Desde sua chegada ao Brasil, no início dos anos 2000, o patógeno tem demonstrado capacidade adaptativa notável, desenvolvendo resistência progressiva às moléculas fungicidas disponíveis no mercado. 

Esse cenário impôs ao setor uma revisão profunda das estratégias de controle. As misturas duplas, que combinavam estrobilurinas e triazóis, perderam eficácia ao longo das safras em razão da pressão de seleção exercida sobre as populações do fungo.  

A resposta de manejo foi o desenvolvimento das misturas triplas, que incorporam um terceiro grupo químico, as carboxamidas (SDHI), ampliando o espectro de ação e reduzindo o risco de resistência. 

Neste artigo, são apresentados os fundamentos bioquímicos de cada grupo químico, o histórico de perda de eficácia das misturas duplas e as boas práticas de uso das misturas triplas para que o programa fungicida mantenha sua efetividade ao longo das safras. 

Leia mais: 

Como cada grupo químico age no patógeno 

A lógica das misturas triplas está fundamentada em um princípio central da fitopatologia: quanto mais sítios de ação distintos forem atingidos simultaneamente no metabolismo do patógeno, menor é a probabilidade de que mutações pontuais confiram resistência à população fúngica.  

Cada grupo químico presente na mistura tripla atua em um ponto específico e independente da biologia de Phakopsora pachyrhizi

Triazóis: bloqueio da síntese de ergosterol na membrana fúngica 

Os triazóis pertencem ao grupo dos inibidores da desmetilação (DMI), classificados pelo FRAC no Grupo G1. Seu mecanismo de ação consiste na inibição da enzima CYP51, responsável pela desmetilação do lanosterol na rota de biossíntese do ergosterol.  

O ergosterol é o principal esterol da membrana celular dos fungos, cumprindo função análoga ao colesterol nas células animais. Sem ergosterol funcional, a membrana perde integridade estrutural, comprometendo a viabilidade do patógeno. 

Os triazóis apresentam ação curativa e preventiva, com boa mobilidade sistêmica no tecido vegetal. Contudo, a exposição prolongada e repetida a esse grupo levou ao surgimento de populações com mutações no gene CYP51, reduzindo a sensibilidade das moléculas ao longo das safras brasileiras. 

Estrobilurinas: interrupção da respiração mitocondrial no patógeno 

As estrobilurinas integram o Grupo FRAC 11, denominado inibidores do sítio Qo da ubiquinol-citocromo c redutase (QoI). Atuam bloqueando o transporte de elétrons na cadeia respiratória mitocondrial, especificamente no complexo III, impedindo a produção de ATP pelo patógeno.  

Sem energia disponível, os processos metabólicos essenciais à germinação de esporos e ao crescimento micelial são interrompidos. 

Apesar de sua alta eficácia inicial, as estrobilurinas foram as primeiras moléculas a apresentar resistência documentada em Phakopsora pachyrhizi no Brasil.  

A mutação G143A no gene do citocromo b, que confere resistência cruzada a praticamente todas as estrobilurinas, foi identificada em nove estados brasileiros a partir de 2008 ainda na primeira década de uso comercial dessas moléculas. 

Confira: Mistura de defensivos no tanque: o que pode e o que não pode ser combinado 

SDHI/Carboxamidas: travamento do complexo II e colapso energético 

As carboxamidas (SDHI) compõem o Grupo FRAC 7 e representam o avanço mais recente incorporado às misturas triplas. Seu sítio de ação é o complexo II da cadeia respiratória mitocondrial, a succinato desidrogenase, enzima que catalisa a oxidação do succinato a fumarato no ciclo de Krebs.  

Ao inibir esse complexo, as carboxamidas bloqueiam simultaneamente o ciclo de Krebs e a cadeia transportadora de elétrons, comprometendo a produção energética do patógeno por uma via distinta da atingida pelas estrobilurinas. 

A incorporação das SDHI às misturas representou um avanço significativo, pois adicionou um terceiro ponto de pressão sobre o metabolismo fúngico. Contudo, monitoramentos conduzidos pela Embrapa Soja e pelo FRAC já identificam sinais de redução de sensibilidade em algumas populações de Phakopsora pachyrhizi, reforçando a necessidade de estratégias complementares de manejo de resistência. 

O colapso das misturas duplas: quando a resistência vence a química 

A resistência de Phakopsora pachyrhizi aos fungicidas não é um fenômeno novo, mas sua velocidade de progressão surpreendeu o setor.  

O histórico das últimas duas décadas mostra um padrão que se repete: um grupo químico chega ao mercado com alta eficácia, a pressão de seleção se intensifica com o uso massivo e, em poucos anos, a eficiência começa a cair.  

Entender essa trajetória é fundamental para não repetir os mesmos erros com as moléculas disponíveis hoje. 

Histórico de resistência: da estrobilurina às carboxamidas 

O processo deperda da eficácia dos fungicidas em Phakopsora pachyrhizi seguiu uma trajetória bem documentada.  

As estrobilurinas, introduzidas no início dos anos 2000, já apresentavam resistência generalizada em populações brasileiras por volta de 2007.  

As misturas duplas com triazóis sustentaram o controle por alguns anos, mas a pressão de seleção contínua acelerou o surgimento de populações com sensibilidade reduzida também a esse grupo. 

Com a chegada das carboxamidas ao mercado, as misturas triplas passaram a incorporar o novo grupo como componente central. Porém, o padrão de uso intensivo, sem rotação de grupos químicos e sem a inclusão de multissítios, criou condições favoráveis para que a pressão de seleção se repetisse sobre as SDHI. 

Redução da sensibilidade documentada pela Embrapa e pelo FRAC 

Monitoramentos anuais conduzidos pela Embrapa Soja em parceria com universidades e o FRAC acompanham a evolução da sensibilidade de populações de Phakopsora pachyrhizi aos principais grupos fungicidas.  

Os resultados indicam que a eficácia das misturas duplas (estrobilurina + triazol) caiu de forma expressiva nas principais regiões produtoras do Cerrado, do Centro-Oeste e do Sul do Brasil, com valores de AACPD (Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença) significativamente superiores aos registrados no início do uso dessas moléculas. 

Esses dados fundamentam a recomendação técnica de adoção das misturas triplas como padrão de programa fungicida, especialmente em regiões com histórico de alta pressão da ferrugem asiática. 

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Três alvos, uma vitória: como a tripla combinação recupera o controle fúngico 

Se o problema da resistência está na pressão de seleção exercida por um único sítio de ação, a resposta lógica é aumentar o número de alvos atingidos simultaneamente.  

É esse o princípio das misturas triplas: não se trata apenas de somar ingredientes ativos, mas de reduzir matematicamente a probabilidade de sobrevivência de indivíduos resistentes dentro da população do patógeno. 

Ação simultânea em três sítios distintos do patógeno 

A principal vantagem das misturas triplas reside na probabilidade estatisticamente muito baixa de que um único indivíduo fúngico acumule, de forma simultânea, mutações que confiram resistência a três sítios de ação independentes.  

Enquanto a resistência a um único grupo pode surgir por uma mutação pontual, a resistência simultânea a triazóis, estrobilurinas e carboxamidas exigiria a ocorrência concomitante de múltiplas mutações, o que reduz drasticamente a velocidade de seleção de populações resistentes. 

Essa lógica é o fundamento do manejo de resistência preconizado pelo FRAC e adotado pelas principais redes de ensaio brasileiras: diversificar os sítios de ação por aplicação é mais eficaz do que alternar grupos entre aplicações, pois elimina a janela de seleção que cada grupo isolado criaria. 

O papel complementar dos fungicidas multissítios como mancozebe 

Os fungicidas multissítios, como o mancozebe, atuam em múltiplos pontos do metabolismo fúngico de forma inespecífica.Quando associados às misturas triplas, os multissítios cumprem duas funções complementares: 

  • Ampliam o espectro de controle contra patógenos secundários presentes na lavoura de soja; 
  • Reduzem a pressão de seleção sobre os sítios específicos das SDHI, estrobilurinas e triazóis, prolongando a vida útil dessas moléculas. 

A inclusão de multissítios no programa fungicida é considerada uma das estratégias mais relevantes para a sustentabilidade do controle químico da ferrugem asiática, conforme orientações do FRAC

Grupos de fungicidas, mecanismo de ação e papel na mistura tripla: 

Grupo FRAC Grupo químico Mecanismo de ação Sítio-alvo Risco de resistência Papel na mistura tripla 
Grupo 3 Triazóis (DMI) Inibição da síntese de ergosterol Enzima CYP51 Médio a alto Ação curativa e preventiva 
Grupo 11 Estrobilurinas (QoI) Inibição da respiração mitocondrial Complexo III (Qo) Alto (mutação G143A) Ação preventiva e antiesporulante 
Grupo 7 Carboxamidas (SDHI) Inibição do complexo II Succinato desidrogenase Médio (em monitoramento) Ação complementar e sistêmica 
Multissítio Mancozebe Múltiplos sítios inespecíficos Vários Muito baixo Redução da pressão de seleção 

Maximizando a vida útil: protocolo técnico para aplicação da mistura tripla 

O protocolo de aplicação damistura tripla de fungicidas, que inclui o momento de entrada, o intervalo entre aplicações e o estádio de encerramento, determina se a eficácia química vai se traduzir em produtividade real e em preservação da sensibilidade das moléculas para as próximas safras. 

Número de aplicações, estádios e intervalo entre aplicações 

O número de aplicações de fungicidas na soja varia conforme a pressão da doença, a suscetibilidade do cultivar e as condições climáticas da safra.  

O intervalo entre aplicações costuma ser ajustado conforme a velocidade de progresso da doença monitorada na lavoura, respeitando as recomendações de bula de cada fungicida. 

Como não comprometer a vida útil das moléculas 

A preservação da eficácia das moléculas ao longo das safras depende de práticas que reduzam a pressão de seleção sobre as populações fúngicas. Entre as condutas mais relevantes, destacam-se: 

  • Utilizar múltiplos grupos de ação , preferencialmente associadas a multissítios; 
  • Evitar aplicações de grupos isolados (estrobilurina ou triazol sem SDHI) em qualquer momento do programa; 
  • Respeitar os intervalos mínimos entre aplicações para evitar subdosagem e exposição prolongada do patógeno a concentrações subletais; 
  • Monitorar a lavoura regularmente para ajustar o número de aplicações à pressão real da doença, evitando tanto a omissão quanto o excesso de intervenções; 

Leia mais mais: Reta final: a importância das últimas aplicações de fungicida na soja no controle de doenças   

O que os ensaios da Embrapa revelam sobre eficácia das misturas triplas 

Os ensaios cooperativos conduzidos pela Embrapa Soja em parceria com universidades e instituições de pesquisa nas principais regiões produtoras do Brasil têm demonstrado, de forma consistente, que as misturas triplas apresentam desempenho superior às misturas duplas no controle da ferrugem asiática, especialmente em condições de alta pressão da doença. 

Os resultados de AACPD e de produtividade obtidos nos ensaios de rede indicam que programas baseados em misturas triplas, com inclusão de multissítios, proporcionam maior proteção do potencial produtivo da soja em comparação a programas com apenas dois grupos de ação.  

Isso porque a eficácia dos fungicidas no manejo da ferrugem está diretamente associada à diversidade de sítios de ação utilizados no programa, reforçando a base científica das recomendações atuais. 

A análise dos dados de rede também evidencia que a eficácia das misturas triplas não é uniforme entre regiões e safras, variando conforme a composição genética das populações locais de Phakopsora pachyrhizi e as condições climáticas de cada temporada.  

Por isso, o monitoramento contínuo da sensibilidade dos patógenos é considerado indispensável para a atualização das recomendações técnicas. 

Estratégia fungicida baseada em ciência: decisão que protege produtividade 

A adoção das misturas triplas de fungicidas em soja não representa apenas uma resposta à perda de eficácia das misturas duplas. Representa, sobretudo, uma mudança de paradigma no manejo fitossanitário: a compreensão de que a eficácia dos fungicidas é um recurso finito, que precisa ser gerido de forma consciente e baseada em evidências científicas. 

O conhecimento dos mecanismos de ação de cada grupo químico, aliado ao monitoramento das populações de Phakopsora pachyrhizi e à adoção de boas práticas de aplicação, é o que permite ao agricultor tomar decisões assertivas sobre seu programa fungicida, protegendo o potencial produtivo da lavoura e preservando a vida útil das moléculas disponíveis para as próximas safras. 

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