O retorno do El Niño na safra 2026/27 já começa a moldar as perspectivas para a agricultura mundial. Apesar das preocupações com eventos extremos, o fenômeno climático pode favorecer a oferta global de soja, com as perdas esperadas em regiões como Ásia e África sendo compensadas por ganhos de produtividade em grandes produtores como Brasil, Estados Unidos e Argentina, segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA. 

De acordo com o relatório, estudos indicam que, em períodos de El Niño, as produtividades médias globais de soja aumentam entre 2% e 5%, impulsionadas pelo clima favorável nas principais regiões produtoras das Américas. Como reflexo, eventos moderados do fenômeno costumam exercer pouca pressão sobre os preços do grão, já que a oferta global tende a se manter equilibrada ou superar a demanda esperada, resultando em estoques elevados. 

O banco cita as safras 1997/98 e 2015/16, marcadas por El Niños fortes, como exemplos de períodos em que não houve rupturas significativas no balanço de grãos. Naqueles ciclos, os preços internacionais apresentaram variações menos intensas, com volatilidade inferior à observada em anos neutros ou de La Niña. 

El Niño na safra 2026/27 e o equilíbrio da oferta global 

O cenário base do Itaú BBA para o ciclo 2026/27 aponta para um mundo relativamente equilibrado na oferta de soja. A projeção de oferta mundial recorde, estimada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em 441,34 milhões de toneladas, sustenta-se em três pilares: 

  • Aumento esperado da safra norte-americana. 
  • Manutenção dos bons patamares de produção na Argentina. 
  • Possibilidade de novo recorde brasileiro. 

Pelo lado da demanda, o crescimento global do uso de biocombustíveis tem elevado o consumo de óleo de soja e o esmagamento do grão. Ao somar produção e consumo, o saldo global da oleaginosa deve registrar o menor valor desde a safra 2021/22, com o superávit caindo de quase 16 milhões de toneladas em 2024/25 para menos de 1 milhão em 2026/27, segundo o USDA. 

Brasil caminha para nova safra recorde de soja 

A consultoria projeta nova produção recorde para o Brasil, estimada em 182,4 milhões de toneladas no ciclo 2026/27. “Nosso cenário base é de novo recorde para a produção de soja do Brasil, dado que, em anos de El Niño, a tendência média para o Brasil é neutra a ligeiramente positiva, e isso manteria o balanço global relativamente equilibrado”, afirma o Itaú BBA no relatório. 

A instituição pondera, no entanto, que a intensificação do fenômeno pode alterar esse equilíbrio. Por isso, mantém simulações para quantificar o potencial impacto de uma eventual quebra na produção brasileira sobre o cenário global do grão. 

Milho segunda safra é a cultura mais vulnerável 

Se a soja tende a se beneficiar do fenômeno, o milho segunda safra aparece como a cultura mais exposta. O padrão climático típico, com chuvas irregulares no Centro-Oeste no início da estação, atrasa o plantio da soja, empurra a colheita para datas mais tardias e comprime a janela ideal de semeadura da safrinha. 

“Esse efeito calendário é crucial, pois aumenta a exposição da cultura a condições adversas no final do ciclo, especialmente déficit hídrico e altas temperaturas durante o enchimento de grãos”, destaca o documento. 

Além do efeito calendário, há um padrão estrutural de maior risco produtivo. Enquanto a soja apresenta desvios neutros ou levemente positivos em anos de El Niño, o milho exibe comportamento mais consistente de perdas ou maior volatilidade. Episódios como os das safras 2004/05, 2009/10 e, sobretudo, 2015/16 mostraram quedas relevantes de produtividade no Brasil, reflexo do plantio tardio e da pior distribuição de chuvas no Centro-Oeste durante o desenvolvimento da cultura. “Esse padrão reforça que a safrinha é muito mais sensível ao clima do que a soja de primeira safra”, aponta o relatório. 

Tecnologia e manejo como fatores de mitigação 

Mesmo diante dos riscos associados ao El Niño na safra 2026/27, o Itaú BBA reforça que a evolução tecnológica e o aprimoramento das práticas agrícolas reduzem o potencial de perdas. Desde a forte quebra de 2015/16, avanços em sementes, manejo de solo e técnicas de cultivo se consolidaram como elementos mitigantes em cenários climáticos adversos. 

O uso da irrigação também ganhou tração em regiões mais sensíveis ao estresse hídrico, como o Mapito, fronteira agrícola formada pelos estados do Maranhão, Piauí e Tocantins. Combinados, esses fatores ampliam a resiliência produtiva e atenuam os efeitos de eventos climáticos intensos sobre as lavouras brasileiras. 

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