A redução do crescimento radicular é um dos principais fatores que limitam a produtividade agrícola em solos de baixa fertilidade ou sob estresse hídrico. A capacidade de explorar  perfil do solo em profundidade torna-se determinante para o sucesso produtivo em condições adversas. 

O ácido indolacético (AIA), principal auxina natural das plantas, destaca-se como um dos mecanismos mais estudados de promoção do crescimento radicular, especialmente quando produzido por bactérias promotoras de crescimento (PGPR) presentes na rizosfera. A busca por estratégias baseadas nesse fitormônio tem impulsionado o desenvolvimento de inoculantes e bioestimulantes.Neste conteúdo, serão abordados os mecanismos de produção do AIA por bactérias, seus efeitos fisiológicos no sistema radicular, a aplicação em inoculantes e bioestimulantes  e as recomendações práticas para maximizar os benefícios desse fitormônio no manejo agrícola. 

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Ácido indolacético: a principal auxina natural e seu papel no desenvolvimento radicular 

O ácido indolacético (AIA) é reconhecido como a principal auxina natural das plantas, atuando como fitormônio central na regulação do crescimento e desenvolvimento vegetal.  

Suas funções mais relevantes para a produção agrícola são: 

  • Elongação celular: estimula o crescimento de tecidos jovens, especialmente nas regiões apicais das raízes. 
  • Formação de raízes laterais: promove o ramificação do sistema radicular, ampliando a exploração do perfil do solo. 
  • Desenvolvimento de pelos radiculares: aumenta a área de contato com o solo, potencializando a absorção de água e nutrientes. 

A presença de mais raízes e pelos radiculares é particularmente relevante em momentos de estresse hídrico,em que a disponilidade de água é limitada nas camadas mais superficiais do solol 

Bactérias da rizosfera e a produção de AIA: estratégias microbianas que impulsionam raízes 

Diversas bactérias associadas à rizosfera, conhecidas como PGPR (Plant Growth-Promoting Rhizobacteria), são capazes de sintetizar o AIA a partir do triptofano, aminoácido exsudado pelas raízes.  Entre as vias biossintéticas descritas, destacam-se a do indol-3-piruvato e a do indolacetamida, ambas dependentes da disponibilidade de triptofano no ambiente radicular. 

As principais bactérias produtoras de AIA com uso em inoculantes comerciais no Brasil são: 

Bactéria  Principais mecanismos  Uso agrícola no Brasil 
Azospirillum brasilense  Produção de AIA e fixação associativa de N₂  Inoculantes registrados para soja (coinoculação), milho, trigo, arroz e pastagens;  PGPR de uso mais consolidado no Brasil 
Bacillus spp.  Produção de AIA, solubilização de fósforo e antagonismo a fitopatógenos  Bioestimulantes e biocontrole em diversas culturas 
Pseudomonas spp.  Produção de AIA, sideróforos e supressão a fitopatógenos  Bioestimulantes, com uso frequente em hortaliças e culturas de alto valor 
Gluconacetobacter spp. Fixação associativa de N₂ e produção de fitormônios  Cana-de-açúcar e outras gramíneas 

A rizosfera é o ambiente ideal para a produção bacteriana de AIA, pois apresenta alta concentração de triptofano nos exsudados radiculares e condições favoráveis para a atividade das PGPR. As bactérias utilizam compostos orgânicos das raízes, enquanto as plantas recebem estímulos hormonais que favorecem o desenvolvimento radicular. 

Impactos fisiológicos do AIA microbiano no vigor e arquitetura radicular 

A produção de AIA por bactérias da rizosfera desencadeia uma série de respostas fisiológicas nas plantas. Os três efeitos mais documentados são: 

  • Aumento dos pelos radiculares: ampliam a superfície de contato com o solo, potencializando a absorção de água e nutrientes. 
  • Formação de raízes laterais: resulta em sistema radicular mais ramificado, contribuindo para uma maior exploração do perfil do solo. 
  • Elongação das raízes primárias: permite o alcance de camadas mais profundas, onde a disponibilidade de água tende a ser maior em períodos de déficit hídrico. 

 Publicações da Embrapa Soja e da Embrapa Milho e Sorgo com as estirpes Ab-V5 e Ab-V6 de Azospirillum brasilense documentam maior desenvolvimento do sistema radicular do milho, com raízes mais ramificadas e capazes de explorar volumes maiores de solo, o que se reflete em melhor aproveitamento de água e nutrientes. 

Close em raizes de plantas

Inoculantes e bioestimulantes à base de AIA: desafios de formulação e compatibilidade 

O uso de inoculantes contendo cepas bacterianas produtoras de AIA tornou-se prática consolidada no manejo agrícola brasileiro. As principais formulações disponíveis são: 

  • Inoculantes mistos (Azospirillum + Bradyrhizobium): combinam produção de AIA e fixação associativa de nitrogênio em culturas como soja, potencializando o desenvolvimento radicular e a nodulação simultaneamente. 
  • Bioestimulantes com Bacillus spp. ou Pseudomonas spp.: cepas selecionadas por alta produção de AIA e compatibilidade com diferentes culturas e sistemas de aplicação. 

A seleção de cepas leva em consideração a capacidade de produção de AIA, a sobrevivência na rizosfera e a compatibilidade com o tratamento de sementes. Recomenda-se sempre verificar a compatibilidade das formulações com fungicidas e outros defensivos antes da aplicação. 

AIA bacteriano no campo: evidências, benefícios e limitações observadas 

Os benefícios do uso de AIA produzido por bactérias são mais evidentes em situações de estresse: solos de baixa fertilidade, déficit hídrico ou compactação. Nessas condições, o aumento do sistema radicular proporciona maior resiliência e capacidade de recuperação das plantas. 

No entanto, o seu uso depende diretamente da sobrevivência e atividade das bactérias na rizosfera.  

Fatores como pH do solo, temperatura e umidade podem impactar na colonização bacteriana e, consequentemente, a produção de auxinas. A resposta das plantas ao AIA também pode variar conforme a espécie, o estádio de desenvolvimento e as condições ambientais, assim como práticas de manejo. 

Práticas  para potencializar o uso de inoculantes e bioestimulantes com AIA 

Para maximizar os benefícios do AIA bacteriano no campo, as seguintes práticas são recomendadas: 

  • Escolher inoculantes e bioestimulantes registrados com cepas  produtoras de AIA. 
  • Seguir as doses recomendadas em bula, respeitando o intervalo de segurança e as orientações específicas para cada cultura. 
  • Monitorar as condições de solo e clima para maximizar a sobrevivência das bactérias na rizosfera. 
  • Verificar a compatibilidade com fungicidas e outros defensivos antes de qualquer mistura ou aplicação conjunta. 

Bioestímulo radicular: tecnologia sustentável para elevar produtividade e resiliência agrícola 

O uso de AIA produzido por bactérias promotoras de crescimento representa uma estratégia inovadora e sustentável para potencializar o desenvolvimento radicular, ampliar a absorção de água e nutrientes e aumentar a resiliência das culturas diante de desafios ambientais. 

A combinação de Azospirillum brasilense com Bradyrhizobium em inoculantes mistos exemplifica como a ação do AIA e da fixação de nitrogênio podem ser integradas para gerar benefícios complementares na mesma aplicação.  

O avanço das pesquisas sobre novas cepas e formulações com maior estabilidade e colonização aponta para um horizonte em que os bioestimulantes à base de AIA poderão ser posicionados com ainda maior precisão. 

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