O etanol de milho consolida sua presença nas usinas do Norte e Nordeste em um momento delicado para o setor sucroenergético da região. Enquanto a moagem de cana de açúcar segue em trajetória de queda, o corte na cota tarifária dos Estados Unidos para o açúcar brasileiro reduz ainda mais o fôlego das usinas nordestinas, que já vinham direcionando mais matéria-prima para a produção de biocombustível em detrimento do açúcar.

Levantamentos da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), com base em dados do Ministério da Agricultura, mostram que a moagem de cana no Nordeste recuou 1,4% na safra 2025/26, encerrada com 48,96 milhões de toneladas processadas até abril, ante 49,67 milhões na safra anterior. Somando Norte e Nordeste, a redução foi de 2%, para 55,93 milhões de toneladas. Apesar da retração na matéria-prima, a produção total de etanol nas duas regiões cresceu 2% no mesmo período, evidenciando a migração do mix produtivo para o biocombustível.

Etanol de milho puxa expansão da produção na região

O avanço do etanol de milho é um dos fatores que sustentam esse movimento. Segundo dados compilados por veículos do setor, a participação do etanol no mix produtivo do Norte saltou de 50,38% para 55,20% em um ano, enquanto a fatia do açúcar recuou de 49,62% para 44,80%.

Projetos de grande porte reforçam essa tendência estrutural:

  • Novas plantas de etanol de milho na Bahia devem processar cerca de 2 milhões de toneladas de grãos por ano, com capacidade estimada em 900 milhões de litros de etanol.
  • Os empreendimentos preveem geração de cerca de 2 mil empregos na fase de construção e 500 diretos por unidade em operação.
  • A expansão também deve impulsionar a produção de DDGS (subproduto usado na alimentação animal), com estimativa de 400 mil toneladas anuais, beneficiando a pecuária regional.

Consultorias como a Safras & Mercado projetam que a produção nacional de etanol de milho passe de 3,85 bilhões para 4 bilhões de litros na safra 2026/27, parte relevante desse crescimento concentrada fora do Centro-Sul, tradicional polo do biocombustível de grão.

Tarifa dos EUA aperta o cerco às usinas nordestinas

Ao mesmo tempo em que diversifica sua matriz produtiva, o setor sucroenergético do Norte e Nordeste enfrenta um novo obstáculo externo. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) confirmou o corte da cota tarifária preferencial destinada ao açúcar brasileiro, que cairá de 155.990 toneladas para 100 mil toneladas a partir do ano fiscal de 2027, iniciado em outubro. A redução, de 35,5%, incide exclusivamente sobre a parcela operada por usinas do Norte e Nordeste, conforme prevê a legislação brasileira.

Além do corte na cota, o produto segue sujeito a uma tarifa adicional de 25% dentro do regime preferencial, e de até 37,5% para volumes exportados fora da cota. A medida motivou reunião entre representantes do Sindaçúcar-PE e do Sindaçúcar-AL com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília, no fim de julho de 2026.

Segundo o presidente-executivo da NovaBio, Renato Cunha, ainda não há definição sobre a permanência do corte. Não está claro se a redução será temporária ou permanente, tampouco se o volume retirado do Brasil será redistribuído entre os demais 38 países beneficiados pelo sistema de cotas americano. O governo brasileiro, segundo ele, avalia buscar uma revisão dos parâmetros junto aos EUA.

O que isso significa para o setor

A combinação de menor moagem, mix mais voltado ao etanol e restrições ao mercado americano tende a reforçar, no curto e médio prazo, a dependência das usinas nordestinas do biocombustível como fonte de receita, num momento em que o açúcar perde competitividade tanto no mercado interno quanto externo. O impacto da redução da cota deve ser sentido principalmente em Alagoas e Pernambuco, estados historicamente mais expostos às exportações de açúcar para os Estados Unidos.

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