Créditos de carbono na agricultura apresentam potencial para sustentabilidade e geração de renda no Brasil. Entenda as oportunidades e desafios do mercado.
O debate sobre mudanças climáticas e descarbonização tem colocado o agronegócio no centro das discussões globais sobre sustentabilidade. Nesse cenário, os créditos de carbono surgem como uma oportunidade estratégica para o produtor rural brasileiro conciliar produção de alimentos, conservação ambiental e geração de valor econômico.
Mais do que um instrumento ambiental, o crédito de carbono representa um novo ativo associado ao manejo eficiente do solo, das lavouras, das florestas e das pastagens.
Neste conteúdo, você vai entender o que são os créditos de carbono no contexto do agronegócio, por que o setor é central no mercado brasileiro, como funciona o cenário regulatório, quais práticas podem gerar créditos e quais são as oportunidades e desafios para os produtores nos próximos anos.
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O que é crédito de carbono no agro?
O crédito de carbono é um certificado que representa a redução ou remoção de uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) da atmosfera. No contexto do agronegócio, esses créditos são gerados a partir da adoção de práticas agrícolas, pecuárias e florestais que comprovadamente reduzam a emissão de gases de efeito estufa (GEE) ou promovem o sequestro de carbono, armazenando-o no solo e na biomassa vegetal.
Na prática, o sistema de créditos de carbono funciona como um mecanismo de incentivo econômico à adoção de ações que contribuem para a mitigação das mudanças climáticas.
A geração desses créditos depende de processos rigorosos de Medição, Reporte e Verificação (MRV), que asseguram a credibilidade ambiental do projeto. Um conceito central nesse processo é a adicionalidade, que comprova que a redução ou remoção de carbono ocorre de forma voluntária e vai além das práticas já exigidas por lei ou comumente adotadas na região.
Segundo o especialista Guilherme Raucci, engenheiro agrônomo Gerente de Sustentabilidade Digital na Syngenta, “créditos de carbono talvez seja um dos temas mais falados recentemente no mundo todo. É uma super oportunidade para os produtores e para o agro brasileiro, mas como acontece com toda grande oportunidade, é preciso conhecer os conceitos dessa discussão.”

Por que o agro é central no mercado de carbono no Brasil?
O agronegócio brasileiro ocupa uma posição estratégica no mercado de carbono devido à sua dimensão territorial, diversidade de biomas e capacidade produtiva. Diferentemente da visão de que o setor é apenas emissor, a agricultura brasileira, quando bem manejada, atua como um dos maiores sumidouros naturais de carbono do planeta.
O solo é o maior reservatório de carbono terrestre, e práticas adequadas de manejo podem ampliar significativamente sua capacidade de estocagem. Sistemas como plantio direto, recuperação de áreas degradadas, reflorestamento e manejo sustentável de pastagens não apenas aumentam a produtividade, como também melhoram a saúde do ecossistema.
Esse potencial transforma propriedades rurais em ativos ambientais, posicionando o Brasil como um dos países mais promissores no mercado de carbono no agro.
Além de contribuir para a agenda climática global, o setor tem capacidade de atrair investimentos, gerar receita adicional e fortalecer a competitividade da agricultura brasileira em mercados cada vez mais exigentes do ponto de vista ambiental.
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Cenário atual do mercado de carbono no Brasil
O mercado de carbono no Brasil encontra-se em fase de rápida expansão, impulsionado tanto pelo mercado voluntário quanto pela expectativa de consolidação de um mercado regulado. Estimativas apontam para um crescimento expressivo nos próximos anos, com o país se consolidando como um dos principais players globais.
Segundo projeção da IMARC Group, o mercado brasileiro de créditos de carbono pode atingir cerca de US$ 114,8 bilhões até 2032, com taxa de crescimento anual composta de 29,8%.
Análises da Sylvera reforçam esse cenário, destacando o Brasil como um dos mercados voluntários mais relevantes do mundo, especialmente para projetos florestais e agrícolas.
A demanda por crédito de carbono agrícola também é impulsionada pela crescente adesão das empresas aos princípios de ESG (Ambiental, Social e Governança), que buscam compensar emissões e avançar em estratégias de descarbonização da cadeia produtiva do agronegócio.

Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE)
O Brasil tem avançado na construção de um arcabouço regulatório para estruturar um mercado de carbono mais previsível e seguro. O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) representa a principal iniciativa governamental nesse sentido, com o objetivo de criar um mercado regulado baseado em tetos de emissão para setores específicos e na negociação de cotas e créditos.
A expectativa é que as regras definitivas do SBCE sejam publicadas até o final de 2026, com início de operação plena entre 2030 e 2031. Para coordenar esse processo, foi criada a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, responsável pela formulação das políticas e pela definição dos critérios de geração, verificação e comercialização dos créditos.
A implementação do SBCE marca um avanço importante na agenda climática brasileira, trazendo maior segurança jurídica, escala e transparência ao mercado, com impactos diretos sobre a neutralidade de carbono no campo.
Como o agronegócio brasileiro pode gerar créditos de carbono?
A geração de créditos de carbono no agronegócio está diretamente associada à adoção de práticas sustentáveis que reduzem emissões ou aumentam o sequestro de carbono. Além dos benefícios ambientais, essas práticas contribuem para a produtividade, resiliência e eficiência dos sistemas agrícolas.
A validação científica dessas iniciativas é fundamental para garantir a mensuração correta dos impactos positivos, assegurando a integridade ambiental dos créditos gerados.
Sistema plantio direto
O sistema plantio direto é uma técnica conservacionista amplamente adotada no Brasil, caracterizada pela mínima mobilização do solo, pela manutenção da palhada na superfície e rotação de culturas. Esse sistema melhora a estrutura e a saúde física do solo, aumenta os teores de matéria orgânica e amplia sua capacidade de sequestro de carbono.
Além disso, ao reduzir operações mecanizadas, o plantio direto diminui o consumo de combustível e, consequentemente, as emissões de GEE. Projetos que comprovam incremento adicional no estoque de carbono ao longo do tempo podem ser elegíveis para a geração de créditos.
A combinação do plantio direto com rotação de culturas e plantas de cobertura potencializa o acúmulo de biomassa e favorece a atividade biológica do solo, ampliando os ganhos ambientais e agronômicos.

Reflorestamento
O reflorestamento de áreas degradadas, a recuperação de florestas nativas e a adoção de sistemas agroflorestais e de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) são estratégias altamente eficientes para a remoção de CO₂ da atmosfera. As árvores capturam carbono durante a fotossíntese e o armazenam na biomassa aérea e radicular.
Além do sequestro de carbono, essas práticas promovem benefícios adicionais como conservação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos e estabilidade climática. Projetos de reflorestamento bem estruturados e monitorados podem gerar volumes expressivos de créditos de carbono ao longo do tempo.
Recuperação de pastagens e solos
A recuperação de pastagens degradadas representa uma das maiores oportunidades para o mercado de carbono no Brasil. Pastagens em más condições contribuem para a perda de matéria orgânica do solo e para emissões elevadas de GEE.
A conversão dessas áreas em sistemas mais produtivos, como a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) ou Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), melhora a fertilidade do solo, aumenta a produtividade e eleva significativamente o sequestro de carbono. Sistemas integrados também ampliam a resiliência produtiva e reduzem riscos climáticos.

Certificações e metodologias
Para que os créditos de carbono agrícolas sejam reconhecidos e comercializáveis, os projetos precisam seguir metodologias certificadas por entidades reconhecidas, como Verra (VCS) e Gold Standard. Essas organizações estabelecem critérios rigorosos para MRV, assegurando a integridade ambiental dos créditos.
Durante a COP30, o Brasil anunciou a criação de uma certificadora nacional de créditos de carbono, o que tende a agilizar processos e fortalecer o mercado interno.
A escolha da metodologia e da certificadora depende do tipo de projeto e das exigências do mercado-alvo, sendo a credibilidade do processo um fator determinante para o valor dos créditos.
Projetos de crédito de carbono já vigentes no Brasil
Embora o tema tenha ganhado visibilidade recente, iniciativas de agricultura de baixo carbono já vem sendo desenvolvidas há mais de uma década. O Plano ABC, por exemplo, demonstra a relevância do Brasil na agenda climática global ao propor estratégias para redução de emissões e aumento da eficiência produtiva.
Outro exemplo é o Programa REVERTE®, da Syngenta, que incentiva a recuperação de áreas degradadas no Cerrado por meio de sistemas integrados de produção. A empresa também desenvolveu o Plano de Agricultura Sustentável, voltado ao fortalecimento de comunidades rurais e à consolidação de práticas sustentáveis em larga escala.
Quais critérios validam projetos de crédito de carbono no Brasil?
O crédito de carbono representa uma tonelada de CO2 equivalente (CO2eq) que deixou de ser emitida para a atmosfera, é, assim, a diferença entre o carbono gerado e o carbono sequestrado.
O crédito de carbono é um certificado emitido, com valor financeiro e comercializável, que comprova a redução da emissão de gases (se não é possível reduzir por meio de otimização de processos, é possível atingir as metas por meio de compra de créditos).
Com isso, se não bastasse a necessidade de frear as mudanças climáticas de maneira a impedir prejuízos na produção agrícola e valorizar as commodities do setor a longo prazo, há mais um ponto de interesse nos planos de sequestro de carbono: o rendimento financeiro. A depender da abrangência da estratégia, cada crédito de carbono tem um valor entre 15 e 60 dólares.
Projetos de sequestro de carbono para gerar créditos precisam seguir critérios a fim de serem aprovados pelos órgãos responsáveis. Segundo Raucci, os principais critérios que precisam de atenção no Brasil, são:
1. Adicionalidade: o projeto precisa superar as expectativas legislativas. O que já está na lei é obrigatório, os projetos privados devem ir além disso, assim, o plantio direto já é uma prática comum, portanto não responde ao critério de adicionalidade, embora o tema gere polêmica dentro das instituições.
2. Permanência: o projeto deve assegurar a garantia de que o carbono ficará retido por longo tempo, não podendo haver projeções de alterações no ambiente que devolvam esse carbono para a atmosfera.
No ciclo do carbono, o solo, maior reservatório de carbono do mundo, tem papel fundamental para o sequestro da molécula, e esse pode ser o foco dos projetos brasileiros, com a integração entre produção, manutenção de florestas e criação de animais, estratégia que tem potencial para diminuir as emissões.
“Acumular carbono no solo vai ser bom para gerar os créditos, mas também é bom para o sistema produtivo em si, e nós já sabemos fazer isso muito bem. Em um cenário de plantio direto na palha, há a capacidade de sequestrar de meia a uma tonelada de carbono por hectare por ano. É um potencial super expressivo”, comenta Raucci.

No infográfico acima, foram expostas algumas opções viáveis para que produtores brasileiros mantenham sua produtividade agrícola e submetam projetos para produzir créditos de carbono também em suas propriedades.
Oportunidades e desafios para os próximos anos
O mercado de créditos de carbono no agronegócio oferece oportunidades relevantes de diversificação de receita, agregando uma nova fonte de renda ao produtor rural. Além disso, a adoção de práticas sustentáveis valoriza a propriedade, melhora o acesso a financiamentos verdes e fortalece a imagem do produtor junto a mercados mais exigentes.
Por outro lado, existem desafios importantes, como:
- custos iniciais de implementação;
- complexidade dos processos de certificação;
- volatilidade dos preços dos créditos.
As exigências técnicas do MRV demandam conhecimento especializado, tecnologia e comprometimento de longo prazo para garantir adicionalidade e permanência do carbono estocado.
Perspectivas sobre o futuro dos créditos de carbono no agro
O futuro do crédito de carbono no agronegócio brasileiro é promissor, impulsionado pela consolidação regulatória, avanços tecnológicos e novos modelos de negócios. A criação de um mercado regulado, como o SBCE, trará maior estabilidade, enquanto o mercado voluntário seguirá em expansão.
A agregação de projetos por meio de cooperativas, associações e plataformas digitais tende a democratizar o acesso ao mercado, diluindo custos e ampliando o volume de créditos negociáveis. Tecnologias como blockchain, sensoriamento remoto e Inteligência Artificial devem transformar os processos de MRV, tornando-os mais eficientes, transparentes e acessíveis.
Esses avanços reforçam o papel do Brasil como protagonista global na bioeconomia e na sustentabilidade agrícola.
A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.
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