado e carregado."
Pastagem de braquiária verde e densa sob céu nublado e carregado.”

Variedades de braquiária: comparativo técnico e aplicações recomendadas 

O gênero Urochloa (anteriormente Brachiaria) reúne diversas espécies adaptadas às condições tropicais. As principais diferenças entre as espécies mais cultivadas no Brasil estão resumidas na tabela a seguir: 

Espécie Solo indicado Uso principal  Tolerância à cigarrinha¹ 
U. brizantha  Média a alta fertilidade; bem drenado  Pastejo, palhada, SPD  Alta² 
U. decumbens  Baixa fertilidade; ácido, bem drenado Pastejo Baixa 
U. ruziziensis  Média fertilidade; bem drenado Palhada,  SPD Baixa 
U. humidicola  Baixa fertilidade; tolerante a alagamento Pastejo  Tolerante³ 

¹ Referente a cigarrinhas típicas de pastagem (Deois spp., Notozulia spp.). 
² Suscetível a cigarrinhas do gênero Mahanarva
³ Funciona como reservatório de ninfas; pode favorecer infestação em pastagens vizinhas. 

Urochloa brizantha 

 Espécie adaptada a solos de média a alta fertilidade e bem drenados. Destaca-se pela alta produtividade de massa de forragem e pela tolerância às cigarrinhas típicas de pastagem. É a mais utilizada em sistemas de pastejo e de plantio direto, com palhada de decomposição mais lenta que contribui para cobertura prolongada do solo. Apresenta suscetibilidade a cigarrinhas do gênero Mahanarva

Urochloa decumbens 

 Espécie adaptada a solos ácidos e de baixa fertilidade, com hábito de crescimento decumbente. Destaca-se pela capacidade de estabelecimento em áreas onde o custo de correção do solo é limitante. É indicada exclusivamente para pastejo. Apresenta baixa tolerância à cigarrinha-das-pastagens. 

Urochloa ruziziensis 

 Espécie adaptada a solos de média fertilidade e bem drenados. Destaca-se pela qualidade nutricional da forragem e pela decomposição rápida da palhada. É a mais indicada para sistema de plantio direto. Apresenta baixa tolerância à cigarrinha-das-pastagens. 

Urochloa humidicola 

 Espécie adaptada a solos de baixa fertilidade e tolerante a alagamento. Destaca-se como a opção mais adequada para áreas de várzea ou com drenagem deficiente. É indicada exclusivamente para pastejo. Apresenta tolerância intermediária à cigarrinha, porém pode funcionar como reservatório de ninfas, favorecendo infestação em pastagens vizinhas. 

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Passo a passo técnico para o sucesso na implantação de pastagens com braquiária 

O sucesso da formação de pastagens com braquiária depende de práticas agronômicas adequadas desde o preparo do solo até a primeira entrada dos animais. 

 As etapas essenciais são: 

  • Correção do solo: realizar calagem e gessagem conforme análise de solo, visandocorrigir a acidez superficial, reduzir a toxidez por alumínio em subsuperfície e fornecer cálcio e enxofre para o estabelecimento inicial. 
  • Época de semeadura: o início das chuvas é o momento ideal para a semeadura, uma vez que a umidade é essencial para a germinação e o estabelecimento da forrageira. 
  • Taxa de semeadura e profundidade: semear de 4 a 8 kg de sementes puras viáveis por hectare, a uma profundidade de 2 a 5 cm, conforme a espécie e o tipo de solo. 
  • Adubação de estabelecimento: a aplicação de fósforo e potássio na semeadura favorece o enraizamento e o arranque inicial da forrageira. A adubação nitrogenada em cobertura, após o estabelecimento da forrageira, complementa a nutrição e acelera a formação do dossel. 

Práticas de manejo que previnem a degradação e prolongam a vida útil do pasto 

 A degradação de pastagens de braquiária está diretamente relacionada ao manejo inadequado, especialmente à falta de controle dos períodos de ocupação e descanso e à ausência de adubação de manutenção. As principais práticas preventivas são: 

  • Pastejo rotacionado: adotar o sistema rotacionado, com períodos de descanso e lotação controlada, permite a recuperação das plantas entre pastejos e mantém a produtividade ao longo dos anos. 
  • Adubação de manutenção: a reposição regular de nutrientes é fundamental para sustentar a produtividade da pastagem e prevenir a degradação gradual. 
  • Altura de entrada e saída: respeitar a altura ideal de entrada e saída  do pastejo para cada espécie, para uma recuperação adequada da forrageira. 
  • Monitoramento de sinais de degradação: a presença de plantas invasoras, redução da cobertura vegetal e manchas de solo exposto são sinais precoces que exigem intervenção imediata. 

Segundo a Embrapa Gado de Corte, a adoção dessas práticas reduz significativamente o risco de degradação e prolonga a vida útil das pastagens. 

Braquiária como aliada do plantio direto e cobertura de solo 

A braquiária desempenha papel estratégico no plantio direto. Três aspectos são especialmente relevantes: 

  • Fornecimento de palhada: a produção de massa seca pela braquiária protege o solo, reduz a erosão e contribui para o aumento da matéria orgânica ao longo das safras. 
  • Urochloa ruziziensis no SPD: devido à rápida decomposição e à qualidade da palhada, essa espécie é a mais indicada para anteceder o plantio de lavouras anuais em sistema de plantio direto. 
  • Manejo de dessecação: o momento correto da dessecação da braquiária é fundamental para promover a uniformidade da palhada e não comprometer o estabelecimento da cultura subsequente. 

Braquiária, manejo e sustentabilidade: os pilares de pastagens produtivas e duradouras 

A seleção criteriosa da espécie de braquiária, aliada ao manejo correto e à adubação de manutenção, é decisiva para evitar a degradação precoce e elevar o retorno econômico da atividade pecuária. Não existe uma espécie universalmente superior: cada ambiente e objetivo produtivo tem a espécie mais adequada. 

O uso estratégico da braquiária em sistemas de plantio direto, especialmente com U. ruziziensis para produção de palhada de qualidade, amplia o valor da forrageira para além da pastagem e posiciona o produtor para aproveitar todos os benefícios dessa forrageira. 

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