A ferrugem do cafeeiro, causada pelo fungo Hemileia vastatrix, é a principal doença da cultura no Brasil, causando perdas expressivas de produtividade e impactando diretamente a rentabilidade dos cafeicultores. Seu controle eficaz é um dos pilares para a sustentabilidade da cafeicultura nacional. 

Discussões sobre a possível redução da eficácia dos fungicidas triazóis no controle da ferrugem têm surgido no setor.  

Este conteúdo aborda as observações de campo, as evidências disponíveis no Brasil e as estratégias de adaptação do programa de controle para preservar a eficiência dos insumos disponíveis. 

Leia mais: 

Hemileia vastatrix: biologia e importância para a cafeicultura brasileira 

Para compreender os riscos de resistência e adaptar o programa de controle, é necessário entender como o fungo se comporta, quais condições favorecem seu desenvolvimento e qual é o impacto histórico da doença na cafeicultura do país. 

Ciclo da doença e condições favoráveis 

O ciclo da ferrugem do cafeeiro é diretamente influenciado por condições climáticas. O fungo Hemileia vastatrix se desenvolve melhor em temperaturas entre 21°C e 24°C, com umidade relativa acima de 90% e molhamento foliar prolongado.  

Nessas condições, os urediniosporos, estruturas reprodutivas do fungo, são dispersos pelo vento e pela chuva, infectando as folhas do cafeeiro. 

Após a infecção, surgem lesões amareladas na face superior das folhas e pústulas alaranjadas na face inferior, liberando novos urediniosporos. 

Esse ciclo rápido e contínuo, especialmente em períodos chuvosos, pode levar a desfolha intensa e comprometer severamente a capacidade produtiva da planta. 

Estudos sobre a variabilidade de raças fisiológicas de H. vastatrix indicam a presença de diferentes populações do fungo em localidades distintas, ressaltando a complexidade do patossistema e a necessidade de manejo regionalizado. 

Impacto econômico e histórico de controle no Brasil 

Surtos epidêmicos de ferrugem podem resultar em perdas de produtividade entre 30% e 70%, dependendo da severidade da infecção e da suscetibilidade da cultivar. 

Além da redução na produção, a doença afeta a qualidade dos grãos e aumenta os custos de manejo. 

Desde a primeira ocorrência da ferrugem no café na Bahia, em 1970, o controle da ferrugem evoluiu com o desenvolvimento de fungicidas sistêmicos e protetores. Os triazóis desempenharam papel central nesse processo pela sua eficácia e sistemicidade.  

O manejo integrado, combinando estratégias químicas, culturais e genéticas, tornou-se a base para a convivência com a doença. 

Folha com ferrugem

Triazóis no controle da ferrugem: como funcionam e por que a eficácia pode cair 

Os fungicidas triazóis são amplamente utilizados no controle de doenças fúngicas em diversas culturas, incluindo o café. Sua sistemicidade e amplo espectro de ação os tornam ferramentas valiosas no manejo fitossanitário.  

Para entender o risco de resistência, é preciso conhecer como esses produtos atuam e de que forma o fungo pode desenvolver tolerância. 

Mecanismo de ação dos fungicidas DMI 

Os fungicidas triazóis pertencem ao grupo dos Inibidores da Desmetilação de Esteróis (DMI), código FRAC G1. Seu mecanismo de ação consiste em inibir a atividade da enzima lanosterol 14α-desmetilase, essencial na biossíntese do ergosterol.  

O ergosterol é um componente vital da membrana celular dos fungos, responsável por manter sua integridade e fluidez. 

Ao inibir a síntese de ergosterol, os triazóis comprometem a integridade da parede celular fúngica, levando à disfunção e morte do patógeno. Essa ação específica os torna eficazes contra uma ampla gama de fungos fitopatogênicos. 

Como a resistência se desenvolve em Hemileia vastatrix 

resistência de fungos a fungicidas é um fenômeno evolutivo impulsionado pela pressão de seleção.  

Com aplicações repetidas, os indivíduos sensíveis da população são eliminados, enquanto aqueles com mutações que conferem menor sensibilidade ao produto sobrevivem e se reproduzem. Com o tempo, essa população pode se tornar predominante. 

No caso dos triazóis, a resistência pode ocorrer por mutações pontuais no gene-alvo (CYP51), que codifica a enzima lanosterol 14α-desmetilase, pela superexpressão desse gene, ou por alterações no transporte do fungicida para fora da célula fúngica.  

Embora a resistência de H. vastatrix a triazóis não esteja confirmada no Brasil o uso intensivo e a alta variabilidade genética do patógeno justificam atenção permanente a esse risco. 

Evidências de campo: o que os dados mostram sobre a resistência no Brasil 

Mesmo sem relatos oficiais de resistência de H. vastatrix aos triazóis, observações de campo por parte de produtores e agrônomos em algumas situações têm levantado discussões sobre a manutenção da eficácia esperada.  

É fundamental, no entanto, distinguir entre a percepção de menor controle e a confirmação científica de resistência. 

Principais regiões com relatos de menor eficácia 

As principais regiões cafeeiras do Brasil como Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Chapada de Minas, Espírito Santo, São Paulo e Bahia são áreas de intensa cafeicultura e alta pressão de doenças.  

É nessas regiões que as discussões sobre a eficácia dos triazóis são mais frequentes, geralmente associadas a lavouras com histórico de alta incidência de ferrugem e uso contínuo de fungicidas. 

Universidade Federal de Viçosa (UFV) tem conduzido estudos de sensibilidade de isolados de H. vastatrix em regiões produtoras de Minas Gerais. 

Esse monitoramento é fundamental para detectar precocemente qualquer alteração na população do fungo e permitir o ajuste das estratégias de manejo de forma localizada e preventiva. 

O que diferencia falha de controle de resistência confirmada 

Uma falha de controle pode ter diversas causas distintas da resistência do patógeno. Entre as principais: 

  • Aplicação incorreta: dose inadequada, má cobertura foliar ou momento de aplicação tardio. 
  • Condições climáticas: chuvas logo após a aplicação, alta umidade e temperatura favoráveis ao patógeno no momento da intervenção. 
  • Alta pressão da doença: nível de inóculo muito elevado no campo no momento da aplicação. 
  • Variações de sensibilidade: diferenças na sensibilidade da população do fungo, sem que haja resistência plena confirmada. 

A resistência confirmada, por sua vez, é verificada por meio de testes laboratoriais que demonstram alteração genética no patógeno, resultando em sua capacidade de sobreviver e se reproduzir na presença da dose usual do fungicida.  

Ensaios de germinação de esporos e análises moleculares para identificação de mutações específicas são os métodos mais utilizados. 

Entenda: Ferrugem asiática da soja: alerta máximo no pico de esporos  

Como adaptar o programa de fungicidas para a ferrugem do cafeeiro 

A adaptação do programa de fungicidas é uma medida proativa e essencial para preservar a eficácia dos produtos disponíveis e gerenciar o risco de resistência.  

Mesmo na ausência de resistência confirmada, a pressão de seleção exercida pelo uso contínuo de triazóis e a alta capacidade reprodutiva do fungo justificam a adoção de estratégias anti-resistência. 

Princípios do manejo anti-resistência aplicados ao café 

O manejo anti-resistência baseia-se em princípios sólidos que visam prolongar a vida útil dos fungicidas disponíveis: 

  • Rotação de fungicidas: alternar produtos com diferentes mecanismos de ação (grupos FRAC) ao longo do ciclo da cultura. 
  • Misturas de tanqueutilizar formulações que combinem fungicidas com mecanismos de ação distintos, aumentando a barreira para o desenvolvimento de resistência. 
  • Dose e momento corretos: aplicar a dose recomendada no momento adequado, conforme o monitoramento da lavoura e as condições climáticas. 
  • Monitoramento da eficácia: avaliar continuamente a performance dos fungicidas em campo e relatar qualquer suspeita de redução de eficácia aos órgãos de pesquisa como a Embrapa Café e o FRAC-BR. 

Alternativas e misturas de grupos químicos 

Para mitigar o risco de resistência, é fundamental incorporar alternativas e misturas de diferentes grupos químicos ao programa de controle da ferrugem do cafeeiro.  

Além dos triazóis (FRAC G1), as principais opções são: 

  • Estrobilurinas (FRAC C3): inibem a respiração mitocondrial. Sistêmicas e com bom efeito preventivo. 
  • Carboxamidas/SDHI (FRAC C2): inibem a succinato desidrogenase. Sistêmicas, com atividade preventiva e curativa. 
  • Multissítios (FRAC M): fungicidas de contato com ação em múltiplos sítios do fungo, com baixo risco de resistência. Importantes aliados na rotação. 

A alternância de um triazol com uma estrobilurina ou a aplicação de misturas formuladas com diferentes FRACs é uma prática recomendada. O MAPA Agrofit disponibiliza informações sobre todos os produtos registrados e seus mecanismos de ação. 

Grupo Mecanismo (FRAC) Característica principal Estratégia de uso 
Triazóis Inibidores da Desmetilação de Esteróis (DMI) — G1 Sistêmicos, preventivos e curativos Rotação com outros grupos. Misturas com C2, C3 ou M para reduzir pressão de seleção. 
Estrobilurinas Inibidores da Quinona Externa (QoI) — C3 Sistêmicas, principalmente preventivas Rotação com outros grupos. Nunca usar isoladamente. Misturar com triazóis ou multissítios. 
Carboxamidas (SDHI) Inibidores da Succinato Desidrogenase — C2 Sistêmicas, preventivas e curativas Rotação com G1 e C3. Evitar uso exclusivo. Misturar com protetores multissítios. 
Multissítios Diversos sítios de ação — M (ex: Mancozebe) Contato, protetores, baixo risco de resistência Alternância ou mistura com sistêmicos. Pilar do manejo anti-resistência. 

Nota: Estrobilurinas (C3) e carboxamidas (C2) podem apresentar resistência cruzada. 

Boas práticas no manejo integrado da ferrugem do cafeeiro 

O manejo integrado da ferrugem combina estratégias culturais, uso de variedades resistentes e aplicação racional de defensivos.  

A chave é a tomada de decisão baseada em monitoramento constante da lavoura e no conhecimento das condições que favorecem o desenvolvimento da doença. 

Monitoramento, época de aplicação e tecnologia de aplicação 

A inspeção visual regular das folhas permite identificar os primeiros focos da doença e determinar o nível de incidência. O acompanhamento de umidade e temperatura auxilia na previsão do surgimento da doença, orientando o momento ideal de aplicação dos fungicidas. 

Aplicações preventivas, antes que a doença atinja níveis prejudiciais, são mais eficazes e economicamente viáveis. Geralmente, as aplicações começam no início do período chuvoso e são repetidas conforme a pressão da doença e a residualidade do produto.  

A tecnologia de aplicação impacta diretamente a eficácia: volume de calda correto, pressão adequada,cobertura foliar uniforme e condições climáticas adequadas são determinantes para que o produto chegue ao alvo. 

Variedades resistentes e manejo cultural como apoio ao controle químico 

O uso de variedades resistentes é uma das estratégias mais promissoras e sustentáveis para o controle da ferrugem. Cultivares derivadas do germoplasma Catucaí e outras com resistência documentada à H. vastatrix reduzem a necessidade de aplicações químicas e a pressão de seleção sobre os fungicidas, contribuindo diretamente para a prevenção da resistência. 

O manejo cultural complementa as demais estratégias: espaçamento adequado entre plantas, poda de esqueletamento, manejo da adubação para equilibrar a nutrição e controle de plantas daninhas contribuem para a aeração da lavoura e a redução da umidade foliar.  

Essas ações diminuem a pressão de inóculo e aumentam a eficácia das aplicações de fungicidas. 

Leia sobre: Mapas de produtividade: como usar dados da colheita para melhorar o manejo da lavoura 

Soluções Syngenta para o manejo da ferrugem do cafeeiro 

A Syngenta disponibiliza um portfólio de fungicidas com diferentes mecanismos de ação para auxiliar os cafeicultores no controle da ferrugem, incluindo opções para rotação e mistura em programas de manejo anti-resistência. As tecnologias são desenvolvidas com base em pesquisa contínua, buscando performance e sustentabilidade no campo. 

Para informações detalhadas sobre produtos registrados para a cultura do café, recomendações de uso, doses, compatibilidade e estratégias de rotação, consulte sempre um engenheiro agrônomo responsável e verifique o registro no MAPA Agrofit

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável.  

Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo que está acontecendo no campo.