A guerra iniciada pelos Estados Unidos contra o Irã no final de fevereiro já traz impactos significativos para o agro brasileiro, como o diesel em falta em diversas regiões do país.
O diesel em falta em muitas transportadoras tem gerado reclamações por produtores rurais sobre o estacionamento de safras. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a colheita de soja e o plantio da safrinha de milho têm sido impactadas.
O preço do óleo diesel sofreu um aumento de mais de R$ 2 reais para os produtores sul-mato-grossenses, que ainda assim têm enfrentado dificuldades na hora de obter o produto. O preço do diesel nas grandes distribuidoras estava em R$ 5,20 em fevereiro, mas agora está em R$ 7,50 – para o distribuidor.
Nesta semana, todavia, as grandes distribuidoras da região, como Shel, Ipiranga e Petrobras, estavam desabastecidas. Vale lembrar que o plantio da safrinha já vem enfrentando um atraso de 18 pontos percentuais nos últimos meses, e fenômenos climáticos que se avizinham, como o El Niño, têm aumentado a preocupação dos produtores.
No Rio Grande do Sul, o problema também persiste, atrapalhando as colheitas de arroz e de soja. O diesel em falta gerou uma nota da Federação de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), com o relato de queixas recorrentes de agricultores gaúchos.
O atraso na colheita expõe as lavouras a percalços em uma região que já vem sendo impactada por prejuízo significativo em razão de perdas ocasionadas por eventos climáticos.
De acordo com a Farsul, as refinarias deixaram de fornecer a distribuição do diesel sem aviso prévio, e medidas cabíveis judiciais já têm sido estudadas para a retomada do abastecimento local.
Por esta razão, muitos maquinários estão totalmente paralisados ou operando parcialmente, gerando atrasos significativos que já podem ser sentidos pelos produtores rurais.
Tensão geopolítica internacional como agente do diesel em falta
No final de fevereiro, o governo dos Estados Unidos capturou e matou o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, razão que deu início a uma nova guerra entre os países americano e do Oriente Médio. A tensão bélico-militar internacional traz um cenário preocupante para o agro brasileiro, a saber:
Tensão geopolítica
Com os conflitos recentes (especialmente envolvendo grandes produtores de petróleo ou rotas de escoamento), o preço do barril tipo Brent dispara no mercado global. Como a Petrobras segue (ainda que com ajustes) a paridade de importação, qualquer instabilidade lá fora vira reajuste na bomba aqui.
Dólar pressionado
O diesel é uma commodity cotada em dólar. Quando o real se desvaloriza, o custo de importação do combustível sobe imediatamente. Para o produtor, é um golpe duplo: ele paga mais caro no diesel e também nos fertilizantes e defensivos, que também são dolarizados.
Gargalos de distribuição
O Brasil ainda é extremamente dependente do transporte rodoviário. Problemas de logística, falta de infraestrutura e custos elevados de frete encarecem o deslocamento do combustível das refinarias/portos até as regiões produtoras (como o Centro-Oeste ou o Sul).
O impacto na ponta
O diesel representa cerca de 15% a 25% do custo operacional de uma safra. Quando ele sobe, tudo sobe: o preparo do solo, o plantio, a colheita e, principalmente, o frete para levar o grão até o porto. Isso reduz a margem de lucro do agricultor e acaba pressionando a inflação dos alimentos para o consumidor final.
Dimensão do problema no RS
Segundo levantamentos de sindicatos rurais, cerca de 15% da área total projetada para esta etapa está com máquinas desligadas devido à combinação de excesso de umidade e, principalmente, a dificuldade logística de abastecimento.
- Regiões afetadas: Pelotas (arroz), Santa Maria (soja/arroz), Ijuí e Cruz Alta (soja).
- Impacto nas culturas: a soja apresenta perda de peso do grão e risco de brotamento, enquanto o arroz traz aumento de índice de grãos quebrados.
O Rio Grande do Sul é, hoje, o principal produtor de arroz do país, concentrando 70% da produção nacional do alimento. Além da pressão sobre o diesel, outros problemas preocupam os agricultores gaúchos, já que o calendário agrícola local é mais tardio em função das condições climáticas.
No caso específico do arroz, a colheita acontece dentro de uma janela consideravelmente curta. Projeções recentes da CONAB indicam que a produção brasileira deve cair 13% na safra 2025/2026, em um montante de 11 milhões de toneladas do cereal.
Em nota, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) informa já estar ciente das dificuldades pontuais na compra de diesel por agricultores no RS, mas alega que os estoques são suficientes para promover o abastecimento.
Cenário no MT
Maior produto de soja e de milho do país, o Mato Grosso do Sul monitorou uma alta de 29% no preço do diesel nos últimos dias. O momento é especialmente crítico, já que estamos diante da colheita da primeira safra e do plantio simultâneo da segunda.
Apesar de ainda não existir notificação oficial de plantio paralisado por falta de maquinário, o bolso do produtor e dos consumidores já sente o peso da alta do combustível.
Além disso, até o dia 19 de março, o MT havia colhido 96,42% da área de soja, um ritmo considerado lento quando comparado ao ciclo anterior. Já no milho, o cultivo atingiu 93,68% da área planejada. Há um receio de que qualquer desabastecimento provoque um entrave no avanço de semeadoras e colheitadeiras, agravando os problemas impostos pelas chuvas excessivas na região.
O que esperar do cenário?
A normalização do abastecimento e a estabilidade dos preços dos insumos são urgentes para garantir o escoamento da safra recorde. A longo prazo, a saída reside na resiliência do sistema produtivo. Tecnologias e manejo integrado, como as desenvolvidas pela Syngenta, vêm sendo apontadas por especialistas como ferramentas para reduzir a necessidade de replantio e otimizar operações agrícolas, mitigando riscos logísticos em safras futuras.
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