A economia circular no agronegócio propõe a transição do modelo linear para sistemas onde subprodutos e resíduos são reintegrados à cadeia como novos recursos. No campo, práticas como o reaproveitamento de biomassa e o uso de dejetos para biofertilização buscam otimizar o ciclo de nutrientes e reduzir a dependência de insumos externos.  

Embora a viabilidade dependa de fatores logísticos e escala, essa abordagem foca no aproveitamento máximo de cada ativo da propriedade. 

Acompanhe este artigo para entender como os princípios da economia circular podem ser aplicados na gestão da sua operação. 

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O que é economia circular aplicada ao agronegócio? 

A economia circular no agronegócio é um modelo de produção e consumo que busca estender a vida útil dos produtos e recursos, minimizando a geração de resíduos e a extração de matérias-primas virgens. 

Diferente do modelo linear tradicional (“extrair, produzir, usar e descartar”), a circularidade propõe que materiais e produtos sejam mantidos em uso por  maior tempo possível, através de ciclos de reuso, reparo, remanufatura e reciclagem.  

No contexto agrícola, isso significa, por exemplo, transformar coprodutos da lavoura em adubo orgânico ou bioenergia, valorizar resíduos de processamento de alimentos, otimizar o uso da água e dos nutrientes, e garantir a destinação correta de embalagens e outros insumos. É uma filosofia que enxerga o “lixo” como recurso, impulsionando a inovação e a eficiência em toda a cadeia de valor. 

Diferenças práticas entre sustentabilidade e o modelo de economia circular 

Embora frequentemente confundidos, sustentabilidade e economia circular são conceitos distintos, mas complementares.  

A sustentabilidade é um objetivo macro, que busca atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades, abrangendo dimensões ambientais, sociais e econômicas.  

Já a economia circular é uma das ferramentas mais eficazes para alcançar  a sustentabilidade, focando especificamente na gestão de recursos e na eliminação de resíduos e poluição, mantendo produtos e materiais em uso e regenerando sistemas naturais. 

Campo agrícola verdejante iluminado pelo sol, sobreposto por ícones digitais que representam tecnologia e gestão inteligente de recursos, simbolizando a integração da agricultura sustentável com princípios da economia circular e inovação tecnológica.

Benefícios da circularidade para a eficiência produtiva e rentabilidade 

A adoção de princípios da economia circular no agronegócio traz uma série de benefícios que se traduzem diretamente em ganhos de eficiência e rentabilidade para o produtor. Ao invés de ver a circularidade como um custo adicional, é fundamental enxergá-la como uma oportunidade estratégica para otimizar processos e criar fontes de receita.  

Fundação Ellen MacArthur desenvolveu um estudo específico sobre o Brasil, mostrando que a adoção de modelos de economia circular no país pode gerar ganhos expressivos de competitividade, redução de custos e criação de novos mercados, especialmente em setores como agricultura, cidades e indústria. 

Além disso, a reputação de práticas sustentáveis pode abrir portas para novos mercados e consumidores cada vez mais conscientes, valorizando produtos originados de cadeias produtivas responsáveis. 

1. Redução da dependência de insumos externos e custos operacionais 

Um dos pilares da economia circular é a otimização inteligente do uso de recursos. No campo, isso se reflete na gestão eficiente de insumos agrícolas, como fertilizantes e energia, que representam uma parcela significativa dos custos operacionais.  

Por exemplo, ao integrar resíduos orgânicos da própria fazenda em processos como compostagem ou produção de biogás, o produtor potencializa a eficácia dos insumos disponíveis – incluindo adubos sintéticos de alta performance –, reduzindo desperdícios e criando fontes complementares de nutrição e energia, o que aumenta a autossuficiência e a resiliência operacional. 

Práticas de reciclagem de nutrientes, aliadas ao uso estratégico de fertilizantes modernos, podem elevar a eficiência nutricional das culturas, gerando maior retorno sobre o investimento e fortalecendo a saúde financeira da propriedade frente a flutuações de mercado. 

Essa abordagem não só otimiza custos, mas também posiciona o agronegócio como mais competitivo e sustentável a longo prazo. 

Leia também: Como planejar a compra de fertilizantes para reduzir custos e aumentar a eficiência 

2. Transformação de passivos em ativos e produção de bioenergia 

A economia circular oferece uma perspectiva revolucionária: aquilo que antes era visto como “lixo” ou um passivo ambiental, agora pode se tornar um ativo valioso.  

Resíduos agrícolas como palha, bagaço de cana, dejetos animais e até mesmo casca de frutas e vegetais, que antes exigiam custos de descarte e manejo, podem ser transformados em bioprodutos, biofertilizantes, ração animal ou fontes de energia. 

A produção de biogás a partir de dejetos animais em biodigestores, por exemplo, gera energia elétrica e térmica para a propriedade e produz biofertilizante rico em nutrientes.  

Segundo pesquisas da Embrapa, a biomassa gerada no agronegócio brasileiro possui enorme potencial para contribuir significativamente com a matriz energética nacional, convertendo resíduos em fontes de energia renovável e gerando novas oportunidades de renda e sustentabilidade para produtores. 

Bagaço de cana

Estratégias e etapas para iniciar a transição para o modelo circular 

Iniciar a transição para a economia circular no agronegócio pode parecer desafiador, mas é um caminho cheio de oportunidades. Esse processo começa com a identificação dos fluxos de resíduos e subprodutos, tanto dentro da propriedade quanto na cadeia de valor. O objetivo é buscar soluções inovadoras para reintegrá-los ao sistema produtivo. 

Não há uma fórmula única, mas algumas estratégias são essenciais para essa jornada. A mentalidade deve ser “pensar no ciclo de vida” de cada insumo e produto, buscando maneiras de fechar esses ciclos e maximizar o valor dos recursos existentes. Parcerias com outras empresas e a busca por tecnologias inovadoras também são fundamentais para o sucesso dessa transição. 

Logística reversa e o sistema de destinação de embalagens vazias 

A logística reversa é um pilar da economia circular, especialmente no agronegócio brasileiro, com foco nas embalagens vazias de insumos agrícolas. O sistema gerido pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV) é um exemplo de sucesso. Criado em 2001, ele garante o recolhimento, lavagem e encaminhamento das embalagens para reciclagem ou incineração. 

Em 2022, o inpEV coletou mais de 50 mil toneladas de embalagens. Esse índice destaca a eficiência do sistema e a participação ativa dos produtores rurais, transformando resíduos em recursos reciclados. 

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) como vitrine de circularidade 

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) é uma das mais completas expressões da economia circular no agronegócio. Ao combinar cultivos agrícolas, pastagens e árvores na mesma área, o sistema otimiza o uso da terra, água e nutrientes.  

A palhada da lavoura alimenta o gado ou cobre o solo; os dejetos dos animais fertilizam as culturas; as árvores fornecem sombra, madeira e proteção. 

Essa sinergia reduz a necessidade de insumos externos, melhora a qualidade do solo e aumenta a produtividade. O ILPF é um exemplo robusto de como a circularidade funciona em grande escala no campo. 

O papel dos bioinsumos e o ciclo de nutrientes na agricultura 

Os bioinsumos, como biopesticidas, biofertilizantes e inoculantes, são essenciais para a economia circular na agricultura. Eles utilizam microrganismos ou substâncias naturais para controlar pragas, doenças e otimizar o uso de nutrientes no solo pelas plantas. 

Por exemplo, bactérias fixadoras de nitrogênio podem substituir fertilizantes nitrogenados, e fungos micorrízicos melhoram a absorção de fósforo e água. Além de reduzir a pegada ambiental, os bioinsumos promovem a saúde do solo e estimulam a ciclagem de nutrientes. 

O impacto do Plano ABC+ e o futuro da bioeconomia no Brasil 

Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC+), lançado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), é uma política pública fundamental que alinha as metas do agronegócio brasileiro com os princípios da economia circular e da bioeconomia. 

O plano incentiva a adoção de tecnologias e práticas sustentáveis, como o ILPF, o plantio direto, o tratamento de dejetos animais e a recuperação de pastagens degradadas, todas com forte componente circular.  

A meta é reduzir as emissões de gases de efeito estufa e promover a sequestro de carbono, ao mesmo tempo em que se aumenta a produtividade e a resiliência dos sistemas agrícolas.  

O Plano ABC+ não apenas direciona investimentos e incentivos, mas também pavimenta o caminho para um futuro em que a bioeconomia, centrada na utilização sustentável de recursos biológicos para produzir alimentos, energia e produtos industriais, seja a espinha dorsal do desenvolvimento rural, consolidando o Brasil como um líder global em produção agrícola circular. 

A adoção da economia circular no campo é um processo de refinamento da gestão, em que o foco reside em transformar passivos operacionais em ativos produtivos. Práticas como a logística reversa e a geração de energia a partir de resíduos não eliminam os riscos do setor, mas oferecem camadas extras de aproveitamento de recursos. 

O sucesso dessas estratégias depende da adaptação de cada propriedade às tecnologias disponíveis e da capacidade de integrar esses ciclos de forma economicamente viável no dia a dia. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.  

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