O agronegócio brasileiro registrou um desempenho de exportações sem precedentes em fevereiro, atingindo cifras recordes que redesenham o fluxo comercial do país. O grande protagonista do mês não foi o tradicional mercado europeu ou norte-americano, mas sim a Índia. O país sul-asiático importou US$ 357,3 milhões em produtos brasileiros, um crescimento vertiginoso de 171,1% em relação a fevereiro de 2025.

Este movimento elevou a Índia à 5ª posição no ranking dos maiores destinos do agro nacional, sinalizando que a estratégia de “olhar para o Leste” está colhendo frutos concretos.

O fenômeno indiano: além do açúcar

O crescimento exponencial na Índia é explicado por uma combinação de fatores climáticos internos no país asiático e uma abertura comercial agressiva por parte do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

  • Complexo sucroenergético: a Índia, tradicionalmente uma grande produtora de açúcar, enfrentou quebras de safra que abriram espaço para o produto brasileiro.
  • Óleos vegetais: o óleo de soja brasileiro encontrou um mercado ávido, substituindo fornecedores que enfrentam tensões geopolíticas.
  • Leguminosas e pulses: há um esforço bilateral para que o Brasil se torne o principal fornecedor de lentilhas e feijões, itens básicos da dieta indiana.

Vietnã e Sudeste Asiático: parceiros estratégicos

Não foi apenas a Índia que surpreendeu. O Vietnã manteve sua trajetória de alta, com importações somando US$ 372,6 milhões (+22,9%). O país tem se consolidado como um hub de processamento de grãos e um grande consumidor de farelo de soja e milho para sua crescente indústria de proteína animal.

Como o mercado tem enxergado essa alta na demanda asiática, para o além China, de produtos agrícolas brasileiros? Qual o prognóstico para os próximos meses?

Reduzindo a “Chinadependência”

A China permanece como o principal destino (abocanhando cerca de 30% a 40% das exportações totais), mas a diversificação vista em fevereiro é celebrada pelo setor produtivo como uma “apólice de seguro”.

A dependência excessiva de um único comprador expõe o Brasil a riscos de variações de demanda e pressões políticas. Com a ascensão da Índia e do Vietnã, o Brasil ganha:

  • Maior poder de barganha: menor pressão sobre os preços nas negociações internacionais.
  • Resiliência logística: abertura de novas rotas comerciais pelo Oceano Índico e Pacífico.
  • Segurança alimentar: o Brasil se firma como o “celeiro do mundo” para as nações mais populosas do globo.

Desafios no horizonte

Apesar dos números comemorativos, o setor alerta para gargalos que podem frear esse crescimento. A infraestrutura portuária brasileira, especialmente no Arco Norte e no Porto de Santos, opera próxima do limite.

Além disso, as negociações de acordos de livre comércio com o bloco do Sudeste Asiático (ASEAN) ainda caminham em ritmo diplomático, enquanto competidores como Austrália e EUA possuem vantagens tarifárias em alguns produtos.

O recorde de fevereiro de 2026 marca um ponto de inflexão. O agronegócio brasileiro provou que tem capacidade de rápida adaptação às demandas globais, transformando a Índia de um mercado potencial em uma realidade estratégica. O desafio agora é transformar esse pico de vendas em uma parceria de longo prazo.

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