Estima-se que cerca de 75% das culturas alimentares do mundo dependem, em algum grau, da polinização animal, segundo dados Relatório de Avaliação sobre Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos da IPBES (2016). No Brasil, esse serviço ecossistêmico é prestado principalmente por abelhas nativas e pela Apis mellifera, espécies que enfrentam pressão crescente em razão do uso intensivo de inseticidas nas lavouras.
O impacto econômico da perda de polinizadores não é abstrato. Culturas destinadas à produção de grãos, fruticultura e horticultura registram quedas mensuráveis de produtividade quando a presença de abelhas é reduzida. Ao mesmo tempo, o avanço dos programas de controle biológico abre uma via concreta para conciliar proteção fitossanitária e conservação da biodiversidade funcional.
Nesteconteúdo, são apresentados os mecanismos pelos quais os bioinsumos seletivos contribuem para a preservação dos polinizadores, os dados disponíveis sobre seletividade por grupo de produto e as estratégias de manejo da paisagem agrícola que potencializam esses benefícios.
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Por que as abelhas são o motor da produtividade
Os polinizadores prestam um serviço ecossistêmico de valor econômico direto: ao transferir pólen entre flores, viabilizam a formação de frutos e sementes em dezenas de culturas comerciais. No Brasil, esse papel é desempenhado por cerca de 1.700 espécies de abelhas, das quais aproximadamente 300 são abelhas-sem-ferrão (meliponíneos), além da Apis mellifera introduzida, que respondem coletivamente pela polinização de culturas.
A perda de colônias e a redução da diversidade de polinizadores nas paisagens agrícolas intensificadas têm sido associadas ao declínio de produtividade em múltiplas culturas.
O fenômeno, documentado em diferentes regiões do mundo, resulta da combinação de fatores: destruição de habitat, monoculturas extensas, doenças e, de forma significativa, a exposição a inseticidas.
Soja polinizada: o salto de produtividade
A soja é frequentemente tratada como cultura autógama, ou seja, capaz de se autopolinizar. Contudo, estudos conduzidos pela Embrapa demonstram que a presença de abelhas nas lavouras pode elevar a produtividade em mais de 10%, dependendo da cultivar, da densidade de polinizadores e das condições ambientais.
Esse intervalo expressivo evidencia que a polinização cruzada, mesmo em culturas consideradas autossuficientes, representa um potencial produtivo relevante que pode ser perdido quando as populações de abelhas são suprimidas.
Frutas e hortaliçase o papel da pela polinização
Na fruticultura e na horticultura, a dependência dos polinizadores é ainda mais direta. Culturas como maçã, pera, melão, morango, abóbora e maracujá apresentam dependência obrigatória ou altamente significativa da polinização entomófila.
Nessas cadeias produtivas, a ausência de polinizadores resulta em frutos malformados, redução do peso médio e queda acentuada no rendimento comercial. Regiões produtoras de fruticultura nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul concentram parte relevante dessa vulnerabilidade no contexto brasileiro.
Floração como período crítico: por que o moento da aplicação é decisivo
Independentemente da classe química, a aplicação de inseticidas durante o período de floração representa o maior risco para os polinizadores. Abelhas em atividade de coleta de néctar e pólen ficam expostas diretamente ao produto, seja por contato, seja por ingestão.
O risco é amplificado quando se utilizam formulações pouco seletivas.
A adoção de janelas de aplicação fora dos horários de maior atividade das abelhas e o respeito ao estádio fenológico da cultura são medidas básicas de mitigação, mas insuficientes quando o produto apresenta ação prolongada.
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Bioinsumos como escudo biológico para polinizadores
A substituição ou redução do uso de inseticidaspor bioinsumos seletivos representa uma das estratégias mais consistentes para reduzir o impacto do manejo fitossanitário sobre os polinizadores.
A seletividade dos biológicos decorre de seus mecanismos de ação específicos, que atuam sobre alvos fisiológicos presentes em determinados grupos de pragas, mas ausentes ou pouco expressivos em insetos benéficos.
Seletividade dos biológicos: perfil de risco de Bt, Beauveria e Bacillus para abelhas?
A resposta a essa pergunta exige precisão por grupo de produto, conforme indicam os dados disponíveis na literatura técnica e nos registros de organismos reguladores:
Bacillus thuringiensis (Bt): As proteínas Cry produzidas pelo Bt atuam sobre receptores específicos presentes no epitélio intestinal de lepidópteros e alguns dípteros. Abelhas não possuem esses receptores em concentração relevante, o que confere ao Bt um perfil de seletividade favorável para os polinizadores.
Beauveria bassiana: fungo entomopatogênico que infecta insetos por contato, penetrando pela cutícula. Sua seletividade para abelhas é considerada moderada — bioensaios laboratoriais com exposição direta a altas concentrações de conídios (10⁷ a 10⁸ conídios/mL) documentam redução de sobrevivência em Apis mellifera e em meliponíneos como Melipona scutellaris, embora estudos de campo em aplicações convencionais indiquem risco significativamente menor
O uso criterioso, com aplicações fora do período de floração e nos horários de menor atividade dos polinizadores, é recomendável para minimizar riscos.
Bacillus subtilis e outros biofungicidas: Produtos à base de bactérias benéficas utilizados no controle de doenças fúngicas apresentam, em geral, baixo risco para polinizadores, uma vez que seu mecanismo de ação não envolve toxinas com alvos em insetos.
Estudos de controle biológico destacam que quando bem implementado, contribui diretamente para a preservação dos polinizadores ao reduzir a necessidade de aplicações de inseticidas.
Perfil de seletividade dos principais grupos de bioinsumos para polinizadores:
| Bioinsumo | Alvo / função | Risco para abelhas | Recomendação de manejo |
| Bacillus thuringiensis (Bt) | Bioinseticida — lepidópteros e alguns dípteros | Baixo. Proteínas Cry atuam sobre receptores específicos do epitélio intestinal ausentes em Hymenoptera | Aplicação conforme bula; preferência por janelas fora da floração |
| Beauveria bassiana | Bioinseticida — amplo espectro (percevejos, tripes, cigarrinhas) | Moderado em exposição direta. Bioensaios laboratoriais a 10⁷–10⁸ conídios/mL reduzem sobrevivência de Apis mellifera e meliponíneos; estudos de campo indicam risco menor | Aplicar fora da floração e em horários de baixa atividade de forrageio |
| Bacillus subtilis | Biofungicida — patógenos foliares e de solo | Baixo. Mecanismos de competição, antibiose (lipopeptídeos) e indução de resistência sistêmica na planta — sem alvo em insetos | Uso preventivo, integrado ao programa de fungicidas |
| Vírus de poliedrose nuclear (VPN) | Bioinseticida — lepidópteros (ex.: Anticarsia gemmatalis na soja) | Muito baixo. Especificidade viral restrita a hospedeiros lepidópteros | Aplicar conforme protocolo de MIP |
| Trichoderma spp. | Biofungicida e promotor de crescimento — patógenos de solo | Muito baixo. Atua por micoparasitismo, competição por nutrientes, antibiose e indução de resistência — sem alvo em insetos | Uso preventivo no solo (tratamento de sementes, sulco) ou foliar |
O efeito cascata dos bioinsumos na biodiversidade
Além da seletividade intrínseca de cada bioinsumo, o programa biológico gera um benefício indireto de grande relevância: ao reduzir o número de aplicações de inseticidas químicos ao longo do ciclo da cultura, diminui-se a pressão total sobre as populações de polinizadores e de outros insetos benéficos, como joaninhas e crisopídeos.
Esse efeito cumulativo é especialmente relevante em culturas com múltiplos ciclos de aplicação, como soja e horticultura intensiva.
Redesenhar a paisagem agrícola para convidar polinizadores de volta
A preservação dos polinizadores não depende apenas do que ocorre dentro da lavoura. A estrutura da paisagem ao redor das áreas cultivadas determina a disponibilidade de habitat, alimento e abrigo para as populações de abelhas nativas e manejadas.
Reserva Legal e APP: refúgios naturais que alimentam abelhas nativas
As áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente (APP) funcionam como reservatórios de biodiversidade funcional nas propriedades rurais. Nessas áreas, a vegetação nativa oferece recursos florais diversificados ao longo do ano e sítios de nidificação.
Propriedades que mantêm e conservam essas áreas tendem a apresentar maior diversidade e abundância de polinizadores nas lavouras adjacentes, o que se traduz em benefícios produtivos mensuráveis, especialmente em culturas dependentes de polinização.
Policultivos e diversificação: criando corredores ecológicos na propriedade
A diversificação de culturas e a adoção de sistemas integrados, como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e consórcios, ampliam a oferta de recursos florais e estruturais para os polinizadores.
Faixas de vegetação espontânea entre talhões, bordaduras com plantas com flores e a manutenção de cobertura vegetal nos períodos de entressafra são práticas que contribuem para a conectividade da paisagem e para a manutenção das populações de abelhas nativas ao longo do ano.
Convergência estratégica: bioinsumos e paisagem integrados em um só programa
A integração entre o uso de bioinsumos seletivos e o manejo da paisagem agrícola constitui a base de um programa fitossanitário que concilia produtividade e conservação.
Essa abordagem se alinha aos princípios do MIP (Manejo Integrado de Pragas), que preconiza o uso de múltiplas táticas de controle, priorizando aquelas com menor impacto sobre organismos não alvo.
Na prática, a implementação desse programa envolve:
- Monitoramento contínuo das populações de pragas e do nível de dano econômico antes de qualquer decisão de aplicação;
- Priorização de bioinsumos seletivos nas janelas de floração e nos períodos de maior atividade dos polinizadores;
- Restrição de inseticidas a situações em que o nível de dano econômico justifique a intervenção, com escolha de produtos de menor toxicidade para abelhas;
- Conservação e ampliação das áreas de vegetação nativa na propriedade, respeitando a legislação ambiental vigente;
- Diversificação da paisagem agrícola com faixas floridas, bordaduras e sistemas integrados.
Essa combinação de práticas não apenas preserva os polinizadores, mas fortalece a resiliência do sistema produtivo como um todo, reduzindo a dependência de insumos externos e contribuindo para a sustentabilidade de longo prazo da atividade agrícola.
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