O mofo-branco causado por Sclerotinia sclerotiorum é um dos maiores desafios fitossanitários da sojicultura. O problema central está nos escleródios, estruturas de resistência que sobrevivem por até uma década no solo e mantêm o inóculo ativo mesmo na ausência da cultura hospedeira.
O controle químico atua predominantemente sobre a fase aérea da doença, sem reduzir de forma expressiva o inóculo acumulado no solo. Por isso, pesquisadores da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) investigam agentes biológicos capazes de atuar diretamente sobre os escleródios no solo.
Neste conteúdo, são apresentados os principais agentes biológicos antagonistas de S. sclerotiorum, seus mecanismos de ação, as condições de eficácia e as limitações no contexto tropical brasileiro, além de orientações para integrá-los ao manejo integrado do mofo-branco na soja.
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Por que Sclerotinia sclerotiorum permanece como um dos maiores desafios fitossanitários
Compreender por que o mofo-branco é tão difícil de controlar exige conhecer a biologia do patógeno em detalhe. Sclerotinia sclerotiorum possui um ciclo de vida complexo, com estruturas de sobrevivência e mecanismos de infecção que explicam tanto sua persistência no solo quanto sua agressividade na soja.
Anatomia do inimigo: como o patógeno completa seu ciclo destrutivo por meio de escleródios e apotécios
Sclerotinia sclerotiorum é um fungo necrotrófico de ampla gama de hospedeiros, com mais de 400 espécies vegetais suscetíveis catalogadas. Na soja, o ciclo de infecção inicia-se com a germinação dos escleródios presentes no solo.
Essa germinação pode ocorrer de duas formas: a miceliogênica, que produz micélio capaz de infectar diretamente tecidos em contato com o solo, e a carpogênica, que origina os apotécios, estruturas em forma de taça que liberam ascósporos no ar.
Os ascósporos são os principais agentes de infecção da parte aérea da planta, colonizando pétalas senescentes e, a partir delas, penetrando nos tecidos do caule e das vagens.
O período de florescimento da soja é a janela de maior vulnerabilidade, pois as pétalas caídas sobre o dossel funcionam como substrato nutritivo para a germinação dos ascósporos.
A partir daí, o fungo avança pelos tecidos, produzindo micélio branco característico e novos escleródios que retornam ao solo ao final do ciclo, perpetuando o inóculo.

Escleródios persistentes no solo: a raiz do problema que desafia o manejo sustentável
Os escleródios de S. sclerotiorum possuem uma cutícula melanizada que os protege contra condições adversas, conferindo-lhes longevidade documentada de cinco a dez anos no solo, com registros que podem ultrapassar esse intervalo em condições de baixa umidade e temperatura.
Essa característica torna o manejo de longo prazo extremamente desafiador: mesmo rotações de culturas com espécies não hospedeiras por dois ou três anos não são suficientes para eliminar o inóculo acumulado.
A cada novo ciclo de soja, os escleródios remanescentes retomam sua atividade, reiniciando o ciclo da doença.
Coniothyrium minitans: o hiperparasita que ataca escleródios na origem
Entre os agentes biológicos estudados para o manejo do mofo-branco, Coniothyrium minitans se destaca por atuar exatamente onde o problema começa: o escleródio no solo. Sua estratégia não é proteger a planta no momento da infecção, mas eliminar a fonte de inóculo antes que ela tenha chance de gerar apotécios e ascósporos.
Parasitismo direto como arma: como reduzir o inóculo primário antes da infecção
Coniothyrium minitans é um fungo hiperparasita que atua especificamente sobre os escleródios de Sclerotinia spp. no solo.
Seu mecanismo de ação envolve a colonização da superfície e do interior dos escleródios, degradando suas estruturas internas por meio de enzimas líticas e impedindo a germinação.
Estudos conduzidos em condições controladas demonstram que formulações de C. minitans aplicadas ao solo são capazes de reduzir significativamente a viabilidade dos escleródios, diminuindo a produção de apotécios e, consequentemente, a quantidade de ascósporos disponíveis para infecção da parte aérea.
A ação de C. minitans é, portanto, voltada à redução do inóculo primário no solo, atuando de forma preventiva e de longa duração. Esse agente biológico trabalha na fonte do problema, reduzindo a pressão da doença ao longo de múltiplas safras quando aplicado de forma consistente.
Eficácia comprovada versus realidade tropical: os limites do controle biológico
A temperatura ótima para o desenvolvimento e a atividade de C. minitans situa-se entre 14°C e 222°C, faixa característica de climas temperados. Nessas condições, o agente coloniza os escleródios com maior velocidade e eficiência.
No Brasil, as regiões produtoras de soja em altitude, como o sul do Cerrado, o Triângulo Mineiro, o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, apresentam temperaturas mais compatíveis com a atividade do hiperparasita, especialmente nos meses de outono e inverno.
Nas regiões tropicais de baixa altitude, com temperaturas médias superiores a 25°C, a eficácia de C. minitans é reduzida, pois o agente compete em desvantagem com a microbiota do solo adaptada ao calor.
Pesquisas conduzidas pela Embrapa indicam que a maioria das evidências de eficácia de C. minitans em condições de campo provém de países de clima temperado, e que as condições tropicais brasileiras exigem adaptações de protocolo, incluindo ajustes na época de aplicação e no tipo de formulação utilizada.
Trichoderma spp. e Clonostachys rosea: quando antagonistas trabalham em sinergia
Coniothyrium minitans não é o único antagonista biológico relevante no manejo do mofo-branco. Trichoderma spp. e Clonostachys rosea oferecem mecanismos de ação complementares, e sua combinação com agentes mais especializados pode ampliar a eficácia do controle biológico no contexto tropical brasileiro.
Tripla ação de Trichoderma: antibiose, micoparasitismo e competição por recursos
Trichoderma spp. são fungos de solo amplamente estudados como agentes de biocontrole contra diversos patógenos. No contexto de S. sclerotiorum, sua ação se dá por três mecanismos principais:
- Micoparasitismo: colonização e degradação das hifas e escleródios do patógeno por meio de enzimas como quitinases e glucanases;
- Antibiose: produção de metabólitos secundários com atividade fungistática que inibem o crescimento de S. sclerotiorum;
- Competição: ocupação de nichos ecológicos no solo e na rizosfera, reduzindo o espaço e os nutrientes disponíveis para o patógeno.
Trichoderma spp. apresentam maior tolerância a temperaturas elevadas do que C. minitans, o que os torna mais versáteis para uso nas condições tropicais brasileiras. Contudo, sua ação sobre os escleródios é menos específica e menos intensa do que a do hiperparasita especialista.
Clonostachys rosea versus C. minitans: diferenças no espectro de controle
Clonostachys rosea é outro fungo antagonista com atividade documentada contra S. sclerotiorum. Diferentemente de C. minitans, que atua quase exclusivamente sobre os escleródios, C. rosea apresenta um espectro de ação mais amplo, sendo capaz de parasitar tanto os escleródios quanto as hifas do patógeno em crescimento ativo.
Essa característica confere ao agente uma atuação em diferentes fases do ciclo da doença, complementando a ação de C. minitans em programas de manejo integrado.
Agentes de controle biológico de Sclerotinia spp.:
| Agente | Alvo no ciclo | Condição ótima | Redução de escleródios documentada | Limitação no Brasil |
| Coniothyrium minitans | Escleródios no solo | 14°C a 22°C | Alta (clima temperado) | Baixa eficácia em regiões tropicais quentes |
| Trichoderma spp. | Escleródios e hifas | 25°C a 30°C | Moderada | Ação menos específica sobre escleródios |
| Clonostachys rosea | Escleródios e hifas ativas | 15°C a 25°C | Moderada (dados predominantemente em condições controladas) | Pesquisas de campo ainda incipientes no Brasil, com a maioria dos dados de eficácia referentes a Botrytis spp. |
Construindo uma estratégia integrada: biológico, químico e cultural contra o mofo-branco
Nenhum agente biológico isolado controla o mofo-branco sozinho. A eficácia real surge quando o controle biológico é integrado a práticas químicas e culturais, dentro de um planejamento que respeita o momento de cada intervenção e as condições específicas de cada região produtora.
Posicionamento preventivo de C. minitans no solo antes da pressão
A aplicação de C. minitans deve ser realizada de forma preventiva, preferencialmente antes do plantio ou logo após a colheita, quando os escleródios recém-formados ainda estão na superfície ou nas camadas superficiais do solo.
Formulações granuladas, como as baseadas em alginato, favorecem a sobrevivência do agente no solo e sua distribuição uniforme. A incorporação superficial por meio de operações de preparo do solo pode ampliar o contato entre o agente e os escleródios-alvo.
Nas regiões de altitude do Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, onde as temperaturas são mais compatíveis com a atividade de C. minitans, a aplicação no período de outono e inverno, após a colheita da soja, representa a janela de maior potencial de eficácia.
Sinergia entre fungicidas, rotação e controle biológico para potencializar resultados
O controle biológico não substitui o fungicida no manejo do mofo-branco, mas atua como componente complementar que reduz a pressão de inóculo ao longo do tempo. A integração mais racional envolve:
- Aplicação de agentes biológicos no solo para redução do inóculo primário entre safras;
- Uso de fungicidas foliares nos estádios críticos de florescimento para proteção da parte aérea;
- Rotação de culturas com espécies não hospedeiras para reduzir a densidade de escleródios viáveis;
- Adoção de espaçamentos e densidades de plantio que favoreçam a aeração do dossel, reduzindo a umidade favorável à germinação carpogênica;
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O futuro do controle biológico de Sclerotinia em lavouras brasileiras
O biocontrole de Sclerotinia sclerotiorum nas condições tropicais e subtropicais do Brasil ainda é um campo em desenvolvimento. A maior parte das evidências de eficácia de C. minitans provém de ensaios realizados em países de clima temperado, como Reino Unido, Alemanha e Canadá, onde as condições de temperatura são mais favoráveis ao agente de controle biológico.
No Brasil, pesquisas conduzidas pela Embrapa e pelo IAC têm avançado na avaliação de protocolos adaptados às condições locais, incluindo ajustes de dose, época de aplicação e combinação com outros agentes biológicos.
A perspectiva mais promissora para o contexto brasileiro é o uso combinado de Trichoderma spp. e C. minitans em regiões de altitude, onde as temperaturas permitem a atividade de ambos os agentes.
Em regiões tropicais de baixa altitude, Trichoderma spp. e C. rosea tendem a apresentar melhor adaptação. Em todos os casos, o controle biológico deve ser encarado como um investimento de médio e longo prazo na redução do inóculo primário no solo, com resultados que se consolidam ao longo de múltiplas safras.
O avanço das pesquisas nacionais e a disponibilização de formulações adaptadas às condições brasileiras são fundamentais para que o controle biológico do mofo-branco se consolide como ferramenta efetiva no manejo integrado da sojicultura nacional.
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