Em menos de 72 horas, a Guerra no Oriente Médio entrou numa nova fase. Na manhã do último sábado (28), os Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã. A operação resultou, entre outras consequências, na morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país ao longo de quase quatro décadas.  

A resposta iraniana não tardou: mísseis e drones varreram o espaço aéreo de Israel, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita, deixando pelo menos 17 pessoas mortas, segundo o relatório da CNN Brasil

Para o produtor rural brasileiro, a notícia pode parecer distante geograficamente, mas os efeitos chegaram antes mesmo da abertura dos mercados: o petróleo disparou 13%, o dólar ampliou a pressão sobre o real e as rotas marítimas que transportam insumos essenciais passaram a operar sob risco.  

Neste artigo, explicamos o que está acontecendo, quanto tempo o conflito pode durar e qual é o impacto real para a safra brasileira de grãos nos próximos seis meses.

A guerra que mudou o Oriente Médio: entenda o conflito 

A Guerra no Oriente Médio tem raízes profundas no programa nuclear iraniano e na tensão permanente entre Teerã, Washington e Tel Aviv.  

Ao longo de semanas, diplomatas dos EUA e do Irã mantiveram negociações em Genebra, na Suíça. A terceira rodada acabou na quinta-feira dia 26 de fevereiro, com o Irã concordando formalmente em “nunca” enriquecer urânio além do permitido. Ainda assim, a ação militar foi deflagrada. 

A morte do aiatolá Khamenei e o vácuo de poder no Irã 

A morte de Khamenei representa o maior ponto de virada na história da República Islâmica desde a Revolução de 1979. Segundo a CNN Brasil, a Constituição iraniana prevê um conselho de liderança temporário de três membros enquanto o processo de escolha do novo líder supremo não é concluído. Ele é composto: 

  • pelo presidente Masoud Pezeshkian, 
  • pelo chefe do judiciário Gholamhossein Mohseni Ejei, 
  • e pelo clérigo aiatolá Alireza Arafi. Esse vácuo de poder é exatamente o tipo de instabilidade que os mercados financeiros mais temem. Sem um centro decisório claro, o risco de escalada acidental ou de ações impulsivas por grupos como o Hezbollah e as milícias apoiadas por Teerã torna-se muito maior. 

Países já atingidos pelos ataques iranianos 

País O que foi atingido Relevância para o Brasil 
Israel Abrigo em Beit Shemesh (9 mortes); nova onda de mísseis Baixa (relações comerciais limitadas) 
Arábia Saudita Refinaria de Ras Tanura atingida por drone Alta — principal hub de petróleo; destino de US$ 4,8 bi em exportações BR 
Emirados Árabes Hotel em Dubai; aeroporto de Abu Dhabi Alta — US$ 3,1 bi em exportações BR; hub financeiro 
Kuwait Base americana; 3 caças abatidos Média — rota de cargas e fretes 
Bahrein Edifício residencial perto de base da Marinha dos EUA Média — corredor logístico do Golfo 
Líbano Beirute e sul do país; represália ao Hezbollah Baixa — impacto indireto via instabilidade regional 

Quanto tempo vai durar a guerra? 

O próprio presidente Donald Trump forneceu a estimativa mais concreta disponível até agora: em declaração no domingo (1º), ele afirmou que o conflito com o Irã poderia durar “cerca de quatro semanas”. Analistas, porém, são mais cautelosos.  

Cenário 1 — Rápido (2 a 6 semanas) 

Trump cumpre a previsão. Novo líder iraniano negocia. Mercados se estabilizam em até 45 dias. 

Cenário 2 — Prolongado (3 a 6 meses) 

Disputa interna no Irã paralisa decisões. Hezbollah e outros grupos ampliam o front. Petróleo permanece acima de US$ 90. 

Cenário 3 — Escalada regional (+6 meses) 

Conflito se alastra para Iraque e Mar Vermelho. Estreito de Ormuz fechado parcialmente. Choque global de energia. 

Dólar em alta: o “insumo invisível” que pressiona o campo 

Para o setor agrícola, o câmbio funciona como o que especialistas chamam de “insumo invisível”: ele não aparece na nota fiscal, mas entra no custo de fertilizantes, defensivos, máquinas importadas e peças de reposição.  

Quando o dólar sobe, toda estrutura de custo das operações no campo se eleva automaticamente. 

Três forças que pressionam o real para baixo 

A análise publicada pelo Reconecta News identifica três vetores simultâneos de pressão cambial: (1) a percepção do Brasil como “mercado de risco”, que leva fundos internacionais a vender ativos brasileiros; (2) o aumento no custo de importação de insumos e tecnologia, que pressiona o fluxo cambial negativamente; e (3) a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) manter os juros altos nos EUA para conter a inflação gerada pela alta do  petróleo, o que reduz a atratividade do Brasil para o chamado carry trade

Impacto estimado do dólar no custo de produção agrícola 

Insumo / Item Exposição cambial Impacto com dólar +15% 
Fertilizantes nitrogenados (ureia) Alta +15% a +25% no custo por hectare 
Defensivos agrícolas (a.i. importados) Alta +10% a +18% dependendo do produto 
Diesel / frete rodoviário Média-Alta Frete de grãos pode subir 15% a 20% 
Máquinas e peças importadas Média +10% a +15% na reposição 
Exportações (soja, milho, carne) Positivo para receita em R$ Receita em reais aumenta, mas margens dependem do custo 

Atenção para o produtor: o dólar alto beneficia a receita das exportações em reais, mas esse ganho pode ser anulado se os custos de produção subirem na mesma proporção, especialmente no caso dos fertilizantes, que têm preço cotado em dólar no mercado internacional. 

Impacto no agronegócio brasileiro: análise setor a setor 

O Brasil exportou cerca de US$ 3 bilhões ao Irã em 2025, sendo 83,3% desse total composto por produtos do agronegócio. Além disso, os países do Golfo Pérsico agora atingidos (EmiradosÁ rabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein e Catar) somam outros bilhões em exportações agrícolas brasileiras. O campo não pode ignorar esse cenário. 

Milho: o elo mais sensível da cadeia 

O milho é, de longe, o produto agrícola brasileiro com maior exposição à crise. Cerca de 22% de todo o milho exportado pelo Brasil no ano passado teve como destino o mercado iraniano. 

 Segundo levantamento do Comex Stat compilado pelo Poder360, o cereal respondeu por 79,3% das exportações agrícolas brasileiras ao Irã em 2025, cerca de US$ 2 bilhões em um único destino. 

Se as sanções americanas de 25% sobre quem negociar com Teerã forem efetivamente aplicadas, exportadores brasileiros de milho ficam diante de um dilema impossível: manter contratos e pagar a tarifa, ou buscar novos mercados em tempo recorde. 

Fertilizantes: a ameaça ao custo de produção da safra 2026/27 

O Irã é produtor relevante de ureia e o Brasil importa diretamente cerca de 5% da ureia do país persa, mas o efeito da Guerra no Oriente Médio vai muito além do comércio bilateral. 

Como aconteceu em 2022 com a guerra na Ucrânia, o conflito elevou o preço global de todos os fornecedores, de Belarus à Rússia e do Golfo Pérsico ao Mar Negro. 

Uma interrupção prolongada no fornecimento pode encarecer os custos de insumos da safra brasileira 2026/27, com reflexos diretos na janela de plantio da safra verão que se inicia no segundo semestre deste ano. 

Açúcar e soja: impacto indireto via energia 

No mercado de açúcar, contratos futuros subiram entre 1% e 2% na abertura desta semana, impulsionados pelo preço da energia. A consultoria Hedgepoint projeta superávit global de 3,4 milhões de toneladas em 2026/27, o que deve limitar altas mais expressivas.  

Para a soja, o principal risco segue sendo logístico: a elevação dos fretes marítimos e dos seguros para rotas que passam pelo Golfo Pérsico. 

Pauta exportadora brasileira para o Oriente Médio (2025) 

Produto % das exportações à região Risco no cenário atual 
Milho não moído 20,8% Alto — sanções e perda de contratos com Irã 
Açúcares e melaços 17,4% Médio — alta de energia pressiona custos 
Carnes de aves 14,5% Médio — encarecimento logístico; demanda mantida 
Carne bovina 6,8% Médio — idem carnes de aves 
Farelos de soja 4,3% Baixo-Médio — substituível por outras rotas 
Soja em grão 2,3% Baixo — principal comprador é a China 

O Estreito de Ormuz: o ponto de maior risco para a economia global 

Nenhum elemento geográfico neste conflito importa mais para a economia mundial do que o Estreito de Ormuz, o corredor marítimo entre o Irã e a Península Arábica. Por ali transita 20% de todo o petróleo mundial. Um bloqueio, mesmo parcial e temporário causaria um choque de preços de combustíveis sem precedentes recentes. 

Analistas estimam que um bloqueio do Estreito de Ormuz poderia elevar o preço do barril de petróleo para além dos US$ 100, forçando a Petrobras a reajustar gasolina e diesel, com efeito cascata sobre o frete rodoviário que escoou toda a safra brasileira de grãos. 

Especialistas calculam que um aumento de 30% no diesel eleva o custo do frete de grãos entre 15% e 20%, reduzindo diretamente a margem do produtor. 

O que o produtor rural deve fazer nos próximos 6 meses 

O cenário com os novos desdobramentos da Guerra no Oriente Médio é de incerteza, mas não de paralisia.  

Há ações concretas que o produtor rural pode tomar agora para se proteger e posicionar estrategicamente sua operação antes que os efeitos do conflito se aprofundem. 

Gestão de insumos: compre com antecedência ou diversifique fornecedores 

Com fertilizantes em risco de alta, a recomendação dos especialistas é escalonar compras e considerar a diversificação de fornecedores, priorizando países fora do corredor do Golfo Pérsico.  

Para a safra de verão 2026/27, cuja janela de plantio começa em outubro, o momento para travar contratos de insumos é agora. 

Comercialização: proteção cambial é essencial 

Para quem tem produção a vender o dólar em alta pode parecer tentador para adiar negociações na esperança de um câmbio ainda mais favorável. Mas a mesma volatilidade que eleva o dólar pode revertê-la rapidamente. 

Por isso, a recomendação de gestores de risco é não apostar tudo em um único cenário. 

Monitoramento das rotas de exportação 

Produtores que exportam diretamente ou têm contratos com tradings devem acompanhar de perto o fechamento de portos no Golfo e as alternativas logísticas. A experiência anterior como nas tensões no Mar Vermelho em 2024 mostra que crises geopolíticas na região não derrubam a demanda por alimentos, mas elevam os custos de entrega, prêmios de risco e prazos. 

Checklist de ações para o produtor rural nos próximos 90 dias 

Ação Prazo recomendado Prioridade 
Travar contratos de fertilizantes para safra 26/27 Imediato a 30 dias Alta 
Revisar exposição cambial e contratar hedge Imediato a 15 dias Alta 
Avaliar estoques de diesel e combustíveis na propriedade Imediato Alta 
Consultar trading sobre rotas alternativas de exportação 30 dias Média 
Monitorar preço internacional de fertilizantes semanalmente Contínuo Média 
Diversificar canais de venda para mercados fora do Oriente Médio 60 a 90 dias Média 

Perspectivas para os próximos 6 meses: o que esperar? 

O horizonte de curto prazo é de volatilidade elevada em todas as variáveis que importam para o campo. A Petrobras ainda não sinalizou reajuste imediato nos combustíveis, mas analistas ouvidos pela InfoMoney apontam que a pressão sobre a gasolina e o diesel tende a crescer caso o barril de petróleo se consolide acima de US$ 90. 

Do lado positivo, o Brasil tem reservas internacionais bilionárias que o Banco Central pode mobilizar para conter eventuais disparadas do dólar. Além disso, o governo monitora ativamente o mercado cambial para não comprometer as metas de inflação de 2026. E, em crises anteriores na região, a demanda global por alimentos não foi interrompida, apenas ficou mais onerosa e imprevisível. 

A grande variável que ninguém consegue controlar é a duração do conflito. Se a guerra durar mais que quatro semanas, o impacto no campo será direto. Fertilizantes ficam mais caros. O frete sobe. O câmbio pressiona custos. As exportações agrícolas perdem previsibilidade. 

Num conflito de três a seis meses, o produtor brasileiro não pode esperar. Gestão de risco deixa de ser opcional. Vira necessidade. 

Fique por dentro: Acompanhe as atualizações sobre a safra brasileira 2026, preços de insumos e análises de mercado diretamente no Mais Agro. As melhores decisões de campo começam com a melhor informação. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo.