A pressão de pragas como Spodoptera frugiperda e Helicoverpa armigera representa um dos maiores desafios para a rentabilidade das lavouras brasileiras de milho, soja e algodão.
Populações não monitoradas dessas espécies podem comprometer entre 17% e 39% da produtividade do milho, segundo dados da Embrapa Milho e Sorgo, pressionando o custo de produção.
Nesse contexto, os feromônios emergem como uma alternativa técnica de alto valor dentro do MIP (Manejo Integrado de Pragas). Ao explorar a própria comunicação química dos insetos, essas moléculas permitem monitorar populações com precisão, interferir no comportamento reprodutivo das pragas.
Este conteúdo apresenta o que são os feromônios e o seu papel como biopesticidas, como funcionam, de que forma são formulados para uso agrícola e quais estratégias já demonstram resultados documentados no Brasil.Continue a leitura!
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O diálogo químico entre insetos: desvendando a linguagem molecular das pragas
Os insetos se comunicam por meio de sinais químicos extremamente específicos, e decifrar essa linguagem molecular é o que torna possível manipular seu comportamento. Conhecer as diferentes categorias de feromônios é o primeiro passo para entender como essa comunicação pode ser explorada no manejo de pragas.
Três mensagens que controlam o destino dos insetos: sexual, agregação e alarme
Os feromônios são substâncias químicas produzidas por um indivíduo e percebidas por outros da mesma espécie, desencadeando respostas comportamentais específicas. Classificam-se, de forma geral, em três categorias principais:
- Feromônios sexuais: liberados, na maioria dos casos, pelas fêmeas para atrair machos a longas distâncias, sendo os mais explorados no controle de pragas;
- Feromônios de agregação: utilizados por espécies como besouros para reunir indivíduos em um local, facilitando a captura massal;
- Feromônios de alarme: sinais de perigo que dispersam ou mobilizam colônias, com menor aplicação agrícola direta.
Dentro do universo mais amplo dos semiquímicos, há ainda os cairomônios, substâncias produzidas por uma espécie que beneficiam o receptor de outra espécie.
Esses compostos também são estudados para uso em armadilhas, pois atraem predadores ou parasitoides úteis ao MIP.
Como uma molécula invisível comanda o comportamento das pragas
A percepção dos feromônios ocorre por meio de receptores olfativos localizados nas antenas dos insetos. No caso dos feromônios sexuais de lepidópteros, como Spodoptera frugiperda e Helicoverpa armigera, o macho detecta concentrações mínimas da molécula liberada pela fêmea e orienta seu voo em direção à fonte do sinal.
Essa especificidade por espécie é uma das características mais relevantes do ponto de vista agronômico: a molécula atua sobre a praga-alvo sem interferir em organismos não-alvo, incluindo polinizadores e inimigos naturais.

Do laboratório à lavoura: a engenharia por trás dos feromônios agrícolas
Identificar quais feromônios uma praga utiliza é apenas o ponto de partida. Transformar essa molécula em um produto comercial viável exige um processo técnico que vai da bancada do laboratório até a embalagem que chega à lavoura, de modo a preservar em escala comercial a eficácia observada na pesquisa.
A jornada da molécula: da descoberta à síntese industrial
O desenvolvimento de um feromônio para uso agrícola começa com a identificação e caracterização química da molécula produzida pela espécie-alvo.
Pesquisadores isolam o composto, determinam sua estrutura e, em seguida, reproduzem-no por síntese química em laboratório. Esse processo garante a produção em escala e a padronização da concentração ativa, fatores críticos para a eficácia no campo.
Segundo a CropLife Brasil, os semiquímicos representam uma das categorias de biopesticidas com maior crescimento no mercado global, justamente pela alta especificidade e pelo perfil favorável em termos de impacto ambiental.
Liberadores: septo de borracha, pastilha e dispensadores de longa duração
A formulação do feromônio para uso em campo envolve a escolha do liberador adequado, que controla a taxa de volatilização da molécula ativa. Os principais tipos são:
- Septo de borracha: pequeno dispositivo impregnado com o feromônio, utilizado em armadilhas Delta para monitoramento; libera o composto de forma gradual por semanas;
- Pastilha: formulação compacta com maior carga de feromônio, indicada para táticas de confusão sexual em áreas menores;
- Dispensadores de longa duração: dispositivos poliméricos que liberam o feromônio de forma controlada por períodos de 30 a 90 dias, utilizados em programas de confusão sexual em escala comercial.
A escolha do liberador depende da tática de manejo adotada, da cultura, da área e da biologia da espécie-alvo.
Leia também: Controle biológico no manejo integrado de pragas (MIP): como funciona e quando faz mais sentido
Estratégias práticas de aplicação no campo
Com a molécula desenvolvida e padronizada, a etapa final é colocá-la a serviço do manejo no campo. As armadilhas com feromônio se tornaram ferramenta central nesse processo, transformando um sinal químico em dado prático para orientar quando e como agir contra a praga.
Armadilhas inteligentes: o monitoramento que define quando agir
A armadilha Delta com feromônio sexual é a ferramenta mais difundida no monitoramento de lavoura. O dispositivo captura machos da espécie-alvo, permitindo estimar a densidade populacional e identificar o momento de maior atividade de voo.
Esses dados subsidiam a tomada de decisão sobre a necessidade e o momento de intervenção.
Para Spodoptera frugiperda em milho, a Embrapa documenta o uso de armadilhas com feromônio como ferramenta de suporte ao MIP, auxiliando na definição do nível de ação e no acompanhamento da curva de voo ao longo da safra.
O monitoramento contínuo permite correlacionar picos de captura com o risco de infestação nas plantas, orientando o manejo de forma mais assertiva.
Confusão sexual: saturando o ambiente para interromper a reprodução
A confusão sexual consiste na liberação de grandes quantidades de feromônio sexual sintético na área cultivada, saturando o ambiente com o sinal químico. Nessa condição, os machos perdem a capacidade de localizar as fêmeas, o que reduz o acasalamento e, consequentemente, a postura de ovos e o surgimento de novas gerações da praga.
Essa tática é especialmente apresenta bons resultados documentados em culturas perenes e em áreas com histórico de alta pressão de lepidópteros. A eficácia depende da densidade de dispensadores por hectare, da uniformidade de distribuição e da ausência de fontes externas de imigração de adultos.
Atrai-e-mata: feromônio como isca para agentes de controle biológico
O atrai-e-mata combina o poder atrativo do feromônio com um agente de controle, que pode ser um inseticida seletivo, um entomopatogênio ou outro biopesticida.
O inseto é atraído pelo sinal químico e, ao entrar em contato com o agente de controle, é eliminado. Essa tática concentra a ação sobre a praga-alvo, reduzindo a quantidade de produto aplicado por área e o impacto sobre organismos não-alvo.
Principais táticas com feromônios no MIP:
| Tática | Mecanismo | Culturas de uso | Pontos de atenção |
| Monitoramento | Captura de machos em armadilha Delta com feromônio sexual, para estimar densidade populacional e picos de voo | Milho, soja, algodão, citros, café | Fornece dados para a tomada de decisão sobre o momento de intervenção; não substitui, por si só, as demais táticas de controle |
| Confusão sexual | Liberação de grandes quantidades de feromônio sexual sintético na área cultivada, saturando o ambiente e dificultando a localização das fêmeas pelos machos | Citros, maçã, uva, algodão | Reduz o acasalamento e a postura de ovos, com boa seletividade; o desempenho depende da densidade de dispensadores, da uniformidade de distribuição e da baixa imigração de adultos externos |
| Atrai-e-mata | Combinação do feromônio como isca com um agente de controle (inseticida seletivo, entomopatogênio ou outro biopesticida) | Milho, soja, algodão | Concentra a ação sobre a praga-alvo e reduz o volume aplicado por área; requer calibração do agente de controle e da densidade de pontos de atração |
| Captura massal | Instalação de armadilhas em alta densidade para reduzir a população adulta na área | Citros, café | Contribui para a redução direta da população adulta; o desempenho é mais consistente em cenários de pressão populacional baixa a moderada |
Resultados comprovados em lavouras brasileiras
A teoria sobre o uso de feromônios no MIP ganha peso quando comparada a resultados concretos de campo. O caso da broca-dos-citros ilustra, com dados mensuráveis, o potencial de redução de custos e de uso de inseticidas que essa tecnologia pode proporcionar quando bem aplicada.
Broca-dos-citros: monitoramento com feromônio sexual e redução do uso de inseticidas
Um dos casos mais expressivos de uso de feromônios no Brasil envolve a broca-dos-citros (Gymnandrosoma aurantianum), praga que compromete a qualidade dos frutos e eleva os custos de produção nos pomares.
Programas de monitoramento com armadilhas de feromônio sexual permitiram identificar com precisão os picos de voo do adulto, concentrando as intervenções nos momentos de maior vulnerabilidade da praga.
O uso de feromônio sexual no manejo da broca-dos-citros é amplamente reconhecido pela pesquisa brasileira como ferramenta que contribui para a redução do número de aplicações de inseticidas convencionais, com impacto positivo nos custos de produção e na qualidade dos frutos destinados à exportação.
Rastreando Spodoptera e Helicoverpa: monitoramento em milho e soja
O monitoramento de Spodoptera frugiperda e Helicoverpa armigera por meio de armadilhas com feromônio integra os programas de MIP de produtores.
A ferramenta permite acompanhar a dinâmica populacional ao longo da safra, identificar regiões de maior pressão e calibrar o momento das aplicações de inseticidas, evitando tanto a aplicação precoce quanto a tardia.
Como aponta a Ciência Hoje, os feromônios representam uma das fronteiras mais promissoras dos biopesticidas, com potencial de transformar a lógica do controle de pragas ao substituir a abordagem reativa por uma estratégia baseada em informação e precisão.
Integrando feromônios ao manejo integrado de pragas da lavoura
A incorporação dos feromônios ao MIP exige planejamento e conhecimento da biologia da espécie-alvo. Alguns pontos fundamentais para uma integração assertiva:
- Definir a tática adequada (monitoramento, confusão sexual ou atrai-e-mata) com base na cultura, na área e no histórico de infestação;
- Instalar as armadilhas respeitando a densidade e a distribuição recomendadas pelo fabricante e pelo técnico responsável;
- Registrar e analisar os dados de captura de forma sistemática, correlacionando-os com o estádio fenológico da cultura e as condições climáticas;
- Integrar o monitoramento com feromônio às demais ferramentas do MIP, como avaliação de danos nas plantas, contagem de lagartas e acompanhamento de inimigos naturais;
- Considerar a rotação de táticas e a combinação com controle biológico para ampliar a eficácia e reduzir a pressão de seleção sobre as populações de pragas.
O uso de feromônios não substitui o controle químico em situações de alta pressão, mas r contribui para um manejo mais sustentável e economicamente racional.
Feromônios: o próximo capítulo do manejo integrado de pragas
Os feromônios biopesticidas representam uma das ferramentas mais sofisticadas disponíveis ao agricultor moderno. Ao transformar a comunicação química dos insetos em um instrumento de controle, o MIP ganha em precisão, seletividade e sustentabilidade.
Os casos documentados no Brasil, especialmente em citros, milho e soja, demonstram que a adoção dessas ferramentas é tecnicamente viável e economicamente justificável, especialmente em um cenário de aumento dos custos de produção.
A integração dos semiquímicos ao planejamento de manejo, com suporte técnico qualificado e monitoramento sistemático, é um passo concreto em direção a lavouras mais produtivas, rentáveis e alinhadas às exigências do mercado internacional.
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