A virada climática está em curso. Depois de meses sob influência da La Niña, o Brasil se vê diante de uma dupla transformação: o enfraquecimento progressivo da fase fria do Pacífico e a chegada iminente do El Niño

Segundo dados da MetSul Meteorologia, a instalação de um novo episódio de El Niño deve ocorrer entre a segunda quinzena de maio e a primeira metade de junho, com tendência de ganho de intensidade ao longo do segundo semestre. 

Para o produtor rural, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, a mudança não é apenas meteorológica. É uma janela de risco agronômico que exige atenção redobrada ao planejamento das culturas de inverno e à janela de plantio do milho safrinha. 

O que os modelos climáticos indicam 

A NOAA (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA) registrou quatro semanas consecutivas com anomalias de temperatura da superfície do mar em patamar de El Niño, com valores entre 0,5°C e 0,9°C acima da média. Além disso, uma grande massa de água extremamente quente, com anomalias de até 8°C a 9°C acima da média até 200 metros de profundidade, começa a emergir na superfície, tendendo a intensificar o aquecimento do Pacífico equatorial nas próximas semanas. 

No plano atmosférico, o Índice de Oscilação Sul (SOI), que mede as diferenças de pressão entre o Taiti e Darwin, apresentou valores mais negativos nas últimas semanas, consistentes com uma transição para a fase quente do Pacífico. 

A tendência é de retorno às condições neutras primeiro, com posterior consolidação do El Niño, segundo modelos climáticos globais acompanhados pelo Canal Rural e Climatempo. 

O que muda para a agricultura brasileira 

A substituição da La Niña pelo El Niño altera o padrão de distribuição de chuvas no Brasil de formas distintas por região. Os principais impactos esperados para o campo: 

  • Sul: Excesso de chuvas no inverno eleva risco de giberela e ferrugem no trigo (janelas de fungicida comprimidas) e helmintosporiose na aveia, com qualidade de grãos comprometida por micotoxinas e menor peso hectolítrico; encharcamento favorece podridão radicular em ambas as culturas e atrasa colheita da soja, comprimindo a janela de plantio da safrinha e aumentando risco de déficit hídrico no enchimento do milho 
  • Centro-Oeste: Inverno mais seco concentra o risco no milho safrinha, com déficit hídrico no enchimento de grãos (R3-R4) podendo reduzir produtividade entre 20 e 40% em plantios de fevereiro em diante, além de pressão elevada de cigarrinha-do-milho (vetor de molicutes); na soja, veranicos em dezembro/janeiro afetam fixação de nódulos, enquanto algodão e cana-de-açúcar tendem a ter qualidade superior com o inverno seco 
  • Sudeste: Padrão irregular de chuvas prejudica a indução floral do café e aumenta bienalidade, com veranicos em outubro/novembro causando grãos chochos; cana-de-açúcar perde TCH nos veranicos de verão; citros sofrem floradas fora de época e maior pressão de Phytophthora; horticultura irrigada fica exposta a requeima e doenças de solo nos ciclos de molhamento intermitente 
  • Nordeste: Redução da ZCIT compromete as chuvas do semiárido, com queda de 30 a 50% na produtividade do milho sequeiro por veranicos na floração e maior pressão de lagartas em plantas estressadas; feijão-caupi resiste melhor mas sofre na floração e no enchimento, com aumento de pulgões e vírus do mosaico; algodão herbáceo torna-se inviável em anos de El Niño forte no sertão; fruticultura irrigada no Vale do São Francisco mantém produção mas com custo de bombeamento maior, podendo ter ganho de qualidade (brix, coloração) 

Como se preparar: recomendações de manejo 

Diante desse cenário, algumas ações práticas podem reduzir a exposição ao risco climático: 

  • Monitorar a umidade do solo semanalmente, especialmente em áreas de pivô e lavouras de sequeiro no Centro-Oeste 
  • Ajustar o manejo de irrigação com base em previsões de curto e médio prazo, evitando desperdício em períodos chuvosos e garantindo reserva hídrica para veranicos
  • Acompanhar boletins climáticos de fontes como MetSul, Climatempo e INMET, que oferecem previsões sazonais atualizadas
  • Revisar o seguro agrícola e verificar coberturas para eventos de seca, especialmente em municípios historicamente sensíveis ao El Niño
  • Conversar com o agrônomo de confiança para adequar doses de fertilizante e estratégias de proteção fitossanitária ao perfil de risco da estação 

Autoridade técnica em um momento de incerteza 

A transição ENSO (de La Niña para El Niño) não é novidade para a agricultura brasileira, mas cada episódio tem características próprias de intensidade e timing. A NOAA também passou a adotar um novo método de monitoramento, o RONI (Relative Oceanic Niño Index), que busca tornar o acompanhamento mais preciso em um planeta progressivamente mais aquecido. Isso significa que as previsões climáticas estão cada vez mais sofisticadas, e o produtor que as incorpora ao planejamento sai na frente. 

Informação climática qualificada é insumo. E neste segundo semestre que se aproxima, ela pode fazer a diferença entre uma safra de inverno segura e uma exposição desnecessária ao risco. 

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