As perdas causadas por pragas de grãos armazenados representam um desafio significativo para a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro. Nesse cenário, o gorgulho-do-trigo emerge como uma das principais ameaças à qualidade e ao volume do estoque, demandando atenção constante e estratégias de manejo eficazes. 

Compreender a biologia, os danos e as soluções para o controle dessa praga é fundamental para produtores de trigo, responsáveis por armazéns e silos, técnicos de cooperativas e profissionais de pós-colheita das regiões triticolas do Brasil, especialmente Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul. 

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Quem é o gorgulho-do-trigo e como ele age no armazenamento 

Para estruturar um programa de controle eficaz, é fundamental conhecer a biologia das espécies envolvidas, como se reproduzem e quais condições favorecem sua proliferação em silos e armazéns. 

Biologia e ciclo de vida de Sitophilus spp. 

As espécies Sitophilus granarius e Sitophilus oryzae, comumente conhecidas como gorgulhos ou carunchos, são as principais responsáveis pelos danos no trigo armazenado, na qualidade e no vigor das sementes

A fêmea adulta perfura o grão, deposita um ovo e fecha o orifício com uma secreção gelatinosa, tornando-o praticamente invisível. A larva se desenvolve dentro do grão, passando pelos estágios de pupa até emergir como adulto. 

Esse ciclo leva de 4 a 6 semanas em condições ideais de temperatura e umidade. Os adultos vivem por vários meses, reproduzindo-se continuamente, podendo ocorrer de 4 a 6 gerações anuais.  

Condições que favorecem a infestação em silos e armazéns 

As principais condições que favorecem a proliferação da praga são: 

  • Temperatura entre 25°C e 30°C: faixa ideal para o desenvolvimento acelerado da praga. 
  • Umidade relativa acima de 70% e grãos com umidade acima de 13%: criam ambiente propício para a infestação e proliferação de fungos que atraem pragas. 
  • Resíduos de safras anteriores: restos de grãos, poeira e falta de limpeza nas estruturas de processamento e armazenamento permitem que populações residuais sobrevivam e se estabeleçam rapidamente em novos estoques. 
  • Armazéns com frestas e rachaduras: facilitam a entrada e a disseminação dos insetos para a massa de grãos. 

Danos causados pelo gorgulho-do-trigo aos estoques 

Os danosdo gorgulho-do-trigo vão muito além da simples presença de insetos nos grãos, afetando tanto a quantidade quanto a qualidade do produto armazenado. 

Perdas quantitativas e qualitativas nos grãos 

As perdas quantitativas resultam do consumo direto do grão pelas larvas, que se alimentam do endosperma. Isso causa a diminuição do peso hectolítrico (PH) e do volume da massa de grãos, gerando prejuízos no momento da venda. 

 Grãos perfurados e esvaziados têm seu valor de mercado depreciado ou são totalmente rejeitados. 

As perdas qualitativas incluem comprometimento da germinação das sementes, alteração da composição química dos grãos com redução de proteínas e carboidratos, aumento da acidez e contaminação do lote por insetos vivos ou mortos e seus excrementos, afetando a qualidade da farinha e dos subprodutos. 

Impacto na comercialização e no valor do produto 

Lotes infestados por gorgulhos são penalizados financeiramente, pois a indústrias alimentícias impõem padrões rigorosos de pureza e integridade dos grãos. Além da perda direta de valor, há custos adicionais com tratamentos corretivos emergenciais, geralmente mais caros e menos eficientes do que as medidas preventivas. Em casos severos, o lote pode ser descartado, resultando em perda total do investimento. 

Macro de gorgulho de trigo em sementes de cereais secas infestadas com gorgulho de celeiro

Prevenção: como evitar a infestação antes e durante o armazenamento 

A prevenção é a estratégia mais eficaz e econômica para controlar o gorgulho-do-trigo. Implementar um conjunto de práticas antes e durante o período de estocagem minimiza drasticamente os riscos de infestação. 

Limpeza e preparo das estruturas de armazenagem 

limpeza rigorosa das estruturas é o primeiro e mais importante passo na prevenção. Armazéns e silos devem ser esvaziados completamente e limpos para remover restos de grãos, poeira e detritos de safras anteriores, que podem abrigar ovos, larvas ou adultos de gorgulhos. 

A limpeza deve incluir varredura, aspiração e lavagem de paredes, pisos e tetos. Rachaduras e frestas devem ser reparadas para eliminar possíveis esconderijos da praga e impedir sua entrada.  

Após a limpeza, o tratamento preventivo da estrutura vazia com inseticidas aprovados pode ser recomendado antes de receber a nova carga, criando uma barreira protetora inicial. 

Controle de temperatura e umidade como barreiras à praga 

Grãos colhidos e armazenados com umidade acima de 13% são mais suscetíveis à infestação e à proliferação de fungos. A umidade deve ser monitorada e controlada constantemente. 

aeração dos silos é uma técnica essencial para manter a temperatura da massa de grãos abaixo de 15°C, o que inibe o desenvolvimento dos gorgulhos. A utilização de termometria e higrometria no monitoramento contínuo permite identificar pontos de calor ou umidade excessiva, que indicam atividade de pragas ou degradação da massa de grãos. 

Monitoramento de gorgulho em silos e armazéns 

Mesmo com as melhores práticas preventivas, o monitoramento constante é indispensável para detectar a presença da praga o mais cedo possível. Um programa de monitoramento bem estruturado deve ser parte integrante do Manejo Integrado de Pragas (MIP) em armazenamento. 

Métodos e ferramentas de monitoramento 

Os principais métodos e ferramentas para monitorar a presença de gorgulhos em grãos armazenados incluem: 

  • Inspeção visual: verificação regular da superfície da massa de grãos, das paredes dos silos e áreas adjacentes, observando presença de insetos adultos, poeira ou grãos danificados. 
  • Armadilhas de fundo (embutidas na massa de grãos): capturam insetos que se movem pelo interior do silo. 
  • Armadilhas de superfície: tipo “pitfall”, posicionadas na superfície da massa de grãos. 
  • Armadilhas com feromônios: atraem especificamente os machos de algumas espécies de Sitophilus, permitindo detecção precoce. 
  • Amostragem com caladores: coleta de amostras em diferentes profundidades da massa de grãos para verificar a presença de insetos internos e externos. 

Frequência de inspeção e tomada de decisão 

Recomenda-se que as inspeções sejam realizadas semanalmente. Em períodos mais frios ou para grãos armazenados a frequência pode ser Menor. 

A tomada de decisão sobre a necessidade de controle é baseada nos resultados do monitoramento: níveis de infestação que excedem o limiar de ação indicam a necessidade de intervenção imediata. 

A identificação da espécie do gorgulho e a extensão da infestação são cruciais para a escolha do método de controle mais adequado, evitando aplicações desnecessárias e otimizando recursos. 

Uso de inseticidas de grão e fumigação no controle do gorgulho 

Quando o monitoramento indica uma infestação ativa, o uso de inseticidas e a fumigação tornam-se ferramentas essenciais. É crucial que esses métodos sejam aplicados corretamente, seguindo as recomendações dos fabricantes e as regulamentações do MAPA.  

A segurança dos operadores e a qualidade dos grãos devem ser prioridade. 

Inseticidas protetores de grãos: grupos, aplicação e eficácia 

Os inseticidas protetores de grãos são aplicados diretamente sobre os grãos, formando uma camada protetora que impede a infestação ou elimina insetos presentes. São ideais para o tratamento preventivo de grãos que serão armazenados por períodos prolongados ou em sacaria. 

Existem diferentes grupos químicos com ação protetora, como organofosforados e piretroides. A aplicação deve ser feita de forma homogênea, geralmente na correia transportadora, para garantir distribuição uniforme.  

Consulte sempre o MAPA Agrofit para os produtos registrados para grãos de trigo armazenados e respeite o período de carência. 

Fumigação com fosfina: quando usar e cuidados obrigatórios 

A fumigação é um método curativo altamente eficaz para eliminar infestações em grandes volumes de grãos, especialmente quando a praga já se encontra em estágios internos (ovos, larvas, pupas). A fosfina é o fumigante mais utilizado para essa finalidade. 

A aplicação deve ser realizada em armazéns ou silos vedados, garantindo a concentração adequada do gás. A exposição mínima para eliminação de todas as fases da praga é de 7 dias, quando a temperatura dos grãos está acima de 25°C, ou de 10 dias entre 15°C e 25°C, associada às concentrações mínimas eficazes conforme o rótulo do produto e as normas do MAPA 

A fosfina é um gás tóxico e sua aplicação exige treinamento especializado, uso de EPIs adequados e cumprimento rigoroso das normas de segurança. Além disso, a área deve ser sinalizada e isolada durante a fumigação, e a aeração completa deve ser garantida antes da reentrada de pessoas. 

Estratégias de controle do gorgulho-do-trigo no armazenamento 

Estratégia Método/técnica Momento Observações de segurança 
Prevenção Limpeza da estrutura Antes do novo armazenamento Uso de EPIs básicos (luvas, máscaras) na limpeza. Reparar frestas e rachaduras. 
Prevenção Controle de temperatura e umidade Durante todo o armazenamento Monitoramento contínuo com termometria e higrometria. Aeração adequada da massa de grãos. 
Prevenção Inseticidas de contato estrutural Após limpeza, antes da carga Ler rótulo, utilizar EPIs, garantir ventilação adequada, respeitar período de reentrada. 
Proteção de grãos Inseticidas protetores Durante o carregamento (correia transportadora) Uso de EPIs, calibração do equipamento, dose correta, respeitar período de carência. 
Controle curativo Fumigação com fosfina Infestação confirmada, silos vedados EPIs completos obrigatórios, treinamento especializado, área isolada e sinalizada, aeração total antes da reentrada. 

Fonte: Embrapa; MAPA/Agrofit; literatura técnica de manejo de grãos armazenados. Recomendações baseadas em protocolos de Manejo Integrado de Pragas (MIP) em pós-colheita. 

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