El Niño deve trazer desafios distintos para as diferentes regiões produtoras do Brasil na próxima safra de grãos de verão, e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) defende que o enfrentamento do fenômeno comece antes mesmo da semeadura da soja e do milho. Segundo a instituição, práticas adotadas ainda no período de entressafra podem reduzir significativamente os impactos do clima mais extremo sobre as lavouras. 

Efeitos variam conforme a região do país 

O cenário climático projetado não é uniforme. No Sul, a expectativa é de chuvas acima do normal, o que aumenta o risco de erosão do solo e cria condições mais favoráveis à ocorrência de doenças. Já no Norte e no Nordeste, a tendência é oposta: chuvas mais escassas e irregulares, com risco de falta de água em fases importantes do desenvolvimento das plantas. 

Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, a Embrapa avalia que os efeitos do fenômeno tendem a ser menos intensos na próxima safra de soja, mas ainda assim recomenda atenção e a adoção das mesmas práticas sugeridas para as demais regiões do país. 

Recomendação geral: respeitar o zoneamento e investir em cobertura do solo 

Independentemente da região, a orientação central dos pesquisadores da Embrapa é respeitar rigorosamente as janelas de semeadura indicadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para soja e milho. Além disso, o uso de plantas de cobertura ainda no inverno é apontado como uma das medidas mais importantes para preparar o solo diante do El Niño. 

Outras estratégias recomendadas de forma geral incluem: 

  • Semeadura escalonada, para não concentrar todo o desenvolvimento das plantas em uma mesma fase; 
  • Uso de cultivares de diferentes ciclos, distribuindo os riscos climáticos ao longo da safra; 
  • Monitoramento mais frequente das lavouras, já que mudanças no regime de chuvas também alteram a ocorrência de pragas e doenças. 

No Sul, foco em erosão, manejo do solo e doenças fúngicas 

José Renato Rebouças Farias, pesquisador da Embrapa Soja, em Londrina (PR), destaca que a erosão hídrica severa é um dos principais riscos do El Niño na região Sul. Para conter esse efeito, ele recomenda a implantação de plantas de cobertura já no inverno, com palhada de centeio, aveia ou nabo forrageiro, formação vegetal capaz de amortecer o impacto direto da chuva sobre o solo. 

Entre as práticas voltadas ao manejo de água na lavoura, destacam-se: 

  • Semeadura em nível, acompanhando as curvas de contorno do terreno para reduzir a velocidade do escoamento superficial e favorecer a infiltração de água no solo; 
  • Uso de terraços, que ajudam a garantir a drenagem superficial e reduzem o impacto da declividade do terreno. 

O excesso de chuva também exige mais racionalidade no manejo fitossanitário, já que dificulta as pulverizações para controle de pragas, plantas daninhas e doenças. Segundo Farias, aplicações fora do momento adequado representam desperdício de recursos para o produtor. 

A combinação de mais chuva, calor e curtos períodos de sol favorece ainda a incidência de doenças fúngicas na soja e no milho. A Embrapa recomenda monitoramento reforçado para identificar precocemente problemas como ferrugem-asiática, mofo-branco, mancha-alvo, antracnose e doenças de final de ciclo na soja, além de cercosporiose, mancha-branca, helmintosporioses e podridões no milho. 

A ferrugem-asiática da soja recebe atenção especial. Segundo Leila Costamilan, pesquisadora da Embrapa Trigo (RS), o acompanhamento das condições ambientais favoráveis à doença e dos primeiros relatos de ocorrência é essencial para definir o momento certo do controle químico. Outras medidas recomendadas incluem o cumprimento do vazio sanitário, a semeadura de cultivares precoces logo no início da época indicada e o uso de cultivares com genes de resistência. 

No Norte e no Nordeste, o desafio é a escassez de água 

Nas regiões Norte e Nordeste, o principal risco associado ao El Niño é a falta de água para as culturas de verão. Segundo Farias, o uso de plantas de serviço como braquiária, milheto e crotalária ajuda a formar palhada que aumenta a infiltração de água no solo, reduz a evaporação e diminui a temperatura do solo. 

O manejo fitossanitário da soja também pede atenção redobrada nessas regiões. Maurício Meyer, pesquisador da Embrapa Soja, explica que a redução e a irregularidade das chuvas costumam reduzir a ocorrência de doenças foliares, mas por outro lado dificultam o controle de plantas daninhas e favorecem pragas como a mosca-branca, o que reforça a importância do monitoramento constante para orientar a aplicação de defensivos no momento certo. 

A semeadura escalonada e o uso de cultivares de ciclos diferentes voltam a ser recomendados nessas regiões, já que evitam que toda a lavoura seja atingida de forma igual em caso de eventos climáticos extremos. 

Sudeste e Centro-Oeste também merecem atenção, apesar de efeitos mais brandos 

Embora a expectativa seja de impactos menos intensos nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, a Embrapa não recomenda relaxar os cuidados. Segundo Farias, o El Niño pode provocar temperaturas mais altas, menor umidade do ar e atraso no início das chuvas para a safra de verão no Centro-Oeste, cenário que reforça a importância de adotar as mesmas práticas preventivas indicadas para as demais regiões do país. 

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