As ondas de calor têm se intensificado nas lavouras brasileiras, causando estresse térmico, queda de produtividade e aumento dos riscos climáticos no campo. Entenda como o calor extremo afeta as plantas e quais estratégias ajudam a proteger a produção.
As ondas de calor têm se tornado uma preocupação crescente no agronegócio, já que prejudicam as lavouras com altas temperaturas, afetando o desenvolvimento e a produtividade das plantas. Para produtores que buscam garantir a continuidade da produção, a chave está em tomar medidas preventivas e saber como reagir diante do estresse térmico. A boa notícia é que, com as estratégias certas, é possível aumentar a resiliência das plantas e garantir a sustentabilidade da sua propriedade, mesmo diante dos extremos climáticos.
Neste artigo, vamos explorar como as ondas de calor impactam as lavouras, os sinais de estresse térmico que você deve observar e, principalmente, as melhores práticas de manejo para proteger sua produção.
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Problemas derivados das ondas de calor nas lavouras brasileiras
As ondas de calor nas lavoura do Brasil têm se intensificado nas últimas décadas, gerando um mosaico de problemas que afetam desde o desenvolvimento das plantas até a macroeconomia do setor. As altas temperaturas e a radiação solar incidente, muitas vezes acompanhadas de baixa umidade do ar, criam um ambiente de estresse severo, comprometendo a fisiologia das plantas e os sistemas produtivos.
O estudo “Vulnerabilidades, impactos e adaptação à mudança do clima no setor agropecuário e solos agrícolas”, da Embrapa, já alertava para a necessidade de adaptação da agricultura brasileira diante da elevação das temperaturas e das frequentes ondas de calor. Esse cenário exige uma reavaliação constante das estratégias e uma busca ativa por soluções adaptativas.
Redução de produtividade das culturas
A redução de produtividade das culturas é uma das consequências diretas e impactantes das ondas de calor na lavoura. O calor extremo acelera o ciclo de vida das plantas, diminuindo o tempo disponível para o enchimento de grãos e frutos, resultando em organismos menores e de menor peso.
Além disso, a polinização é severamente prejudicada; altas temperaturas podem inviabilizar o grão de pólen e o óvulo, resultando em falhas de fecundação e, consequentemente, um menor número de grãos ou frutos por planta.
Culturas, como milho e soja, são altamente sensíveis ao estresse térmico durante suas fases reprodutivas, com perdas de rendimento significativas em eventos climáticos extremos.
Estudo sobre a cultura do milho indica que, sob condições de calor intenso combinado com seca, as perdas de rendimento de grãos podem variar de 49 a 86%, dependendo do genótipo e da severidade do estresse térmico.
Da mesma forma, a soja também sofre grandes perdas devido às altas temperaturas durante a fase reprodutiva, com redução no número de vagens, no peso dos grãos e na eficiência fisiológica. Para algumas cultivares de soja, essas perdas podem superar 50% em condições extremas de calor.

Alterações nas áreas de cultivo
Regiões que historicamente eram aptas para determinadas culturas podem se tornar inviáveis devido ao calor excessivo ou à escassez de água no médio e longo prazo. Isso força a migração de cultivos para novas áreas, muitas vezes menos produtivas ou com infraestrutura inadequada, gerando custos de adaptação e a realização de novos investimentos pelos produtores.
O zoneamento agrícola de risco climático (ZARC) é uma ferramenta utilizada para orientar o planejamento de safra e o plantio no Brasil, e precisa ser constantemente revisado de forma a refletir essas mudanças, indicando novas janelas de plantio ou a necessidade de substituição de culturas por cultivares mais tolerantes ao calor e ao déficit de água no solo.
Impacto sobre a disponibilidade de água
O impacto sobre a disponibilidade de água é um dos efeitos mais críticos. Temperaturas elevadas aumentam drasticamente a evapotranspiração das plantas e a evaporação da água do solo, resultando em uma maior escassez hídrica.
Em regiões dependentes de chuvas, isso se traduz em estresse hídrico severo. Mesmo em áreas irrigadas, a capacidade dos sistemas de irrigação pode ser sobrecarregada e os custos com energia para bombeamento de água aumentam. A recarga de mananciais e aquíferos é reduzida, exacerbando a escassez hídrica e tornando a gestão eficiente de água uma prioridade absoluta para a manutenção das atividades agrícolas.

Aumento da incidência de doenças e pragas
As condições de calor extremo e estresse hídrico, resultantes das ondas de calor na lavoura, podem alterar o equilíbrio do agroecossistema, favorecendo o aumento da incidência de pragas e doenças agrícolas.
Plantas estressadas ficam mais suscetíveis a ataques, pois sua capacidade de defesa é reduzida. Além disso, as altas temperaturas podem acelerar o ciclo de vida de muitos insetos-praga, levando a um maior número de gerações por safra.
Da mesma forma, alguns patógenos encontram no calor e na umidade relativa condições propícias para a sua proliferação, dificultando o controle e aumentando a necessidade do uso de defensivos, o que eleva os custos e o impacto ambiental.
Vulnerabilidade de espécies e associações agrícolas
Culturas com menor tolerância a altas temperaturas, como algumas variedades de café e hortaliças folhosas, sofrem perdas mais acentuadas, o que compromete a diversidade produtiva.
Geralmente os sistemas agroflorestais são mais resilientes as alterações climáticas, principalmente pela manutenção de um microclima mais adequado e elevada deposição de matéria orgânica do solo, o que favorece a infiltração e maior disponibilidade de água às plantas.
A perda de biodiversidade e a fragilização dos ecossistemas cultivados reduzem a capacidade de resiliência natural da lavoura, tornando-a mais dependente de intervenções externas.
Dificuldade na adaptação de manejos agrícolas
A dificuldade na adaptação de manejos agrícolas é um entrave significativo. Técnicas e calendários de plantio historicamente estabelecidos tornam-se ineficazes diante da imprevisibilidade climática, demandando adaptação ou atualização frequente das janelas de plantio/ semeadura.
Produtores precisam repensar o uso de fertilizantes, os cronogramas de irrigação, o controle de pragas e doenças e até mesmo a escolha de cultivares. A necessidade de novas tecnologias e de conhecimentos técnicos atualizados é constante, exigindo investimento contínuo em capacitação e pesquisa.
A transição para um sistema de manejo mais resiliente durante ondas de calor é um desafio que demanda tempo, recursos e uma mudança de mentalidade no campo.

Sinais do estresse térmico em plantas
A identificação precoce dos sinais de estresse térmico nas plantas é crucial para uma resposta rápida e eficaz contar as ondas de calor sobre a lavoura, minimizando perdas por calor extremo. As plantas possuem mecanismos para tentar se proteger, mas eles podem ser sobrecarregados, demonstrando sinais, como:
- Murchamento e enrolamento das folhas: em calor extremo, o fechamento dos estômatos reduz a transpiração, mas a alta demanda hídrica do ambiente pode levar à perda de turgidez das células. Como resposta ao estresse térmico e hídrico, as folhas murcham e se enrolam, reduzindo a área exposta à radiação.
- Queima das margens e pontas das folhas: as folhas apresentam queimaduras, como se estivessem desidratadas.
- Clorose: amarelecimento das folhas devido ao estresse térmico.
- Necrose: escurecimento e morte dos tecidos foliares como resultado do calor excessivo.
- Abortamento de flores: flores podem abortar devido ao superaquecimento durante o estresse térmico.
- Queda prematura de frutos jovens: frutos podem cair antes de atingir o estágio de maturação fisiológica devido ao calor extremo.
Culturas agrícolas mais afetadas pelas ondas de calor
As ondas de calor na lavoura afetam um vasto leque de culturas, mas algumas espécies são particularmente mais vulneráveis aos impactos do calor extremo na agricultura.
- Cereais, como milho: sensíveis ao calor excessivo durante a floração e o enchimento de grãos, fases críticas para o rendimento.
- Hortaliças folhosas (alface e couve): o calor intenso pode causar queima das folhas, reduzindo a qualidade comercial, e, em seguida, estimular o florescimento (pendoamento) precoce, comprometendo a colheita.
- Frutíferas, como café e uva: a qualidade e a produtividade podem ser afetadas, com queda de flores e frutos ou queima da folhagem devido ao estresse térmico.
- Culturas de verão: embora prosperem em temperaturas mais altas, sofrem drasticamente quando o calor ultrapassa a faixa de temperatura adequada ou ideal.
Essas culturas são particularmente vulneráveis ao estresse térmico, com impactos severos nas fases críticas de desenvolvimento e na qualidade da produção.
Impacto produtivo e econômico das ondas de calor na agricultura brasileira
A redução na produtividade das culturas, a perda de qualidade dos produtos e o aumento dos custos de produção (com irrigação, defensivos) geram prejuízos bilionários para o agronegócio devido às ondas de calor cada vez mais frequentes.
Por exemplo, a cafeicultura, uma atividade com variedades perenes, pode sofrer com a queda de flores e frutos, comprometendo safras por anos.
No caso do milho e da soja, a perda de grãos por falha na polinização significa menor oferta para os mercados interno e externo, impactando o preço final dos alimentos e a renda dos produtores.
Estratégias para minimizar os impactos do calor extremo em lavouras
Diante do cenário de aumento das ondas de calor na lavoura, a adoção de estratégias integradas é indispensável para construir uma agricultura resiliente e sustentável.
1. Zoneamento agrícola de risco climático (ZARC)
O zoneamento agrícola de risco climático é uma ferramenta estratégica fundamental para o manejo. Consiste na análise e na delimitação de regiões e épocas mais adequadas para o cultivo de diferentes culturas, considerando fatores, como temperatura, precipitação e umidade.
Com a intensificação das ondas de calor na lavoura, é crucial que o zoneamento seja constantemente atualizado com base em modelos climáticos de médio e longo prazo. Essa atualização permite que o produtor tome decisões mais assertivas sobre a escolha da cultura e da cultivar mais adaptada à realidade climática de sua região, minimizando os riscos de estresse térmico nas plantas e otimizando o planejamento de safra para as janelas de plantio mais seguras.
2. Melhoramento vegetal
O melhoramento vegetal é uma das estratégias mais eficazes para desenvolver cultivares mais resilientes aos impactos do calor extremo na agricultura. Através de técnicas de melhoramento convencional e engenharia genética, pesquisadores buscam criar cultivares de plantas que apresentem maior tolerância a altas temperaturas, estresse hídrico e maior eficiência no uso da água.
O objetivo é desenvolver plantas que mantenham sua capacidade produtiva mesmo em condições adversas, com sistemas radiculares mais profundos, mecanismos de defesa aprimorados e maior eficiência fotossintética sob calor.
O investimento em pesquisa e desenvolvimento de novas variedades é crucial para adaptar a agricultura às ondas de calor na lavoura e garantir a segurança alimentar global.
3. Aperfeiçoamento nos modelos de previsão regional
O aperfeiçoamento nos modelos de previsão regional é vital para um manejo proativo de ondas de calor. Previsões meteorológicas mais precisas e detalhadas, com foco em microclimas e padrões regionais, permitem que produtores, agrônomos e consultores antecipem a chegada de ondas de calor na lavoura e planejem suas ações com antecedência.
Isso inclui ajustar cronogramas de irrigação, decidir sobre a aplicação de produtos que reduzam o estresse térmico nas plantas ou até mesmo adiar operações de manejo que poderiam intensificar o estresse.
Investimentos em estações meteorológicas, sensoriamento remoto e algoritmos de inteligência artificial são fundamentais para refinar esses modelos e oferecer informações cada vez mais confiáveis para o monitoramento climático agrícola.
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4. Utilização de técnicas de manejo que reduzam a evaporação
A manutenção da umidade no solo não só disponibiliza água para as plantas, mas também ajuda a moderar a temperatura da superfície. Para isso, produtores podem investir em:
Mulch
O “mulch“, ou cobertura morta, refere-se especificamente à aplicação de uma camada de material orgânico (palha, serragem, casca de arroz) ou inorgânico (plástico) sobre a superfície do solo em cultivos de alto valor.
Essa técnica tem como principal objetivo reduzir a evaporação direta da água do solo, controlar plantas daninhas e estabilizar a temperatura do solo. Em contextos de ondas de calor na lavoura, o mulch pode diminuir significativamente a temperatura da superfície do solo, protegendo as raízes das plantas do superaquecimento e contribuindo para a proteção de mudas e plantas jovens contra o calor.

5. Uso de compostos bioativos
O uso de compostos bioativos é uma estratégia inovadora para fortalecer a capacidade das plantas de lidar com o estresse térmico ou abiótico.
Compostos bioativos, como bioestimulantes, aminoácidos e extratos vegetais, podem ser aplicados via foliar ou no solo para ativar mecanismos de defesa naturais da planta, melhorando sua tolerância a condições adversas. Eles podem, por exemplo, otimizar a eficiência da fotossíntese, regular a abertura dos estômatos para reduzir a perda de água, ou aumentar a produção de proteínas de choque térmico.
A Syngenta, por exemplo, oferece soluções com compostos bioativos para ajudar as plantas a combaterem estresses no campo.
Essa abordagem complementa outras estratégias, adicionando uma camada de resiliência fisiológica à lavoura.
6. Uso racional da água e técnicas de irrigação eficientes
O uso racional da água e a adoção de técnicas de irrigação eficientes são estratégias indispensáveis para enfrentar as ondas de calor na lavoura e o estresse hídrico nas plantas.
A irrigação inteligente, baseada em monitoramento da umidade do solo e previsão climática, permite aplicar a quantidade exata de água de que a planta necessita, no momento ideal e diretamente na zona radicular.
Sistemas, como gotejamento e microaspersão, minimizam perdas por evaporação e escoamento, enquanto pivôs centrais com tecnologia de taxa variável otimizam a aplicação em grandes áreas. Essa abordagem maximiza a eficiência do uso da água no campo, assegura o suprimento hídrico em períodos críticos de calor e contribui para a conservação da água na agricultura em um cenário de recursos cada vez mais limitados.

Medidas emergenciais em casos de calor extremo
Em situações de calor extremo, medidas emergenciais são cruciais para mitigar danos imediatos e evitar perdas irrecuperáveis. A agilidade na resposta pode fazer a diferença entre salvar ou perder parte significativa da produção.
Ajustes de irrigação
Em casos de calor extremo, ajustes de irrigação tornam-se a primeira linha de defesa. É fundamental aumentar a frequência das irrigações, sem necessariamente aumentar o volume total, para manter a umidade do solo e permitir que as plantas transpirem e se resfriem.
Irrigar nas horas mais frescas do dia (início da manhã ou final da tarde/noite) minimiza perdas por evaporação e maximiza a absorção. Em algumas culturas, a irrigação por aspersão pode ser utilizada brevemente durante as horas mais quentes para resfriar a folhagem, embora deva ser feita com cautela para evitar doenças fúngicas.
Reduzir estresse foliar
Para reduzir o estresse foliar, a aplicação de produtos que formam uma camada protetora sobre as folhas, como caulim ou outros protetores solares agrícolas, pode refletir parte da radiação solar e diminuir a temperatura do dossel.
Embora não seja uma solução para grandes áreas, pode ser viável para culturas de alto valor. A aplicação de bioestimulantes ou aminoácidos foliares também pode ajudar as plantas a se recuperarem mais rapidamente do estresse, estimulando mecanismos de defesa e reparo celular, complementando as práticas para resiliência climática na lavoura.
Manejo de defensivos e aplicações foliares
O manejo de defensivos e aplicações foliares exige cautela extrema durante ondas de calor na lavoura. Altas temperaturas e baixa umidade podem reduzir a eficácia de muitos defensivos e, pior, aumentar o risco de fitotoxicidade (queima das plantas).
É crucial evitar aplicações durante as horas mais quentes do dia, quando as temperaturas são mais amenas e a umidade relativa do ar é mais alta.
Reduza a dose de adjuvantes que podem causar fitotoxicidade. A consulta a um agrônomo é essencial para reavaliar a necessidade e a segurança de cada aplicação, protegendo a lavoura do estresse térmico nas plantas e de danos adicionais.
Proteção de mudas e plantas jovens
A proteção de mudas e plantas jovens contra calor é especialmente crítica, pois são as fases de maior vulnerabilidade. A pouca área foliar e o sistema radicular pouco desenvolvido as tornam mais suscetíveis ao estresse térmico.
O uso de telas de sombreamento (sombrite) em viveiros ou sobre linhas de plantio pode reduzir drasticamente a radiação solar e a temperatura. A irrigação localizada e com maior frequência é essencial.
Em culturas, como hortaliças e frutíferas, o plantio em épocas mais amenas, quando possível, ou a utilização de “berços” com cobertura morta ao redor das plantas jovens, oferece uma camada extra de proteção e ajuda na proteção de mudas contra calor.
As ondas de calor na lavoura são um desafio crescente para a agricultura moderna, exigindo adaptação constante e estratégias de manejo eficazes. Desde o uso de tecnologias de zoneamento agroclimático até o desenvolvimento de cultivares mais adaptáveis, a resiliência no campo se constrói de forma planejada e inteligente.
O futuro da agricultura dependerá da nossa capacidade de se adaptar, inovar e proteger as lavouras diante de um clima cada vez mais imprevisível.
A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.
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