A capacidade inata das plantas de se defenderem contra patógenos e pragas é um campo de estudo fundamental para o agronegócio moderno. Entre os diversos mecanismos, a resistência sistêmica induzida (ISR) por bioinsumos emerge como uma estratégia promissora e sustentável, permitindo que as plantas ativem suas defesas naturais, preparando-as para futuros ataques.Este artigo explica o funcionamento bioquímico da ISR, as diferenças em relação à Resistência Sistêmica Adquirida (SAR), quais microrganismos eliciam essa resposta e suas implicações práticas no manejo integrado de doenças e pragas na agricultura.
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O que é resistência sistêmica induzida (ISR) e como ela difere da SAR
A defesa das plantas contra ameaças bióticas envolve uma complexa rede de sinalização. A ISR representa uma das facetas mais intrigantes dessa rede, oferecendo proteção de amplo espectro por meio da interação com microrganismos benéficos.
Compreender seus fundamentos é crucial para o manejo agronômico moderno.
Conceito de ISR e as vias hormonais envolvidas (jasmonato e etileno)
A ISR é um estado de resistência aumentado na planta, desencadeado pela colonização de suas raízes por microrganismos não patogênicos, como rizobactérias promotoras de crescimento vegetal (PGPR). Essa indução prepara a planta para uma resposta mais rápida e robusta a ataques posteriores.
Os principais fitormônios envolvidos na sinalização da ISR são o ácido jasmônico (JA) e o etileno (ET), que atuam de forma sinérgica, ativando genes de defesa contra uma ampla gama de pragas e patógenos .
Essa ativação é sistêmica: a sinalização se propaga da raiz para as partes aéreas da planta, conferindo proteção a toda a estrutura.
Diferença entre ISR e SAR — gatilhos, vias de sinalização e espectro de ação
Embora ISR e SAR confiram resistência sistêmica, elas diferem significativamente em seus gatilhos e vias de sinalização. A SAR é tipicamente ativada por infecção seguida de necrose ou resposta hipersensível, mediada principalmente pelo ácido salicílico (SA), que induz a expressão de genes de proteínas relacionadas à patogênese (PR proteins), sendo mais eficaz contra patógenos biótrofos e vírus.
A ISR, por sua vez, é induzida por microrganismos benéficos e mediada por ácido jasmônico e etileno, com eficácia estendida a patógenos necrotróficos e insetos herbívoros. A a especificidade das vias hormonais é um dos principais marcadores-chave que diferencia os dois mecanismos.

Quais microrganismos e bioinsumos induzem a ISR nas plantas
A descoberta de microrganismos capazes de induzir a ISR abriu um vasto campo para o desenvolvimento de bioinsumos eficazes. A utilização desses agentes biológicos se alinha às demandas por uma agricultura mais sustentável,
Bactérias PGPR e fungos com capacidade de ativação de ISR
Entre as bactérias, destacam-se as PGPR dos gêneros Bacillus (como Bacillus subtilis e Bacillus amyloliquefaciens) e Pseudomonas (notavelmente Pseudomonas fluorescens).
Essas bactérias colonizam a rizosfera, interagindo diretamente com as raízes e produzindo elicitores que desencadeiam a cascata de sinalização hormonal da ISR.
No grupo dos fungos, o gênero Trichoderma é o mais estudado como indutor de ISR, especialmente Trichoderma asperellum. Esses fungos estabelecem uma relação com a planta que resulta na ativação de mecanismos de defesa sistêmicos, além de promoverem o crescimento vegetal.
Como os agentes biológicos interagem com a raiz para desencadear a sinalização sistêmica
A interação entre os agentes biológicos e a raiz da planta é o ponto de partida para a indução da ISR. Microrganismos como as PGPR colonizam a superfície ou o interior das células da raiz . Durante esse processo, eles liberam metabólitos secundários e e moléculas estruturais como flagelina, lipopolissacarídeos e peptideoglicana, conhecidos como MAMPs (Padrões Moleculares Associados a Microrganismos), que são reconhecidos por receptores específicos nas células da raiz.
Essa percepção inicial ativa uma série de eventos intracelulares.Subsequentemente, a sinalização é transmitida pelas vias do ácido jasmônico e etileno para as partes aéreas da planta, conferindo a resistência sistêmica.
Mecanismo de priming — como a planta fica “pronta para se defender”
O conceito de priming é central para entender a eficácia da ISR. Não se trata de uma defesa ativa e constante, que demandaria muita energia da planta, mas sim de um estado de prontidão que permite uma resposta mais rápida e intensa quando a ameaça real surge. Este mecanismo otimiza a alocação de recursos da planta.
O conceito de priming e por que a ISR não é uma defesa ativa imediata
O priming vegetal refere-se à capacidade da planta de responder de forma mais eficiente a um estresse biótico ou abiótico após ter sido previamente exposta a um estímulo indutor (o bioinsumo).
Na prática, a planta não está constantemente em um estado de defesa máxima. Em vez disso, ela armazena “memória” da interação com o bioinsumo, traduzida em níveis mais elevados de precursores de defesa ou em uma maquinaria de sinalização mais sensível.
Quando a planta é subsequentemente atacada por um patógeno ou praga, essa memória permite que as respostas de defesa sejam ativadas de forma mais rápida, intensa e duradoura do que em uma planta não induzida.
Isso representa uma estratégia de economia de energia, pois a planta não gasta recursos na produção contínua de defesas.
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Resposta da planta ao ataque após o priming mediado por bioinsumos
Após o priming induzido por bioinsumos, ao ser confrontada com um patógeno ou praga, a planta reage com uma explosão de mecanismos de defesa que seriam menos eficazes ou mais lentos em uma planta não preparada.
Esta resposta aprimorada pode incluir a rápida acumulação de compostos antimicrobianos, o reforço da parede celular e a expressão acelerada de genes de defesa, dentre outros mecanismos.
Essa prontidão permite que a planta contenha a infecção antes que cause danos significativos à cultura.
Implicações práticas da ISR no manejo integrado de doenças e pragas
A implementação da ISR por meio de bioinsumos oferece uma abordagem inovadora para o manejo fitossanitário. Sua natureza sistêmica a torna uma ferramenta valiosa em um contexto de crescente demanda por práticas agrícolas mais sustentáveis.
Principais microrganismos indutores de ISR, vias hormonais, alvos de controle e culturas com resposta documentada
| Microrganismo ativo | Via hormonal envolvida | Alvos de controle comuns | Culturas com resposta documentada |
| Bacillus subtilis | Jasmonato, etileno | Fungos (necrotróficos), bactérias, nematoides | Soja, milho, tomate, hortaliças |
| Pseudomonas fluorescens | Jasmonato, etileno | Fungos (necrotróficos), oomicetos, insetos | Algodão, tabaco, soja, tomate |
| Trichoderma asperellum | Jasmonato, etileno | Fungos necrotróficos (Botrytis, Fusarium), nematoides, insetos | Tomate, pepino, milho, algodão |
| Azospirillum brasilense | Jasmonato, etileno | Fungos, bactérias | Gramíneas (milho, trigo), arroz, soja |
Fonte: literatura científica de microbiologia do solo e fisiologia vegetal; Embrapa. Valores indicativos; variam conforme cepa, cultura e condições ambientais.
Quando a ISR é uma ferramenta eficaz e quais são suas limitações
A ISR é particularmente eficaz como parte de um programa de manejo integrado, idealmente aplicada de forma preventiva no início do ciclo da cultura ou em momentos de maior suscetibilidade. É vantajosa em cenários de alta pressão de pragas e doenças.
No entanto, a ISR não é uma solução isolada ea sua integração com outras práticas de manejo é fundamental para maximizar seus benefícios.
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Como integrar bioinsumos indutores de ISR a um programa de manejo
A integração bem-sucedida de bioinsumos indutores de ISR exige planejamento e conhecimento técnico. A aplicação deve garantir o contato efetivo dos microrganismos com as raízes da plantal, geralmente via tratamento de sementes, sulco de plantio ou drench.
Além disso, a sinergia com práticas de manejo integrado de pragas (MIP) e doenças (MID) é essencial, podendo envolver a combinação com defensivos químicos compatíveis quando necessário.
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