Os fungos micorrízicos arbusculares (FMA) colonizam as raízes de aproximadamente 80% das plantas cultivadas no Brasil, formando uma simbiose que pode aumentar a absorção de fósforo de forma expressiva. 

No entanto, essa eficiência depende fortemente de um fator frequentemente negligenciado: o pH do solo. 

Se você é engenheiro agrônomo, pesquisador ou produtor rural interessado em potencializar a eficiência do uso desses microrganismos, compreender a relação entre pH do solo e colonização radicular é essencial para otimizar seus resultados. 

Solos ácidos, típicos do Brasil Central, apresentam condições que podem reduzir drasticamente a atividade dos FMA, comprometendo investimentos em bioinsumos.  

Este guia técnico explora os mecanismos pelos quais o pH interfere na colonização micorrízica, apresenta as faixas ótimas de pH para diferentes espécies de FMA e oferece recomendações práticas para maximizar a colonização radicular no seu manejo agrícola. 

Leia mais: 

O que são fungos micorrízicos arbusculares e como atuam nas plantas 

Os FMA são microrganismos do solo que estabelecem uma relação simbiótica obrigatória com as raízes das plantas. Essa dependência mútua caracteriza uma das simbioses mais antigas e eficientes da natureza, com impactos diretos na nutrição vegetal e na saúde do solo.  

A seguir, entenda como funciona esse processo e por que ele é especialmente relevante em solos tropicais. 

Mecanismo da simbiose micorrízica e benefícios para a planta  

A colonização radicular pelos FMA ocorre em etapas, por meio de estruturas especializadas. O processo se inicia quando esporos ou fragmentos de hifas presentes no solo reconhecem sinais químicos liberados pelas raízes e formam estruturas de contato chamadas apressórios, que permitem a penetração nos tecidos radiculares sem causar danos à planta. 

A partir daí, dois sistemas de hifas atuam em paralelo. As hifas extrarradicais crescem no solo, explorando volumes muito maiores do que as raízes conseguem alcançar sozinhas. 

 As hifas intraradicais, por sua vez, colonizam as células do córtex radicular e formam os arbúsculos: ramificações densamente divididas que aumentam a superfície de contato entre fungo e planta.  

É nessa interface que ocorre a troca: o fungo transfere fósforo e micronutrientes absorvidos do solo, enquanto a planta fornece carboidratos oriundos da fotossíntese, que sustentam o metabolismo fúngico. 

Os principais benefícios da colonização micorrízica para a planta hospedeira incluem: 

  • Aumento da absorção de fósforo: os FMA secretam enzimas que solubilizam fósforo fixado no solo, tornando-o disponível para a planta. Em solos tropicais, onde o fósforo está frequentemente indisponível, esse benefício é crítico. 
  • Melhoria na absorção de micronutrientes: zinco e outros micronutrientes são transportados com maior eficiência através das hifas micorrízicas, mitigando deficiências nutricionais. 
  • Aumento da tolerância a estresses hídrico e salino: plantas colonizadas apresentam melhor retenção de água e maior capacidade de lidar com períodos de seca. 
  • Proteção contra patógenos radiculares: os FMA competem por espaço e recursos com fungos patogênicos, reduzindo a incidência de doenças como podridão radicular. 
  • Melhoria na estrutura do solo: as hifas atuam como agentes cimentantes, agregando partículas de solo e melhorando a porosidade e a infiltração de água. 

Leia mais: Fungos na agricultura: estratégias para produtividade e rentabilidade no campo 

Papel dos FMA na absorção de fósforo e outros nutrientes em solos tropicais 

O fósforo é o nutriente mais crítico em solos tropicais brasileiros. Esses solos apresentam alta capacidade de fixação de fósforo, tornando-o indisponível para as plantas mesmo quando presente em concentrações totais elevadas.  

Os FMA resolvem esse problema através de dois mecanismos principais. 

Primeiro, as hifas extrarradicais secretam fosfatases e exsudatos que auxiliam na solubilização do fósforo fixado . Segundo, o fungo transporta o fósforo solubilizado até os arbúsculos, onde é trocado por carboidratos da planta.  

Estudos da Embrapa Agrobiologia demonstram que plantas colonizadas por FMA apresentam concentrações de fósforo 2 a 3 vezes maiores do que plantas não colonizadas, mesmo em solos com baixa disponibilidade. 

Além do fósforo, os FMA melhoram significativamente a absorção de micronutrientes. Em solos com pH baixo, onde esses micronutrientes podem estar em concentrações tóxicas, a colonização micorrízica também oferece proteção, reduzindo a absorção excessiva, em especial para o zinco. 

Como o pH do solo afeta os fungos micorrízicos arbusculares 

O pH do solo é um dos principais reguladores da atividade dos FMA em solos tropicais. Cada espécie de FMA apresenta uma faixa ótima de pH para germinação de esporos, crescimento de hifas e colonização radicular.  

Desvios dessa faixa reduzem drasticamente a eficiência da simbiose, comprometendo o retorno do investimento em bioinsumos. 

Faixas de pH favoráveis e limitantes para esporos e colonização 

Os FMA apresentam máxima atividade de colonização entre pH 5,5 e 7,0. Nessa faixa, a germinação de esporos é rápida, o crescimento de hifas é vigoroso e a colonização radicular progride sem obstáculos.  

Espécies como Rhizophagus irregularis e Glomus spp., amplamente utilizadas em bioinsumos comerciais, apresentam ótimo desempenho nessa faixa. 

Abaixo de pH 5,5, a atividade dos FMA começa a declinar. Entre pH 4,5 e 5,5, a colonização é reduzida em 30 a 50%, dependendo da espécie e das condições do solo. Abaixo de pH 4,5, a concentração de alumínio tóxico (Al³⁺) aumenta exponencialmente, inibindo a germinação de esporos e o crescimento de hifas extrarradicais.  

Nessas condições, a colonização radicular reduz expressivamente, mesmo com inoculação de espécies tolerantes. 

Acima de pH 7,0, a atividade dos FMA também diminui, embora de forma menos drástica.  

Em solos alcalinos (pH > 8,0), a disponibilidade de micronutrientes reduz, limitando o benefício da colonização micorrízica. No entanto, solos alcalinos são raros no Brasil, sendo a acidez o principal desafio. 

Relação entre pH, atividade de FMA e recomendações de manejo 

Faixa de pH Atividade de FMA Recomendação de manejo 
< 4,5 Muito reduzida Calagem obrigatória antes da inoculação 
4,5 – 5,5 Reduzida Calagem recomendada; inoculação após 30 dias 
5,5 – 7,0 Ótima Inoculação imediata; máxima eficiência 
7,0 – 8,0 Boa Inoculação viável; monitorar micronutrientes 
> 8,0 Reduzida Inoculação com ressalvas; avaliar disponibilidade de micronutrientesm 

Fonte: literatura técnica de biologia do solo; Embrapa Agrobiologia. Valores indicativos; variam conforme espécie de FMA e condições edafoclimáticas locais. 

Relação entre pH, alumínio tóxico e atividade dos FMA no cerrado 

O cerrado brasileiro apresenta solos naturalmente ácidos, com pH frequentemente abaixo de 5,0. Essa acidez está associada a altas concentrações de alumínio tóxico (Al³⁺), liberado quando o pH cai abaixo de 5,5. O alumínio tóxico interfere diretamente na fisiologia dos FMA, afetando múltiplos processos biológicos. 

Primeiro, o alumínio danifica as membranas celulares das hifas, reduzindo sua permeabilidade e comprometendo o transporte de nutrientes. Segundo, inibe a germinação de esporos, impedindo que novos indivíduos colonizem as raízes. Terceiro, reduz a produção de enzimas extracelulares, limitando a solubilização de fósforo e outros nutrientes. 

Pesquisas da Embrapa Agrobiologia mostram que em solos com pH < 4,0 e concentrações de Al³⁺ > 2 cmol/dm³, a colonização radicular por FMA é praticamente nula, mesmo com inoculação de espécies tolerantes.  

A calagem é a estratégia mais eficaz para neutralizar o alumínio tóxico e restaurar as condições favoráveis para os FMA. 

Além do alumínio, solos muito ácidos apresentam deficiência de cálcio e magnésio, nutrientes essenciais para a estrutura das hifas e para a síntese de proteínas fúngicas. A calagem corrige simultaneamente a acidez, neutraliza o alumínio tóxico e fornece cálcio e magnésio, criando um ambiente ideal para a colonização micorrízica. 

Implicações práticas para o uso de bioinsumos micorrízicos 

A compreensão da relação entre pH e atividade de FMA tem implicações diretas no manejo agrícola. Bioinsumos micorrízicos são investimentos significativos, e sua eficiência depende de condições edáficas adequadas. Ignorar o pH do solo é uma das principais causas de fracasso do uso desse tipo de bioinsumo Brasil. 

Como a calagem e a correção do solo influenciam a eficiência do bioinsumo 

A calagem é a prática fundamental para preparar o solo para o uso do bioinsumo. Ela eleva o pH, neutraliza o alumínio tóxico e fornece cálcio e magnésio. O timing da calagem em relação à inoculação é crítico para o sucesso. 

Se o pH do solo está abaixo de 5,0, a calagem deve ser realizada com antecedência de 30 a 60 dias antes da inoculação. Esse período permite que o calcário reaja completamente com o solo, neutralize o alumínio tóxico e estabilize o pH.  

Inocular imediatamente após a calagem pode resultar em fracasso, pois o alumínio ainda não foi completamente neutralizado. 

A dose de calcário deve ser calculada com base na análise de solo, considerando a capacidade de troca catiônica (CTC) e o índice de saturação por alumínio. A meta é elevar o pH e reduzir a saturação por alumínio para menos de 10%.  

Após a calagem, o solo deve ser reanalisado para confirmar que o pH atingiu a faixa desejada antes de realizar a inoculação. 

Em solos com pH entre 5,0 e 5,5, a calagem ainda é recomendada, mas pode ser realizada com menor antecedência, desde que os teores de alumínio tóxico no solo não estejam muito elevados.  

Nesse caso, recomenda-se aplicar o bioinsumo 30 dias após a calagem, permitindo a estabilização do pH antes de expor fungos micorrízicos ao solo. 

Compatibilidade entre bioinsumos micorrízicos e adubação fosfatada 

Uma questão frequente entre produtores é a compatibilidade entrebioinsumos micorrízicos e adubação fosfatada. Em solos tropicais brasileiros, onde o fósforo disponível é frequentemente baixo mesmo após adubação, a colonização micorrízica é altamente responsiva e não é suprimida pela adubação fosfatada convencional.  

A recomendação prática é manter o fósforo disponível entre 5 e 15 mg/dm³ para otimizar a colonização micorrízica. Adubações fosfatadas muito altas (> 20 mg/dm³) devem ser evitadas se o objetivo é maximizar a colonização. 

Além disso, a forma de fósforo utilizada importa. Fosfatos solúveis (como superfosfato simples) reduzem mais a colonização do que fosfatos menos solúveis (como fosfato natural).  

Se a inoculação micorrízica é uma estratégia importante no manejo, considere usar fosfatos menos solúveis ou reduzir as doses de fosfato solúvel. 

Leia mais: Gessagem agrícola: como fazer e quais os benefícios para o solo 

Boas práticas para potencializar a colonização micorrízica no campo 

Maximizar a colonização micorrízica no campo exige uma abordagem integrada que considere o pH do solo, o manejo da rizosfera e a escolha de culturas responsivas.  

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.  

Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo.