Desde sua confirmação no Brasil, em 2013, Helicoverpa armigera rapidamente se estabeleceu como uma das pragas mais preocupantes das lavouras de soja, milho e algodão.  

Segundo a Embrapa, surtos severos da praga podem acarretar perdas expressivas da produção, a depender do estádio fenológico da lavoura e da intensidade do ataque. 

A rápida dispersão da espécie pelo território nacional está associada à sua extraordinária capacidade de adaptação, à ampla gama de plantas hospedeiras e à facilidade com que desenvolve resistência a diferentes grupos de inseticidas.  

No Cerrado e no MATOPIBA, onde a sobreposição de cultivos ao longo do ano favorece a manutenção de populações elevadas, o desafio de manejo é ainda mais acentuado. 

Neste conteúdo são apresentados os principais aspectos da biologia de Helicoverpa armigera, as ferramentas de monitoramento com feromônio e os critérios para integração de Bacillus thuringiensis (Bt) com piretroides dentro de uma estratégia sólida do MIP ((Manejo Integrado de Pragas), com atenção especial ao manejo de resistência e à preservação de inimigos naturais. 

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Por que Helicoverpa armigera desafia os produtores: características que a tornam uma praga de difícil controle 

Helicoverpa armigera (Hübner, 1809) é um lepidóptero da família Noctuidae, originário da África, Ásia e Oceania, e considerado uma das pragas agrícolas mais destrutivas do mundo.  

No Brasil, sua presença foi confirmada oficialmente em 2013, embora análises indiquem que a espécie já circulava no país antes dessa data, possivelmente introduzida por meio do trânsito de mercadorias ou de material vegetal contaminado. 

A espécie é capaz de se desenvolver em mais de 180 espécies vegetais, incluindo culturas de alto valor econômico como soja, milho, algodão, tomate, feijão e girassol. Essa polifagia amplia enormemente sua capacidade de sobrevivência entre safras e dificulta o planejamento de estratégias de controle baseadas apenas em uma cultura. 

Close em lagarta sob uma folha

Três fatores críticos que explicam sua agressividade: polifagia, mobilidade e reprodução acelerada 

Uma fêmea adulta de H. armigera pode depositar entre 1.000 e 1.500 ovos ao longo de sua vida, distribuídos individualmente em folhas, botões florais e estruturas reprodutivas das plantas hospedeiras.  

Essa alta fecundidade, combinada com a capacidade de voo de centenas de quilômetros, permite que a praga colonize novas áreas com rapidez e reinfeste lavouras tratadas em curto espaço de tempo. 

O ciclo biológico completo, da postura à emergência do adulto, varia de 30 a 45 dias em condições favoráveis de temperatura (entre 25 °C e 30 °C), o que possibilita a ocorrência de múltiplas gerações por safra.  

Nas regiões do Cerrado e do MATOPIBA, onde as temperaturas elevadas e a sequência de cultivos são frequentes, esse potencial reprodutivo é ainda mais expressivo. 

Identificação no campo: como diferenciar H. armigera de H. zea com precisão 

A identificação correta da espécie é fundamental para a tomada de decisão no MIP, pois Helicoverpa zeaocorre nas mesmas culturas e pode ser confundida com H. armigera em inspeções visuais.  

Segundo a Embrapa, as principais diferenças entre as duas espécies incluem diferenças namorfologia das lagartas: lagartas de H. armigera apresentam pontuações escuras dispostas em semicírculo no quarto e/ou quinto segmento dorsal do corpo, além de textura coriácea do tegumento, ausentes em H. zea 

A identificação precisa pode ser confirmada por análise molecular ou por consulta a laboratórios especializados, sendo recomendável em casos de dúvida, especialmente quando se planeja o uso de ferramentas de controle biológico

Armadilhas de feromônio: a inteligência do monitoramento preventivo 

O monitoramento com feromônio é uma das ferramentas mais valiosas do MIP para H. armigera, pois permite orientar a tomada de decisão de forma mais precisa e econômica do que o monitoramento exclusivo de lagartas. 

Armadilha Delta e posicionamento estratégico: otimizando a detecção da praga 

A armadilha Delta é o modelo mais utilizado para o monitoramento de H. armigera. Consiste em uma estrutura triangular com piso adesivo e um septo impregnado com feromônio sexual sintético, que atraí machos adultos da espécie.  

A troca do septo deve ser realizada a cada 6 a 8 semanas ou conforme as recomendações do fabricante, e o piso adesivo deve ser substituído sempre que estiver saturado de insetos ou detritos. 

A instalação das armadilhas deve seguir os seguintes critérios: 

  • Posicionamento na altura do dossel da cultura ou ligeiramente acima 
  • Distribuição de uma armadilha a cada 5 a 10 hectares, com no mínimo duas armadilhas por talhão monitorado 
  • Instalação nas bordas da lavoura e em pontos internos, para detectar focos de entrada e distribuição da praga 
  • Registro diário ou semanal das capturas, com anotação da data, número de adultos capturados e condições climáticas 

Decodificando os números: quando agir baseado nas capturas registradas 

A interpretação das capturas de adultos nas armadilhas deve ser feita em conjunto com o monitoramento direto de lagartas por meio do pano de batida ou da inspeção visual de estruturas reprodutivas.  

O aumento súbito nas capturas de adultos sinaliza o início de um período de postura intensa e indica a necessidade de intensificar o monitoramento de lagartas nos dias seguintes. 

A tabela a seguir apresenta os níveis de ação por cultura, com base nas recomendações da Embrapa

Cultura Método de monitoramento Nível de ação 
Soja (fase vegetativa) Pano de batida ou amostragem direta 7,5 lagartas/m² 
Soja (fase reprodutiva) Pano de batida ou amostragem direta 1 a 2 lagartas/m² 
Milho Inspeção de plantas 2 lagartas/metro 
Algodão convencional Inspeção de plantas 2 lagartas/metro (<8 mm) ou 1 lagarta/metro (>8 mm) ou 5 ovos marrons/metro 
Algodão Bt Inspeção de plantas 2 lagartas/metro (>3 mm) ou 1 lagarta/metro (>8 mm) 

Bacillus thuringiensis: timing e aplicação para máxima efetividade 

O uso de produtos à base de Bacillus thuringiensis (Bt) representa uma das estratégias mais alinhadas aos princípios do MIP, por sua seletividade a inimigos naturais e pelo menor risco de desenvolvimento de resistência quando comparado a inseticidas de amplo espectro.  

Contudo, sua eficácia depende de condições específicas de aplicação e do estádio das lagartas. 

Espectro de ação dos produtos à base de Bt: conhecendo suas possibilidades e limites 

As formulações de Bt disponíveis para o controle de H. armigera são baseadas principalmente nas subspécies kurstaki e aizawai, que produzem proteínas Cry com atividade inseticida sobre lepidópteros.  

A ação do Bt ocorre por ingestão: após consumir folhas ou estruturas tratadas, as lagartas jovens (preferencialmente até o segundo instar) têm o epitélio intestinal destruído pelas toxinas, levando à parálisia e à morte em 24 a 72 horas. 

A eficácia do Bt é mais eficaz quando aplicado nos ínstares iniciais da lagarta, o que reforça a importância do monitoramento precoce e da aplicação no momento correto.  

Além disso, a exposição à radiação ultravioleta degrada as proteínas Cry rapidamente, sendo recomendável realizar as aplicações no final da tarde ou início da noite. 

Os desafios do Bt em soja transgênica: refúgio obrigatório e resistência cruzada 

Em lavouras de soja Bt , a expressão contínua de proteínas Cry nas plantas exerce pressão de seleção sobre as populações de H. armigera, favorecendo o desenvolvimento de resistência.  

Para retardar esse processo, o manejo de áreas de refúgio é fundamental: a legislação brasileira exige que ao menos 20% da área cultivada com soja Bt seja plantada com variedades convencionais, sem a tecnologia Bt, para manter populações de insetos suscetíveis na lavoura. 

O não cumprimento das exigências de refúgio compromete a durabilidade da tecnologia Bt e pode acelerar a seleção de biótipos resistentes, com consequências para toda a cadeia produtiva da região. 

Leia mais: O desafio do percevejo-barriga-verde no sistema soja-milho 

Sinergismo químico: combinando Bt e piretroides com inteligência 

A integração de Bt com piretroides é uma estratégia frequentemente adotada quando as populações de H. armigera apresentam lagartas em diferentes instares ou quando o nível de ação já foi ultrapassado e há necessidade de resposta mais rápida.  

Contudo, essa integração deve ser planejada com critério para não comprometer os princípios do MIP. 

Quando a mistura funciona: critérios técnicos para justificar a associação 

A associação de Bt com piretroides (grupo IRAC 3A) pode ser justificada nas seguintes situações: 

  • Populações mistas, com lagartas jovens e de instares avançados simultaneamente; 
  • Necessidade de efeito de choque rápido para reduzir danos; 
  • Situações em que o monitoramento indica risco de perda econômica iminente; 

Por outro lado, a mistura não é justificável quandonão há confirmação do nível de ação por meio de monitoramento adequado. 

Alternância de mecanismos: como preservar a eficácia dos inseticidas ao longo do tempo 

O histórico de H. armigera no mundo inclui registros de resistência a piretroides, organofosforados, carbamatos e até a algumas proteínas Bt. No Brasil, a resistência a piretroides já foi documentada em populações do Cerrado e do MATOPIBA, segundo dados da Embrapa

A rotação de grupos químicos é a principal ferramenta para retardar o desenvolvimento de resistência. A recomendação é alternar, a cada aplicação ou a cada geração da praga, entre grupos com diferentes modos de ação: 

  • Grupo IRAC 11 (Bt — Bacillus thuringiensis); 
  • Grupo IRAC 5 (espinosinas); 
  • Grupo IRAC 28 (diamidas); 
  • Grupo IRAC 3A (piretroides); 
  • Grupo IRAC 6 (avermectinas). 

O uso sequencial do mesmo grupo químico em uma mesma safra deve ser evitado, especialmente em regiões com histórico de resistência documentada. 

Confira mais sobre: Spodopteras em milho e soja: como quebrar o ciclo das lagartas? 

Inimigos naturais como aliados: conservação e potencialização no campo 

O controle biológico de H. armigera conta com um conjunto relevante de agentes naturais presentes nas lavouras do Cerrado, incluindo parasitoides do gênero Trichogramma spp., que parasitam ovos da praga, e predadores generalistas. 

A preservação desses inimigos naturais é um dos pilares do MIP e pode reduzir significativamente a necessidade de intervenções químicas. 

Para potencializar o controle biológico, algumas práticas são recomendáveis: 

  • Priorizar inseticidas seletivosnas fases iniciais do ciclo da praga; 
  • Evitar aplicações de piretroides e organofosforados em períodos de alta atividade de parasitoides; 
  • Realizar liberações aumentativas de Trichogramma spp. em áreas com histórico de alta pressão de H. armigera, especialmente no início da fase reprodutiva das culturas; 
  • Manter a diversidade vegetal nas bordas das lavouras, favorecendo a presença de inimigos naturais. 

Manejo integrado no Cerrado: construindo resiliência contra Helicoverpa armigera 

O manejo de H. armigera exige uma abordagem integrada que vai além da escolha do inseticida. No Cerrado e no MATOPIBA, onde a continuidade de cultivos ao longo do ano favorece a manutenção de populações elevadas, algumas práticas estruturais são fundamentais: 

  • Planejamento do vazio sanitário entre safras, para reduzir a disponibilidade de hospedeiros e interromper o ciclo da praga; 
  • Sincronização do plantio em nível regional, para concentrar os períodos de suscetibilidade das culturas e facilitar o monitoramento coletivo; 
  • Compartilhamento de dados de monitoramento entre produtores vizinhos, cooperativas e assistência técnica, para identificar focos de infestação com antecedência; 
  • Adoção de variedades com diferentes tecnologias Bt em rotação, para diversificar a pressão de seleção sobre as populações da praga; 
  • Registro sistemático das aplicações realizadas, dos grupos químicos utilizados e dos resultados de monitoramento, para subsidiar decisões futuras e identificar tendências de resistência. 

O MIP para H. armigeraé um conjunto de decisões baseadas em dados de monitoramento, conhecimento da biologia da praga e avaliação criteriosa do contexto de cada lavoura.  

A integração de ferramentas biológicas, químicas e culturais, com atenção permanente ao manejo de resistência, é o caminho mais sólido para proteger a produtividade das lavouras de soja e milho. 

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