O Brasil está colhendo mais soja do que nunca. A produção da oleaginosa na safra 2025/26 está estimada pela Conab em 177,9 milhões de toneladas, uma safra recorde, com área plantada de 48,4 milhões de hectares. Números que, em outro contexto de mercado, seriam pura comemoração. Hoje, porém, convivem com uma equação financeira que pressiona o produtor de forma incomum: os preços pagos pela soja caem enquanto os custos de produção sobem. 

Esse descompasso já está moldando as decisões para o plantio da safra 2026/27, que começa em setembro. E pela primeira vez em duas décadas, analistas colocam em discussão a possibilidade de redução ou estagnação da área cultivada com a oleaginosa no país. 

O que está acontecendo com os preços?

A queda nas cotações da soja não é novidade, mas o ritmo ganhou intensidade. A abundância da oferta global derrubou os valores pagos ao produtor, e o Indicador Cepea/Esalq, referência de mercado para o grão no porto de Paranaguá (PR), opera bem abaixo dos picos registrados no início do ciclo. 

Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio introduziu um vetor de custo que poucos antecipavam com essa intensidade. 

O efeito dos fertilizantes na conta do produtor 

O Oriente Médio concentra parte relevante da cadeia global de enxofre e fosfatos, insumos essenciais para os fertilizantes utilizados na soja. Com o prolongamento do conflito, o mercado sentiu o impacto de forma direta e rápida. 

A ureia chegou a US$ 710 por tonelada CFR Brasil, alta de 89% em relação ao ano anterior. O MAP (fosfato monoamônico), insumo amplamente utilizado na cultura da soja, subiu para US$ 850 por tonelada, acumulando 17% de alta no último mês. 

Na prática, a relação de troca entre MAP e soja disparou: no início do ano, cada tonelada do fertilizante equivalia a 27 sacas de soja. Com as altas recentes, cada tonelada passou a custar ao menos 35 sacas. 

Os principais efeitos desse cenário sobre o produtor: 

  • Custo de produção mais alto, com estimativas de elevação próxima de 9% no ciclo 2026/27 
  • Atraso nas compras de insumos, com produtores postergando aquisições na expectativa de algum recuo de preços 
  • Redução no pacote tecnológico, com cortes em doses e produtos para conter gastos 
  • Piora na relação de troca, que exige mais sacas de soja para adquirir a mesma quantidade de fertilizante 

O enxofre, base para produção do ácido sulfúrico e dos fosfatados como o MAP, atingiu patamares próximos a US$ 800 a tonelada, nível semelhante apenas ao registrado durante a crise entre Rússia e Ucrânia em 2022 e à crise de 2008. 

O que esperar para a área de soja em 2026/27 

A grande questão do setor é se esse cenário será suficiente para interromper a expansão contínua da soja no Brasil, que não recua em área desde a safra 2006/07. O mercado de fertilizantes opera sob forte tensão, com repasses quase imediatos ao mercado brasileiro, comprimindo margens já apertadas. 

A decisão final vai depender, em grande medida, de dois fatores que ainda estão em aberto: o comportamento das cotações da soja nos próximos meses e a evolução do conflito no Oriente Médio. Uma trégua ou reabertura de rotas comerciais estratégicas ainda pode aliviar a pressão sobre os fosfatados antes da janela principal de compras, no segundo semestre. 

Enquanto isso, a mensagem prática para o produtor é clara: a eficiência agronômica passa a ter peso ainda maior na composição do resultado. Em um ciclo em que a margem será construída pela gestão criteriosa do custo, o manejo correto da fertilidade do solo, com doses adequadas no momento certo, pode ser o diferencial entre fechar a safra no azul ou no vermelho. 

Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo. 

Mais Agro

Culturas

Inovações e tendências